• No results found

Análisis de la obra de Foucault estructurada en periodos separados.-

Capítulo

I.3 Análisis de la obra de Foucault estructurada en periodos separados.-

O foco deste capítulo é a esta infância: crianças maltratadas, exploradas, abandonadas. Crianças que todos os dias sofrem diferentes formas de agressão, sobretudo de seus familiares. Crianças que desde a tenra idade são expostas a situações de perigo e de algum tipo de ilegalidade. Crianças que vivenciam sentimentos diversos ao ter um parente próximo, querido ou não, na prisão. Crianças que também passam a assimilar as práticas prisionais depois do encarceramento de seu parente, com maior rigor se for o pai, a mãe ou o irmão. Crianças que, de maneira precoce, deixam de ser crianças.

Ocupo-me em abordar trajetórias de crianças que, em sua maioria, ao terem um parente próximo recluso, enfrentam situações de risco, de maus tratos, de isolamento, submetidas às ações totalitárias, tanto da família quanto do Estado, conforme o sentido dado por Hannah Arendt174, destituídas dos direitos que deveriam fazer de seu universo “um mundo eminentemente infantil, um mundo onde realidade e o caráter lúdico da convivência com os outros se encontrassem entrelaçados em uma unidade indissociável”.175 Mas, ao contrário, essas crianças, cujas vidas estão desnudadas de todo tipo de proteção, ainda que garantidos os direitos por Lei, dão testemunho, em forma de trágicas narrativas, de que suas vidas foram relegadas à condição de meras vidas, de zoé.

Minha experiência profissional como pedagoga, ao longo de anos de contato e convívio com essas crianças, instigou-me a buscar compreendê-los em sua subjetividade – quem são esses meninos e meninas, como se sentem quando um parente próximo é encarcerado e como reagem às práticas criminais parentais. Embora num primeiro momento minhas inquietações se restringissem ao desenvolvimento escolar, que apresentava profundas alterações quando enfrentavam a reclusão do parente próximo,

174 ARENDT, Hannah. Sobre a natureza do totalitarismo: uma tentativa de compreensão. In:

Compreender: formação, exílio e totalitarismo (ensaios) 1930-54. São Paulo: Companhia das Letras: Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 347-380.

175ADORNO, Sérgio. A experiência precoce da punição. In: O massacre dos inocentes. São Paulo,

88 percebi que as interpretações pedagógicas não seriam suficientes para compreender essas questões que não só adentravam a escola, mas também ultrapassavam seus muros.

O título do capítulo faz referência à história de dona Eli – mãe de seis filhos, mulher sofrida pela perda temporária de seu menino de apenas seis anos. Ao ser flagrado com drogas na porta da escola, a criança foi encaminhada ao abrigo para menores infratores. Esta mulher também é marcada por outra perda, esta, sem volta: a de seu “outro menino”, morto a pauladas depois de sair do presídio, aos dezoito anos, também vítima do tráfico de drogas. 176Dona Eli não sofre sozinha, mas estende suas dores aos outros filhos que também terão que conviver com o luto e com a reclusão do irmão.

Filhos de Elis – eles representam os milhares de sujeitos-crianças que sofrem com o encarceramento de um parente próximo, e passam a assumir, junto aos adultos, a prisionização secundária: assimilam as práticas e dispositivos prisionais, perturbam-se com a situação de reclusão, banalizam as ilegalidades e desenvolvem comportamentos os mais diversos possíveis, como agressividade, apatia, bloqueios na aprendizagem, inquietação, indiferença, cinismo. Além desses comportamentos, esses sujeitos- crianças desenvolvem sentimentos diferenciados: tristeza, medo, abandono, inconformismo. Sentimentos que, na fala de muitas crianças, são enunciados pelo termo “tragédia”.

Essas crianças levam para a ambiência escolar parte de suas vivências familiares, de seus credos, de seus medos, de suas angústias, de suas alegrias, de seus fracassos ou sucessos. Assim, reinventam suas experiências a partir da convivência com colegas e professores. Isto faz da escola um espaço privilegiado para se compreender os discursos produzidos em torno desta infância pobre177, inserida precocemente numa trama perversa de ilegalidades, maus tratos, abandono, abuso sexual e moral.

Dezenas de testemunhos de crianças que chegaram a mim nesses últimos seis anos, além das observações em atendimento escolar como orientadora educacional, instigaram-me a tentar compreender esta rede interminável de assujeitamentos: enquanto crianças, são vítimas e quando se tornam adolescentes ou adultas, reproduzem

176 Este acontecimento foi informado a mim pela mãe, dona Eli, em situações de conversa na Sala de

Orientação Educacional, em março de 2008. O filho mais velho havia sido morto ao sair do Presídio Jacy de Assis, em dezembro de 2007.

177 O termo “infância pobre” será utilizado ao longo do capítulo, fazendo referência às crianças

empobrecidas que, para além da destituição de bens materiais e simbólicos, são carentes de afetos, de proteção e amparo. Isto porque, nem sempre, a criança que é desprovida de bens materiais e culturais o é de carinho, cuidados e de uma ambiência familiar que a proteja.

89 os maus tratos agora como algozes. Outra configuração de “zona cinzenta”, retomando a noção-metáfora de Primo Levi, onde vítimas e algozes se confunde, se misturam e ambiguamente se revelam.

Frente a essa realidade, algumas questões se impuseram: quais os discursos produzidos socialmente sobre esta infância pobre, esta criança que tem um parente recluso, envolvendo-a nesta rede de assujeitamentos sem fim? Quais os significados destes discursos que procuram excluir essas crianças do convívio social e justificar, por meio da ambiência em que vivem e dos parentes que possuem a indignidade de não serem como as demais? Como esses discursos produzem tipos de saberes, inclusive os pedagógicos, que não só instituem certo tipo de criança como também nos ensinam como devemos lidar com elas e quais estratégias visam governá-las e discipliná-las?

Refletir sobre a infância dessas crianças pobres, marcadas pelas experiências adversas de vida e de morte, de miséria, de abandono, de maus tratos e perversidades, estigmatizadas quando um parente próximo vai para a prisão, levou-me a romper com interpretações que me conformavam aos discursos dominantes sobre esta infância. Por isso, assumi outro registro: saindo “em busca de novas perspectivas, coloquei-me num outro ponto focal e eduquei-me para olhar de outra maneira aquilo que eu não podia ver senão com as velhas e confortáveis lentes”. 178