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Geir Jørgen Bekkevold og Trine Skei Grande Dokument 12:31 (2011–2012)

«A tradição oral (…), o nosso património, quem o conhece? Meia dúzia de gatos-pingados do interior, normalmente pessoas analfabetas.» Fontinha (29/01/2013, pp.129 da presente dissertação na seção dos anexos) Assim começa Fontinha por dar grande relevância ao narrador tradicional português, proveniente do interior do país, cujo perfil encaixa no tipo de contador de histórias a quem Castro (2012:105) denomina como “narrador rural”.

«Hoje noto, à escala mundial, que há muitos contadores e muita variedade. Muitas vezes se fala de forma errada de contadores tradicionais, o que são raríssimos. No meu caso específico, comecei a contar histórias por que acho que há um deficit muito grande relativamente à personagem contador de histórias» (Fontinha, 29/01/2013)

Surge, no livro A Intuição Leitora, a Intenção Narrativa de Rodolfo Castro, o narrador rural em comparação com o narrador urbano. Fontinha comenta a sua preocupação acerca da forma errada como o primeiro é falado, no sentido em que recorrentemente é igualado ao segundo. Isto acontece nomeadamente quando o narrador urbano procura reavivar a memória oral e dar continuidade à tradição popular, ao se dedicar a trabalhos de pesquisa idênticos ao de António Fontinha. De facto, citando Castro, de uma forma geral, ainda que o narrador urbano “narre histórias que pertençam à tradição oral, obtém-nas maioritariamente a partir dos livros” (Castro, 2012:106). É de se notar que esta transcrição descreve, como se observa acima, apenas uma maioria, pelo que se torna necessário referir o que acontece no caso da investigação, à semelhança de António Fontinha. Na sua situação, os contos tradicionais que fazem parte do seu repertório são obtidos aquando da sua investigação no terreno (nas Beiras, na zona de Trás-os-Montes, entre outras). Porém, sendo ou não transcritos os contos que recolhe para papel, o que mais o distingue do narrador rural, tradicional, é toda a vivência que

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este tem e que Fontinha tenta compreender. Ao estabelecer contacto com o meio rural onde se encontra o narrador “mestre”, adquire também um papel de aprendiz, pronto a receber o que o outro tem para dar e a aprender na “escola da vida”, através da experiência única, rural, que ouve e que está por trás de toda a cultura tradicional. Neste sentido, em prole do seu próprio desenvolvimento como contador profissional de qualidade, “o narrador urbano deverá estabelecer linhas de contacto com tudo aquilo que é essencialmente humano e não muda superficialmente (…).” (Castro, 2012:107).

Torna-se conveniente definir determinadas linhas de orientação para a compreensão de ambos os perfis. Com base em Castro (2012:104-108; 21/01/2013) e Fontinha (29/01/2013), encontra-se o seguinte:

O Narrador Rural:

i. Forma-se como narrador através das tradições de família e do meio onde cresce (meio rural, campo, pequenas povoações), transmitidas de geração em geração, e através do contacto direto e constante com a natureza e da relação necessariamente mística que estabelece com o mundo.

ii. Possui um repertório inteiramente cultural, constituído por contos tradicionais, lendas e mitos da sua terra.

iii. Cresce num meio maioritariamente aliterado ou analfabeto, pelo que a escassa existência da leitura não se pode tornar um hábito. “A transmissão oral é o formato natural da literatura” (Castro, 2012:105).

iv. É espontâneo e imaginativo, capaz de recordar relatos concretos a partir de factores aparentemente irrelevantes tais como o som de um animal, a queda de um ramo, o tremer de uma luz à noite, entre outros. Relatos estes que refletem o seu imaginário, as suas crenças e o seu pensamento lógico e intuitivo. É um improvisador nato, e a natureza improvisação pura. “Os seus relatos não saem dos livros mas da terra”. (Castro, 2012:105-106).

v. É procurado e respeitado pelos restantes, que o rodeiam e conhecem. “Quando vou a uma aldeia e me dizem que já cheguei tarde, porque a senhora tal que contava histórias já morreu, noto isto.” (Fontinha, 29/01/2013).

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vi. Integra-se num grupo de narradores cada vez mais raros e ainda pouco procurados. “Meia dúzia de gatos-pingados no interior, normalmente pessoas analfabetas.” (Fontinha, 29/01/2013).

O Narrador Urbano:

i. Forma-se como narrador através de uma variedade de caminhos profissionais, podendo estes estar relacionados com a sua formação académica ou não. A grande maioria licencia-se nas áreas do teatro, da literatura e do estudo das línguas, parte escolhe o ensino no estudo da criança e da educação infantil e juvenil, uma minoria forma-se em áreas totalmente distintas ou não se chega a formar. Normalmente o narrador urbano, antes de atingir o topo da sua carreira, submete-se a vários workshops e colóquios que o focalizem em alguma área que se possa considerar propícia à prática da narração, já mais focalizadas na expressão corporal e no teatro. Com o aparecimento crescente de escolas de narração oral, vários recém-chegados ao terreno procuram ingressar por estes cursos, ensinados por algum contador mais experiente.

ii. Necessita desenvolver o seu caráter próprio e a sua personalidade como contador, sob a pena de não obter sucesso na sua prática. Neste sentido, defende-se que a sua grande formação está devidamente baseada na prática e aquisição de experiência.

iii. Cresce sobretudo no meio urbano e, em grande parte dos casos (tais como os de Fontinha e Castro, ao contrário de Taquelim) não tem qualquer contacto inspirativo e concreto com a contação até à idade adulta.

iv. O seu repertório encontra-se em constante construção e renovação, conforme o rumo que toma a sua carreira profissional.

v. As suas narrativas são obtidas maioritariamente a partir da literatura existente, por vezes sendo da própria autoria (quando se trata de um contador contista, como é o caso de Marina Colassanti), ou são obtidas através do trabalho da investigação (como é o caso de António Fontinha).

vi. Não se deixa surpreender facilmente e tende em procurar explicações lógicas para as várias realidades da natureza. “Já quase não se surpreende perante os fenómenos naturais” (Castro, 2012:106).

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Castro completa a sua reflexão admitindo-se como narrador urbano por decisão. Comenta ainda que o facto de se ter encontrado como tal, sob a condição urbana, permitiu que honestamente se pudesse deixar envolver pela contação, o que se reflete na sua “presença narrativa”.

«A tarefa que assumo como narrador urbano consiste em interpretar, com o múltiplo sentido que esta palavra tem: explicar, traduzir, expressar e representar esta realidade, de tal forma que me seja permitido narrar todo o tipo de histórias partindo de um ponto de vista próprio, particular.» (Castro, 2012:108).

Denota-se então, na reflexão de Castro, um dos maiores fatores que o distinguem do narrador rural: o propositado partir do seu próprio ponto de vista aquando de qualquer narração que possa vir a fazer. Efetivamente, enquanto o narrador urbano amadurece esta característica, o narrador rural defende a história na sua versão original, tal qual lhe foi inicialmente contada. Certamente não a impõe frente a outras versões. Ouve com agrado o que têm de novo para lhe contar, mas nunca chega a perder o que, nas suas palavras, cresceu consigo. (Fontinha, 29/01/2013).

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