Capítulo
II.1 Nietzsche y la historicidad del sujeto.-
II.1.2 Genealogía e historia.-
Na tessitura deste capítulo e, de modo mais específico, no registro das narrativas destas crianças, Gaston Bachelard trouxe-me um importante apoio teórico. Para o escritor francês, para além de uma infância cronológica que se refere a uma fase da vida humana, a infância é também simbólica, e esta “não é uma coisa que morre em nós e seca, uma vez cumprido o seu ciclo. Não é uma lembrança. Ela é o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos...”196 Para Bachelard, a infância vê, simbolicamente, o Mundo ilustrado, “com suas cores primeiras, suas cores verdadeiras”. A infância “permanece em nós como um princípio de vida profunda, de vida sempre relacionada à possibilidade de recomeçar”197.
Por isso, pensar no significado permanente, durável, vivo e imóvel desta infância torna-se ainda mais interessante e, ao mesmo tempo, mais trágico. Se, conforme Bachelard, “é na infância que se conhece a infelicidade pelos homens”, será também por meio dela, nos seus devaneios, que haverá a possibilidade de reimaginá-la. Mas quem ajudará a criança traumatizada, estigmatizada, sofrida, abandonada, impossibilitada de devanear? Se na perspectiva bachelardiana a infância nunca abandona suas moradas noturnas, quem visitará o adulto nas noites sombrias e escuras, cujas infâncias lhe foram roubadas?
Para Gaston Bachelard, toda infância é, naturalmente, fabulosa. E, tomando a expressão do autor, não são com as fábulas fósseis, com os fósseis de fábulas que os
196BACHELARD, Gaston. Os devaneios voltados para a infância. In: A poética do devaneio. São Paulo:
Martins Fontes, 2006, p.130.
101 avós contam que vive a imaginação da criança: é nas suas próprias fantasias, “é no seu próprio devaneio que a criança encontra as suas fábulas, fábulas que ela não conta a ninguém.” 198 Então, se a fábula é a própria vida, que diferença faz se uma história inventada por uma criança é um acontecimento ou pura imaginação? Tanto uma quanto a outra evocam o mesmo sentido: a própria vida. Contudo, a fábula tem uma linguagem própria, e para redescobrir a linguagem das fábulas, segundo Bachelard, “ é necessário participar do existencialismo do fabuloso, tornar-se corpo e alma de um ser admirativo, substituir diante do mundo a percepção pela admiração. Admirar para receber os valores daquilo que se percebe.” 199
Foi nessa perspectiva bachelardiana que busquei compreender o “existencialismo do fabuloso”. Se crianças são seres fabulosos porque criam suas próprias histórias, que linguagem poderia decifrá-las e interpretá-las? Que valor as crianças agregam a cada história contada ou inventada? Para o escritor francês, compreender as linguagens, “acolher na sua atualidade pessoal a poesia dos devaneios de infância é naturalmente muito diferente dos exames objetivos, tão úteis dos psicólogos da criança. Mesmo deixando falar livremente as crianças, mesmo observando-as sem censura, enquanto elas têm total liberdade de seu jogo, mesmo escutando-a com a terna paciência de um psicanalista de crianças, não se atinge necessariamente a pureza simples do exame fenomenológico”.200
É preciso ir além... Conforme muito bem salienta o autor, é necessário abrir mão de métodos comparativos, tornar a criança incomparável, assim como a mãe vê o seu próprio filho!201
Todavia, para Bachelard, somos demasiado instruídos para permitir um olhar menos objetivo e desobrigado de qualquer método comparativo. Nos seus dizeres nós, adultos, empanturramos as crianças de sociabilidade, “preparamo-la para sua vida de homem no ideal dos homens estabilizados. Instruímo-la também na história de sua família”202 e, tragicamente, empurramos no espremedor essa infância-massa para que a criança siga direitinho o caminho dos outros. Em nossa objetividade, por métodos científicos e racionais, tentamos explicar os fenômenos que acometem a infância em suas complexas e profundas nuances. Pretensão demasiada de intelectuais e acadêmicos
198Ibid. p.113.
199BACHELARD, Gaston. Os devaneios voltados para a infância. In: A poética do devaneio. São Paulo:
Martins Fontes, 2006, p.101-102.
200Ibid. p.101. 201Ibid, p.101-102. 202 Ibid. p.102
102 que acreditam chegar à compreensão do que se passa na subjetividade humana, quanto mais na subjetividade da infância!
“Crianças, nos são mostradas tantas coisas que perdemos o senso profundo de ver!”203. Essa é a advertência de Bachelard , que revela um caminho a ser compreendido: “a infância é o poço do ser”.204 Poço, lugar de mistérios, de escuridão, de segredos incontidos, de águas longínquas... Lugar-poço de onde não se espera nada, mas que pode fazer brotar a água que refresca a vida e acalma o ser.
Para conseguir compreender a linguagem das crianças nas narrativas que se seguem, mergulhei no mais profundo do meu ser. Procurei resgatar a infância que permanece em mim como um princípio de vida profunda, conforme sugere Bachelard205, para que, a partir deste olhar-infância me fosse possível exercitar o senso profundo de ver. Ver com outras lentes o invisível, o incontido, o que facilmente não se revela. Ver o mundo em suas cores primeiras, o mundo ilustrado, com suas cores verdadeiras. Ver sem os olhos do adulto míope que escolheu não enxergar.
Se é verdade, então, que “uma criança coexiste conosco numa zona de vizinhança ou num bloco de devir, numa linha de desterritorialização que nos arrasta a ambos – contrariamente à criança que fomos, da qual nos lembramos ou fantasmamos, a criança molar da qual o adulto é o futuro”, 206 é nesse devir-criança, marcado pela singularidade do encontro entre as temporalidades da infância e da vida adulta que pretendo me situar. Por isso, o interesse em tentar compreender essa infância marcada pelo estigma – o estigma de ter um parente na prisão – perpassa minha própria infância e ultrapassa as temporalidades: nos anos setenta, meu primo mais velho, filho de um tio com uma mulher com qual ele não se casara, era muito agressivo, mas demasiadamente rejeitado. Iniciou-se nas drogas com apenas dez anos, e sempre se envolvia em situações que o levavam à prisão. Seu pai não se importava, e sempre dizia que queria vê-lo apodrecer na cadeia para que ele aprendesse a lição.
Meu pai era quem o acolhia. Sempre. Ia de bom grado ao presídio todas as vezes que ele era preso. Pagava fiança e não se importava em ajudá-lo. Quando adulto, casou- se e tornou-se pai de dois filhos. Quando ia preso, poucos da família se organizavam para cuidar dos meninos e amparar a mãe, sobretudo financeiramente. Suas idas e
203Ibid, p.122. 204 Ibid. p.109
205 Ibid. p.114
206DELEUZE, Gilles. GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Vol. IV. São Paulo:
103 vindas da prisão despertaram em mim sentimentos diversos, mas o maior deles sempre foi o da compaixão.
Além deste primo, eu também convivia com algumas crianças que, ou não conheciam seus pais, ou os tinham na prisão. A convivência com essas crianças se dava porque elas moravam com suas mães-prostitutas, cujos bordeis se localizavam no entorno de onde eu morava. Minha casa era a única da rua, e além de um bar e algumas oficinas, era cercada por muitos bordeis. Todas as noites vislumbrava o movimento dos homens com suas prostitutas, as bebedeiras, a presença intensa da polícia a vigiar e a controlar os que se exaltavam ou se envolviam em alguma briga. Eram muitas as prostitutas que tinham filhos, muitos dos quais não conheciam o pai ou tinham o pai na prisão.
Minha mãe nunca me impediu de com eles brincar. Ao contrário, dizia que o meu amor deveria ajudá-los. Vez ou outra ela levava uma criança pra dentro de casa, dava banho, comida, às vezes o deixava dormir. Os gestos amorosos de meu pai e de minha mãe são devaneios profundos e indeléveis que jamais irão se apagar. Encontrando-me com a criança que outrora fui, recordo-me da compreensão que tinha do distanciamento entre a minha infância e a desses meninos, entre a minha história e a do meu primo, rejeitado pelo próprio pai. Indignação – este era o sentimento que me movia ao perceber a dureza da vida daquelas crianças que sonhavam com um destino melhor. Lembro-me de adentrar aqueles bordeis sujos, iluminados por uma penumbra vermelha que dava sentido àquela ambiência, mas também abrigava um universo infantil, paralelo, escondido da vigilância policial e dos que poderiam denunciar.
Ainda que compreendendo o distanciamento entre as infâncias, estes meninos eram, para mim, apesar dos estigmas que insistiam em marcá-los – pobres, desamparados, filhos de prostitutas com presidiários – simples crianças, exatamente como eu! Continuo a ouvir a advertência de Bachelard: “Ai de quem não pode se lembrar de sua infância, reabsorvê-la em si mesmo, como um corpo no seu próprio corpo, um sangue novo no sangue velho: está morto desde que ela o deixou.” 207
Viver de novo a criança que fui, cultivar a criança que habita em mim é condição metodológica sine qua non para ousar pensar e escrever sobre as trágicas narrativas das crianças que passaram por mim, seja em que temporalidade for. Porém “só podemos ser tocados pelos objetos aos quais nosso desenvolvimento e nossa história
207BACHELARD, Gaston. Os devaneios voltados para a infância. In: A poética do devaneio. São Paulo:
104 nos tornaram sensíveis, pois lhe atribuímos um significado particular “208 Nesse sentido, a criança que coexiste em mim, bem como os devaneios da minha própria infância constituir-se-ão em uma nova forma de ver o profundo e o velado que significam essas infâncias roubadas, com as quais tive o privilégio e, ambiguamente, a agonia, de conviver.