A década de 1860 foi um marco na história da Igreja Adventista do Sétimo Dia, não só pelo acontecimento de sua organização, mas também
80 A palavra seita vem do latim “sectare”, que significa “separar”, “cortar”, “dividir”, “partir”. O Dicionário informa que a palavra seita, em seus vários usos, tem o seguinte sentido: SEITA – Subst. Fem. [do latim, secta] – 1. Doutrina ou sistema que diverge da opinião geral e é seguido por muitos. 2. Conjunto de indivíduos que professam a mesma doutrina. 3. Comunidade fechada, de cunho radical. 4. Teoria de um mestre seguida por numerosos prosélitos. 5. pop. Facção, partido. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo
Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 3ª. Ed. 1ª impressão, Editora Positivo. 2004. Em
Religião, é comum o uso do termo seita para definir pequenos grupos ou movimentos religiosos de cunho separatista, que se desprende por qualquer motivo de discordância, de uma grande doutrina ou Instituição religiosa organizada. Nesse caso, geralmente, as seitas por serem separatistas, são também inicialmente minorias, grupos pequenos de pessoas, sem muitas estratégias administrativas e com poucos recursos, sejam eles quais forem. Afirma-se também, que as seitas religiosas, em comparação às grandes denominações detentoras de grande número de fiéis, recursos financeiros, patrimônio e estruturas doutrinárias e teológicas bem definidas, são instáveis, descentralizadas, desorganizadas e rudimentares. No caso da IASD, com relação ao termo separatista, não é possível aplicá-lo com segurança à sua história. Mesmo na época do Grande Desapontamento, não é possível dizer que houve um rompimento discordante da IASD em relação ao Movimento Millerita. Parece, sim, que existiu mais um aprimoramento das crenças adventistas do que especificamente um rompimento para com elas. No que se refere a uma separação em relação a uma organização administrativa forte e bem definida, o próprio Movimento Millerita era desprovido dessa organização. Portanto, nesse caso, também não se pode afirmar que a IASD seja uma seita advinda de uma Igreja (denominação, Instituição, seja lá o que for) forte e consolidada. Os crentes que compunham o Movimento Millerita e mesmo o grupo de pioneiros da IASD, liderado por Ellen G. White após o Grande Desapontamento, eram pessoas que migraram de diversas instituições, eram pessoas convertidas, de origem pulverizada, vindas de vários lugares. A IASD em seu início não era um grupo que se formou no interior de uma Instituição forte e tradicional, que depois rompeu ligação por motivo de discordância teológica, dogmática, filosófica, etc. Essa nunca foi uma característica da IASD. O que podemos notar, neste caso, é a história de um grupo religioso originado de um movimento coletivo empreendido por Guilherme Miller em 1831, e que depois de 1844, com o Grande Desapontamento, ganhou outra dinâmica, fortalecendo-se de forma peculiar através do grupo de Ellen G. White, e que em 1860, depois de adquirir amplitude e complexidade, organizou-se como Instituição administrativa, burocrática e hierárquica. Parece mais coerente, portanto, dizer que a IASD surgiu de maneira independente, através do processo de agregação de pessoas, lideradas por outras num mesmo propósito de fé, e que foi se desenvolvendo até adquirir um status administrativo complexo, tornando-se Instituição religiosa consolidada, longe de predicados de seita.
pela consolidação de sua expansão nos EUA. E apesar de a Guerra Civil81 que estourou naquele país entre 1861 e 1865 ter dificultado parcialmente o processo, já que as condições sociais em um período de Guerra são pouco favoráveis, a Igreja se manteve firme, ainda mais ao receber do governo o
direito de não-combate em favor dos crentes adventistas. Mas com o fim do
conflito, os planos de expansão se tornaram ainda mais efetivos.
O objetivo era expandir as dependências da Igreja para cidades do
extremo Oeste do país, intensificando a pregação da mensagem. Em 1868, o
pastor J. N. Loughborough chefiou a empreita àquela região. Conferências e batismos passaram a ser realizados. Fundava-se o maior número possível de grupos e comunidades adventistas. O casal Tiago e Ellen G. White, em 1872, vendeu uma casa de posse em Battle Creek e doaram o dinheiro, para que este fosse aplicado nos projetos de expansão no extremo Oeste e Canadá.
Podemos observar outra característica marcante no movimento de expansão da IASD. Trata-se da preocupação com a vida saudável. Em 1863, Ellen G. White recebeu visões a respeito de um estilo ideal de vida e de
alimentação para a Igreja. Os que trabalhavam na difusão do evangelho pelo
país, percorrendo várias cidades, tinham sua saúde debilitada em detrimento da rotina desregrada. A proposta de viver bem, seguindo certas orientações alimentares, fez do discurso adventista um diferencial em relação às outras denominações. Na história da IASD, isso ficou conhecido como “Reforma de Saúde”. A revista Health Reformer, de 1866, começou a ser publicada e difundida para todos os adventistas do sétimo dia. Suas páginas continham instruções de como escolher alimentos saudáveis e nutritivos, seguir receitas de dietas ricas em verdura, frutas, legumes e cereais, bem como orientações para uma vida de exercício físico e atividades desportivas.
Os hábitos alimentares dos adventistas do sétimo dia fazem parte de suas características elementares. A preocupação com a saúde tornou-se parte fundamental de sua filosofia de vida. Hoje a IASD é lembrada por sua peculiar aversão a determinados tipos de alimentos como: carne de porco,
81 KARNAL, Leandro; PURDY, Sean; FERNANDES, Luiz Estevam; MORAIS, Marcus Vinícius. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. 2ª Ed. São Paulo: Contexto, 2008.
café, refrigerante, frutos do mar e carne de peixes com couro - peixes que
não possuem escamas. Para todos os alimentos recusados, os adventistas possuem embasamento teológico. A maior parte da aversão está sustentada no livro bíblico Levíticos, ao falar das leis alimentares para o Povo de Israel, e também nas visões de Ellen G. White. Em 1866, na cidade de Battle Creek, os adventistas do sétimo dia criaram o Instituto de Reforma de Saúde, um centro de referência em Saúde, depois conhecido como Sanatório de Battle
Creek. Muitos hospitais foram edificados. Hoje, as clínicas de Saúde, escolas
de medicina, hospitais e universidades da IASD nos EUA e no mundo são conhecidos por seu nível máximo de excelência e qualidade.
A expansão da IASD também foi marcada por medidas voltadas ao campo da Educação nos EUA. As Escolas de Educação Adventista foram fundamentais no processo. Possibilitaram a difusão dos princípios teológicos da IASD e seu fortalecimento institucional. Hoje as escolas são conhecidas como Colégios Adventistas e estão espalhados pelo mundo todo. Variam do ensino fundamental à educação superior. Ellen G. White, no Livro “A Igreja Remanescente”, fala um pouco a respeito da necessidade de construírem colégios e hospitais naquele tempo. Vejamos:
Como se o desenvolvimento da obra nos impelisse a novos empreendimentos, dispusemo-nos a começá-los. O Senhor nos dirigiu o espírito para a importância da obra educativa. Vimos a necessidade de escolas, para que nossos filhos pudessem receber instrução isenta de erros da falsa filosofia, e para que sua educação estivesse em harmonia com os princípios da Palavra de Deus. A necessidade de instituições de saúde fora-nos encarecida, para auxílio e instrução de nosso próprio povo, e como meio de beneficiar e esclarecer a outros. Este empreendimento foi também levado avante. Tudo isto era obra missionária da mais elevada espécie.82
O primeiro desses colégios foi criado em Battle Creek, em 1872. Detinha educação de base, rica na filosofia adventista e ideias de bom viver, tornando-se polo de orientação de fiéis e futuros membros. É a escola como instrumento de evangelização. A IASD adotou o lema de uma educação de
82 WHITE, Ellen G. A Igreja Remanescente. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 8ª Ed., 2005, p. 23.
qualidade para uma vida de qualidade. Tanto que hoje, tornou-se uma dentre
as denominações que mais têm colégios e universidades no mundo.
E intensificaram-se também as reuniões campais - acampamentos para orações, conversões e batismos - bem como as Escolas Sabatinas nos locais onde a Igreja se instalava. Aliás, isso fez com que a impressão de materiais didáticos e a produção de lições bíblicas aumentassem. As Escolas
Sabatinas tornaram-se ponto nevrálgico, parte vital da IASD. Através delas
muitas pessoas são evangelizadas, convertidas e inseridas na comunidade. O material didático das escolas acompanhou a literatura missionária. Tanto que, a partir de 1869, foram criados departamentos especificamente voltados à obra literária. São eles os seguintes: a Sociedade de Literatura Missionária, o Ministério de Colportagem, o Departamento de Publicações e o Ministério
Pessoal. Todos responsáveis por publicações de cunho evangelizador.
No começo da década de 1870, a expansão da Igreja nos EUA já estava firmada. A IASD havia construído suas escolas, templos, hospitais, universidades, publicadoras e sedes administrativas em todas as regiões do país. Assim, chegava o momento de uma expansão internacional. Em uma Conferência Geral - esta que é a reunião mais importante da administração - realizada em 1874, os dirigentes da Igreja decidiram enviar seu primeiro
Missionário Além-Mar. Leiamos sobre o fato no seguinte texto:
Finalmente, na sessão da Conferência Geral de 1874 uma atitude oficial muito significativa para o avanço da obra foi tomada. John Nevins Andrews foi eleito o primeiro missionário além-mar oficial e foi enviado para a Suíça. Seu filho Charles, 17, e sua filha Mary, 13, foram com ele de navio; sua esposa havia falecido em 1872. Logo após sua chegada, a Missão Europeia foi organizada. Andrews chegou ir à Prússia (1875) e relatou haver encontrado um grupo de 46 guardadores do sábado lá. Em 1876 a obra de publicações começou em Basiléia e o primeiro periódico adventista do sétimo dia na língua francesa, Signs of the Times, surgiu.83
Desse período em diante, a Igreja Adventista do Sétimo Dia iniciou sua expansão global. Em 1878, mais missionários foram enviados à Europa,
83 IASD. Nossa Herança: História da Igreja Adventista do Sétimo Dia para o Ministério Jovem. Trad. Itamar Padrão de Siqueira. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004, p. 66.
introduzindo a Igreja em países como Inglaterra, Itália, Alemanha, França, Romênia e Rússia. Em 1884 o presidente da Associação Geral, George I. Butler, ao lado de Ellen G. White, visitou a Europa, reafirmando os interesses da IASD em uma expansão ainda maior. E dali então, o destino já apontava para continentes como: África, América Central, América do Sul e Oceania.
Ellen G. White, ativa nessa fase de expansão global da Igreja, em 1891 viajou de navio para a Austrália e viveu naquele país durante 9 (nove) anos. Aliás, ela sempre fez questão de instruir a administração da Igreja no sentido expansionista do trabalho missionário. Seu desejo era que os limites da obra sempre fossem estendidos. Em suas palavras:
A igreja deve crescer em atividade e alargar seus limites. Nossos esforços missionários devem ser expansivos. Temos de alargar nossos limites. Conquanto haja violentas lutas no esforço de mantermos nosso caráter distintivo, contudo, como cristãos bíblicos, devemos estar sempre ganhando terreno.84
O início do sec. XX marcou definitivamente a expansão da IASD. Em 1901, após uma Conferência Geral, a Igreja reorganizou seu sistema administrativo. O momento era desafiador e audacioso. A instituição deveria preparar-se para uma abrangência maior do campo, pois era tempo de uma
Obra Mundial. Dentre as mudanças mais significativas, destaca-se a criação
do sistema distributivo de uniões, associações, missões e a submissão de todas as instâncias ao órgão administrativo máximo da Igreja, a Associação
Geral. Assim, o trabalho missionário empreendido em diversos países, ficaria
então distribuído em áreas hierarquicamente planejadas.
A Conferência Geral de 1901 foi uma das mais importantes para a Igreja e sua estrutura. Mudanças muito importantes tiveram lugar na estrutura administrativa, o que deu muita liberdade de tomar decisões em nível de igreja local, permitindo a expansão máxima “em todo o mundo”. Algumas das mudanças instituídas foram: 1. A Comissão da Conferência Geral foi ampliada e tornada mais representativa. 2. União Associação/Missão e Associações/Missões locais se
84 WHITE, Ellen G. A Igreja Remanescente. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 8ª Ed., 2005, p. 63
tornaram o modelo de organização. 3. As Associações tiveram que dividir os dízimos e ofertas com as Missões. 4. Várias organizações independentes representando interesses diversos da denominação se tornaram departamentos da Associação Geral. Essa sessão da Conferência Geral de 1901 ficou conhecida como “O ponto de mudança na direção da unidade, reforma, dinâmica e ardente evangelismo”.85
O plano organizacional trouxe dinamismo ao trabalho missionário mundial. No entanto, essa contínua expansão mundial, atingindo todos os continentes, trouxe consigo a necessidade de uma última estruturação dos pilares institucionais da IASD. Assim, em 1913, mais uma vez a Conferência
Geral foi realizada. Então, nessa ocasião foi criado o sistema de Divisões e
anexado ao de uniões, associações, missões. Foi estipulado também o prazo periódico para que as Conferências Gerais acontecessem.
O último passo importante a ser dado após o estabelecimento de Uniões e Associações, em 1901, aconteceu em 1913, quando o campo mundial foi dividido em Divisões. Cada presidente de Divisão é um vice-presidente da Associação Geral. Os administradores e departamentais de ambas as instituições são eleitos na sessão da Associação Geral. Com o crescimento do trabalho de pregação e das despesas com o transporte de delegados, o intervalo da Conferência Geral foi primeiro aumentado de anual para bienal, depois para quadrienal, e em 1970 foi votado ser quinquenal (a cada cinco anos).86
Assim, após a Conferência Geral de 1913, a organização da Igreja ficou definida da seguinte forma: Associação Geral (órgão máximo que representa a Igreja e convoca, hoje, Conferências Gerais de cinco em cinco anos); Divisões (configura as áreas de abrangência da Igreja em grandes blocos, semelhante a escalas continentais); Uniões (subáreas dentro das
Divisões); Associações (subáreas dentro das Uniões) ou Missões (subáreas
dentro das Associações, e possuem abrangência local). Nota-se, portanto, que é um sistema administrativo complexo e funcional.
85 IASD. Nossa Herança: História da Igreja Adventista do Sétimo Dia para o Ministério Jovem. Trad. Itamar Padrão de Siqueira. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004, p. 72. 86 Idem, p. 78.
De uma Igreja em operação em um único país nos meados de 1800, esta igreja cresceu rapidamente e amadureceu, tornando-se uma igreja mundial no final dos primeiros 25 anos do século vinte. Esse período inclui a sobrevivência durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e quando esse período terminou, a liderança da igreja também começou a focalizar a questão de ir a todo o mundo.87
Quanto mais a Igreja crescia, mais responsabilidades surgiam. O número de atividades se multiplicava. A diversidade de tarefas implicou na criação de departamentos especiais, direcionados para cada tipo de trabalho realizado. E assim surgiram os departamentos de Comunicação, Educação,
Ministério da Família, Missão Global, Ministério da Saúde, Associação Ministerial, Relações Públicas e Liberdade Religiosa, Departamento de Publicações, Escola Sabatina e Ministério Pessoal, Departamento de Mordomia, Ministério da Mulher, Ministério de Colportagem e o Ministério Jovem. Cada um ocupa função salutar na ordem administrativa da Igreja. Os
departamentos são responsáveis pelo desempenho e qualidade dos serviços realizados pela IASD nos locais onde está presente.
Quanto às Divisões, das quais falamos acima, que representam as dependências da IASD pelo mundo em porções mais amplas, semelhantes às áreas continentais, podem ser descritas assim: Divisão do Pacífico Norte-
Asiático (DPNA); Divisão do Pacífico Sul-Asiático (DPSA); Divisão Centro- Leste Africana (DCLA); Divisão Centro-Oeste Africana (DCOA); Divisão Euro- Africana (DEA); Divisão Euro-Asiática (DES); Divisão Interamericana (DIA); Divisão Norte-Americana (DNA); Divisão África Meridional-Oceano Índico
(DAMOI); Divisão Sul-Americana (DSA); Divisão Sul-Asiática (DAS); Divisão
do Sul do Pacífico (DSP) e Divisão Transeuropéia (DTE). Assim, da metade
do séc. XX em diante, a IASD tem apresentado tal modelo administrativo.
87 Ibidem, p. 81.