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5.3 Low-frequency Noise Variation in 200 and 350 GHz f T SiGe HBT’s

6.1.4 Gaussianity and Linearity

Nesta seção, examinaremos os modos de representação e discursos sobre o Uno que permitem pensar a processão a partir deste como produção do ser como imagem. Os princípios que possibilitam a passagem do Uno para o ser considerado como imagem são os mesmos que, em cada degrau da hierarquia, explicam a produção do nível subsequente como uma imagem de seu princípio imediato.

O primeiro aspecto dessa questão é a identidade entre o Uno e o Bem, pois a unidade primordial, como princípio de todos os seres e suas perfeições, deve ser considerada como o Bem difusivo de si e participado por todos. O tratado III 6 (26), além de mencionar a condição transcendente do Uno em relação ao ser, reporta-se ao princípio exatamente nesse sentido, ou seja, como o Bem participado pelos seres (11. 27-45). A menção ao Bem ocorre quando se discute no tratado o problema da impassibilidade da matéria mesmo em relação a Ele, o que implica um problema para a determinação do estatuto ontológico dos seres sensíveis. Vale lembrar que, para Plotino, o Uno não é um Bem para si mesmo, mas para nós, para os seres que lhe são posteriores. Veremos a seguir como Plotino converte o Uno no Bem, sutilmente transformando a unidade não predicável na forma da unidade74 e boniformidade dos seres75.

Como mostra Steel (1989, p. 69-85), a identificação do Uno com o Bem é uma característica distintiva da tradição metafísica platônica e neoplatônica e fundamental para a sua compreensão da natureza da relação do múltiplo com o princípio. Segundo Steel (1989, p. 69-71), a tese da identificação do Uno com o Bem não se encontra nos diálogos platônicos, mas é mencionada por Aristóteles, que parece atribui-la ao seu mestre e é mesmo possível que tenha sido desenvolvida em seu ensinamento oral. A tradição neoplatônica considera, em geral, que a natureza do Bem é o Uno e o argumento central é que a unidade é a condição para a existência, perfeição e conservação de todos os seres, e que esses efeitos são também efeitos do Bem, como

74 Vide nota 59. 75

O Bem é considerado como doador da forma do bem, como no passo a seguir: “O intelecto precisa do Bem, mas o Bem não precisa dele; por isso, quando o intelecto alcança o Bem, ele se torna boniforme e se aperfeiçoa junto ao Bem, porque a forma que recai sobre ele, provinda do Bem, o faz boniforme.” (III 8 (30), 11, 15-19 [trad. BARACAT JÚNIOR, J. C.]: o( me\n ga\r nou=j tou= a)gaqou=, to\ d’ a)gaqo\n ou) dei=tai e)kei/nou: o(/qen kai\

tugxa/nwn tou= a)gaqou= a)gaqoeide\j gi/netai kai\ teleiou=tai para\ tou= a)gaqou=, tou= me\n eiÃdouj tou= e)p’ au)t% para\ tou= a)gaqou= h(/kontoj a)gaqoeidh= poiou=ntoj.).

Platão afirma na República X, 608 (STEEL, 1989, p. 72-74). O Uno é, em função disso, identificado com o Bem e este é, por sua natureza, difusivo de si e o que ele difunde como máximo bem é a unidade. A prova é que para todos os seres inferiores o Uno representa o Bem a ser buscado e imitado por um processo de conversão (e)pistrofh/) e o desejo do Bem, ínsito a todos os seres dependentes, é desejo de unidade76, o que torna esses dois aspectos do princípio inseparáveis, pois ele é o Bem para todos os seres porque confere a todos a unidade que os faz ser, porque os unifica, como se afirma também no tratado VI 5 (23):

Esse princípio é ‘o mais firme de todos’ e o que formulam, por assim dizer, nossas mentes, não como recapitulação de todos os princípios particulares, mas sim como premissa anterior a todos os princípios particulares, inclusive ao que estabelece e enuncia que todos os seres aspiram ao bem. Esse princípio não se verifica, efetivamente, a não ser na suposição de que todos os seres tendem à unidade e constituem uma unidade e de que a unidade seja o objeto de sua aspiração.

VI 5 (23), 1, 8-14 [trad. IGAL, J.]: kai\ e)/sti pa/ntwn bebaiota/th a)rxh/, h(\n w(/sper ai¸ yuxai\ h(mw=n fqe/ggontai, mh\ e)k tw=n kaqe/kasta sugkefalaiwqei=sa, a)lla\ pro\ tw=n kaqe/kasta pa/ntwn proelqou=sa kai\ pro\ e)kei/nhj th=j tou= a)gaqou= pa/nta o)re/gesqai tiqeme/nhj te kai\ legou/shj. ou(/tw ga\r a)\n au(/th a)lhqe\j eiÃh, ei¹ ta\ pa/nta ei¹j e(\n speu/doi kai\ e(\n eiãh, kai\ tou/tou h( o)/recij eiãh.

Desse modo, a unidade no múltiplo é imagem do Uno e não seria exagerado dizer que o conjunto da manifestação é uma henofania, conforme expressão de Andolfo (2002, p. 15 ss.) aplicada ao Noûs. Nesse sentido, a presença do Uno é a condição para o múltiplo, pois de acordo com o tratado VI 9 (9), é o Uno que torna possível a existência da multiplicidade. No passo VI 9 (9), 1, 1-2, como já vimos, Plotino afirma que todos os seres são o que são pela unidade e no passo 8. 33-42 é dito que temos o ser quando nos voltamos para o princípio e que sua ausência representaria a nossa destruição. No tratado V 3 (49), Plotino afirma que o que procede do Uno é

inferior a ele e, sendo assim, “não-uno” (15. 11). O não-uno é a negação do Uno, mas não

permanece nessa negação, pois busca a unidade para se constituir como um ente. A negação do múltiplo é absoluta no Uno e em seus derivados realiza-se de modo menos perfeito, dando margem, portanto, para que subsista alguma multiplicidade. Reafirmando o ponto de vista do VI

76 Steel (1989, p. 74): Il nous faut donc examiner la nature du bien, et comprendre pourquoi il est l’objet d’une

9 (9), Plotino indica no tratado V 3 (49) que é pelo Uno que o não-uno se salva, ou seja, evita assim que se disperse em uma multiplicidade indefinida. A unidade derivada do Uno pela sua presença imediata, no caso do Noûs, e mediata no caso dos outros níveis de ser, deve ser entendida como um efeito que o Uno causa nos seres, sem que ele mesmo se confunda com esse efeito. A unidade dos seres, condição para a sua existência, é o traço do princípio que permite a existência de tudo e faz com que tudo seja semelhante a ele77, embora permaneça o problema de que não deve haver medida comum entre o Uno e a unidade dos seres, dada a indeterminação absoluta do primeiro.

Esse modo de conceber o Uno em sua relação com o múltiplo parece revesti-lo de certa determinação ontológica, na medida em que a unidade agora não indica a transcendência e indeterminação do princípio, a sua ruptura de comunidade com os seres posteriores, mas sim a sua relação com os seres, em função de ser o Bem, portanto a fonte da unidade que os faz ser. As noções de uno e bem se tornam convertíveis, pois o Uno se torna o Bem porque a unidade é exatamente o bem para todos os seres como condição essencial de sua existência. Isso representou um grande problema metafísico para Plotino, que não se recusou a solucioná-lo, muito embora a determinação do Uno pareça ser inevitável quando se quer abordá-lo em sua função engendrante e como o Bem doador da unidade.

Algumas soluções podem ser encontradas nos tratados, adotadas a partir de diferentes pontos de vista. No tratado V 3 (49) é clara a intenção de Plotino de manter a concepção, presente em outros passos78, de que a causa de todos os seres é superior aos seus efeitos e não compartilha nenhuma comunidade com aqueles, em perfeita consonância com a transcendência do Uno: “O anterior a esses, ao contrário, é o principio desses, mas não em qualidade de imanente, pois o princípio originativo não é imanente; o são os princípios constitutivos79, enquanto que o princípio originativo de cada coisa não é cada coisa, porém distinto de todas as coisas. Portanto, não é um entre todos, porém anterior a todos; logo anterior ao intelecto.” (V 3 (49), 11, 16-20 [trad. IGAL, J.]: to\ de\ pro\ tou/twn h( a)rxh\ tou/twn, ou)x w(j e)nupa/rxousa: to\ ga\r a)f’ ouÒ ou¹k

e)nupa/rxei, a)ll’ e)c wÒn: a)f’ ouÒ de\ e(/kaston, ou)x e(/kaston, a)ll’ e(/teron a(pa/ntwn.

77 Ainda a respeito da relação entre o uno e o ser, Koch (1998, p. 78) indica a sua importância para a questão da imagem, pois se não há ser sem unidade, a imagem nos permite ler a “unilateralidade radical da correlação” entre

ambos, pois enquanto o Uno não é imagem e desse modo independe do ser, este só existe em proporção à sua semelhança com o Uno, tanto o Ser inteligível quanto o sensível.

78 VI 7 (38), 17, 34-43; V 1 (10), 7, 17-23; V 2 (11), 1, 5-7

ou) toi/nun e(/n ti tw=n pa/ntwn a)lla\ pro\ pa/ntwn, w(/ste kai\ pro\ nou=:). No mesmo

tratado, Plotino reconhece que a transcendência acarreta o problema da causalidade de um

princípio que não possui os seus efeitos: “– Porém, como as proporciona? – Sem dúvida ou

porque as possui ou porque não as possui. Porém, as que não possui, como as proporciona? – Se as possui não é simples. – Porém, se as proporciona sem possui-las, como é que brota dele a

multiplicidade?”V 3 (49), 15, 1-3 [trad. IGAL, J.]: ’Alla\ pw=j parasxw/n; h)\ t%= e)/xein <h)\ t%= mh\ e)/xein>. a)ll’ a(\ mh\ e)/xei, pw=j pare/sxen; a)ll’ ei¹ me\n e)/xwn, ou)x a(plou=j: ei¹ de\ mh\ e)/xwn, pw=j e)c au)tou= to\ plh=qoj;). Nesse passo, Plotino estabelece claramente o

problema central do engendramento do múltiplo por um princípio inefável: se os efeitos estão presentes, o Uno se torna determinado; se não estão presentes, como procederam? No primeiro caso, temos o comprometimento da simplicidade do Uno. No segundo, temos o problema de como o Uno, que não compartilha qualquer característica distintiva, pode desempenhar o papel de causa80 e doar aquilo que não tem81. Esse tema nos remete diretamente ao problema da difícil conciliação entre a transcendência do Uno e a condição do múltiplo como imagem, pois o que poderia convir a ambos, dada sua diferença absoluta? E, no entanto, Plotino afirma claramente no passo V 1 (10), 7, 1-4 que o que é engendrado pelo Uno deve ser este em alguma medida, imagem (ei¹kw/n) sua, semelhante (o(moio/thta) a si, conservar os seus traços como a luz em relação ao sol, em clara alusão à metáfora da República VI. Paradoxalmente, o Uno doa o que não tem, mas os seus produtos são o seu traço e semelhança.

A solução avançada no tratado V 3 (49) tenta manter a simultânea negatividade do princípio e a posse de todos os seus derivados82 mediante a afirmação de uma coincidência originária de todos os seres no Uno, que os conteria em um estado de não discriminação absoluta e identidade perfeita, além da cisão entre nou=j, no/hsij e nohto/n No tratado V 3 (49), a perspectiva é a de que o Uno possui todos os seres como princípio de todos e que isso não representa para ele qualquer multiplicidade: “– Porque as possuía de antemão. – Porém dissemos

80 Não podemos deixar de ter em mente que a causalidade exercida pelo Uno é dupla, eficiente e final, qualquer que

seja o modelo adotado. Bussanich (1999, p. 46) sustenta que o Uno é causa eficiente porque provê a unidade aos seres, mas é necessário frisar que isso não significa que se volte e aja diretamente sobre os posteriores. Segundo Bussanich (1999, p. 45-46), a fase do próodos corresponde à causalidade eficiente do Uno e a causalidade final é exercida na fase da epistrophé.

81

Narbonne (1993, p. 11-46), Lavaud (2008, p. 203-270), Moreau (1970, p. 65-102) e D’Ancona Costa (1999) estabeleceram análises imprescindíveis a respeito do problema da causalidade do primeiro princípio.

que desse modo seria multiplicidade. – É que as possuía, porém não discriminadas. No segundo resultaram discriminadas nocionalmente. É que o segundo já é ato, enquanto que aquele é a potência83 de todas as coisas.” (V 3 (49), 15, 29-33 [trad. IGAL, J.]: h)\ t%= pro/teron e)/xein

au)ta/. a)ll’ eiãrhtai, o(/ti plh=toj ou(/twj e)/stai. a)ll’ a)/ra ou(/twj eiÅxen w(j mh\ diakekrime/na: ta\ d’ e)n t%= deute/r% dieke/krito t%= lo/g%. e)ne/rgeia ga\r h)/dh: to\ de\ du/namij pa/ntwn.). Esse ponto de vista é perfeitamente coerente com uma ontologia da

imagem84, mas apresenta o risco da transformação do Uno em um princípio que conteria todas as perfeições presentes nos seres inferiores85, o que não parece, mais uma vez, ser compatível com o desejo de Plotino de situá-lo em sua indeterminação, sem comunidade com o todo que dele procede. A partir do passo temos uma interessante perspectiva metafísica, não usual nas Enéadas: além de princípio originador dos seres, o Uno se torna princípio unificador da totalidade, não somente por, em última instância, ser o responsável pela unidade de cada ser, mas por unificar em si toda a realidade.

A solução formulada no tratado V 3 (49) indica que a presença dos seres no Uno não implica multiplicidade, pois nele perderam a sua forma e o seu nome, as suas determinações essenciais e, desse modo, sua presença não deveria implicar sequer uma eminência. O passo então deve ser interpretado como uma forma de se compreender de que modo o Uno contém em si os seres a partir da perspectiva negativa delineada anteriormente, ou seja, de um modo completamente distinto do Noûs, sem as suas essências delimitadoras. Assim, a coincidência ocorreria pela não alteridade do Uno e a não alteridade de todas as coisas, o que possibilita a instigante perspectiva de uma coincidência de todos os seres no Uno, sem as suas delimitações formais. Esse ponto de vista subordina o essencialismo ontológico a uma perspectiva henológica

83 Se essa presença for interpretada como virtualidade, poderia acarretar o risco de introduzir potencialidade no Uno,

não no sentido de poder, mas de potência ainda irrealizada que se realizaria nos seres.

84 O ponto de vista de que o Uno contém o múltiplo não é exclusivo do tratado V 3 (49) e encontra-se presente, por

exemplo, no passo VI 8 (39), 18 em que se afirma que o Uno contém seus efeitos e também que o Noûs procede do princípio como sua imagem. Significativamente é o tratado que representa o mais intenso esforço de Plotino em apresentar o Uno de uma maneira positiva. Armstrong (1984, p. 24-25) considera a doutrina do tratado como incompatível com a henologia negativa quando Plotino afirma um princípio que se ama e se quer, voltado para si mesmo e do qual o ser procede como imagem. O intérprete parece subentender que a processão da imagem é mais compatível com essa perspectiva. No passo V 5 (32), 9, 1-26, Plotino afirma que cada etapa inferior da processão é contida pela superior, de tal modo que o sensível está na Alma, que está no Noûs e este no Uno, que abarca a totalidade, mas a afirmação é feita em função da dependência do inferior em relação ao seu princípio.

85

O debate acerca do modo da presença dos seres no Uno é bastante interessante: Moreau (1970, p. 82) admite uma presença por eminência; Lavaud (2008, p. 225ss) vê como problemática em Plotino a admissão de uma presença por eminência e afirma que a concepção da eminência é bastante distinta de uma henologia que situa o Uno acima do ser.

supraessencialista que permite a superação das distinções fundadas nas essências. A posição de Plotino, pelo menos no passo acima, indica uma tentativa de afirmação da possibilidade de se pensar a identidade absoluta de todas as coisas no Uno, fora do regime próprio da essência,86 em sua potência (du/namijanterior ao ato (e)ne/rgeia)

O aspecto fundamental do passo é que o engendramento dos seres representa uma passagem da potência do Uno que contém a todos, para o seu ato, o Noûs, no qual recebem suas essências definidas. Novamente aqui, o conceito de potência se articula com a negatividade do princípio, como no tratado VI 9 (9), em que se diz que o Uno é, por sua ausência de limite, potência infinita (du/namij a)/peiroj). Essa solução do tratado V 3 (49) resolve o problema? A resposta para essa questão é bastante difícil e não pretendemos apresentá-la aqui, pois é complexa e mesmo paradoxal a tentativa de se manter concomitantemente a absoluta indeterminação do Uno e a sua condição de princípio.87 A própria noção de du/namijparece introduzir no Uno alguma determinação, pois apesar de estar associada ao infinito (a)/peirojaparece também vinculada à sua perfeição (teleio/thj, que coincide com o seu poder de engendrar. O que importa para nós é que no tratado V 3 (49), um dos últimos de Plotino, o problema persiste e ele se mostra cônscio disso, a ponto de propor uma solução que tende a admitir que o Uno possui os seus efeitos sem qualquer discriminação, em sua potência, posição que difere daquela, repetida em vários tratados, que recusa qualquer traço da presença dos seres no princípio.

Desde os primeiros tratados, como o V 4 (7) e o V 1 (10), Plotino indica que a

du/namij do Uno é a condição que origina o múltiplo, o que não deixa de representar a atribuição

de uma positividade que a via afairética normalmente recusaria. O próprio Plotino parece reconhecê-lo, pois afirma que, se o Uno, em sua condição de princípio deve ser compreendido em termos atributivos, qualquer tentativa de representação de sua positividade só pode ser efetuada a partir dos seus efeitos88, o que permite que tão somente se conceba a produção do múltiplo e da

86 Em relação à superação da essência, Trouillard (1955a, p. 148) afirma: “L’essence peut être mise entre

parenthèses, surmontée, oubliée, no supprimée.” Em nossa opinião, isso vale para os seres que buscam superar as suas essências para efetivarem a união, mas do “ponto de vista do Uno”, as essências dos seres estão sempre

“superadas” e “esquecidas”.

87 Narbonne (1993, p. 45), em sua análise do problema, considera como necessário o refluxo das características da

segunda para a primeira hipóstase quando esta é pensada como princípio, o que teria levado Plotino a praticamente dissolver a própria noção de causa em VI 9 (9), 3, 49-51.

88 “Portanto, falamos acerca dele a partir dos posteriores.” (V 3 (49), 14, 7-8 [trad. IGAL, J.]: w(/ste e)k tw=n u(/steron peri\ au)tou= le/gomen.).

imagem por meio de metáforas retiradas do próprio múltiplo89. Essa tentativa assume a posição, em nosso entendimento, de que o Uno deve ser considerado em si mesmo como indeterminação absoluta, porém em sua relação com o múltiplo deve ser compreendido a partir dos efeitos que engendra e ter algumas características destes. A apresentação da positividade do Uno admite pelo menos dois modos possíveis: o uso de imagens90 que ilustram a produção do múltiplo pelo Uno e a sua presença em seus derivados, e também o discurso afirmativo sobre o princípio. O discurso afirmativo parece ter sido elaborado em função da necessária indicação de que o Uno não se confunde com o nada puro e simples e da exigência de explicação da processão dos seres. Esse tipo de discurso representa apenas os recursos últimos que a atividade pensante dispõe em sua tentativa de apreender a inteligibilidade da processão e a relação entre o Uno e os seus derivados (VI 8 (39), 8, 3-9). O limite do discurso atributivo representa a indicação da impossibilidade de compreendermos a natureza do Uno, porém tal discurso consiste nas formas possíveis de superação desse limite. É nesse sentido que abordaremos os conceitos que indicam a positividade do Uno e tornam possível a compreensão de sua condição de princípio do múltiplo.

O passo V 3 (49), 15, 29-33 que analisamos anteriormente, deixa claro que o Uno é

du/namij pa/ntwnpotência de todas as coisas, que as contém de modo não discriminado e por

isso engendra tudo. O conceito de potência (du/namij91desempenha um papel crucial na explicação do engendramento dos seres e se articula com os conceitos de unidade (e(/n) e perfeição (teleio/thj), pois é da unidade, perfeição e potência do Uno que o múltiplo surge e se assemelha à origem, na medida em que também encerra certo grau de unidade, perfeição e potência. Os conceitos de du/namije teleio/thj são encontrados em contextos que visam a

explicar a passagem para a multiplicidade, como no passo a seguir: “– E como procedem do

Primeiro? Visto que o Primeiro é perfeito e o mais perfeito de todos e a Potência primeira, é necessário que seja o mais potente de todos os seres e que as demais potências imitem àquele na

89

Em outro contexto: “(...) transferindo-lhe atributos inferiores tomados de coisas inferiores por impossibilidade de encontrar os que são apropriados, esses são os que podemos predicar dele.” (VI 8 (39), 8, 3-6 [trad. IGAL, J.]: pro\j

au)to\ ta\ e)la/ttw a)po\ e)latto/nwn metafe/rontej a)dunami/# tou= tuxei=n tw=n a(\ prosh/kei le/gein peri\ au)tou=, tau=ta a)\n peri\ au)tou= eiÃpoimen.).

90 Roux (2004, p. 275-311) apresenta a análise de diversas imagens que desempenham esse papel e indica que muitas

vezes são problemáticas na representação da simultânea transcendência do princípio e, por outro lado, de sua causalidade eficiente e onipresença.

91 A respeito do significado de du/namij no tratado V 3 (49) e sua diferença em relação a outros tratados mais

medida de suas possibilidades.” (V 4 (7), 1, 23-26 [trad. IGAL, J.]: pw=j ouÅn a)po\ tou= prw/tou; ei¹ te/leo/n e)sti to\ prw=ton kai\ pa/ntwn telew/taton kai\ du/namij h( prw/th, dei= pa/ntwn tw=n o)/ntwn dunatw/taton eiÅnai, kai\ ta\j a)/llaj duna/meij kaqo/son du/nantai mimei=sqai e)kei=no.). No passo há uma clara indicação de que a resposta para o

problema do surgimento dos seres considerados como imagem é possível mediante a atribuição ao Uno de características que a via afairética recusaria, mas que são necessárias em função da sua condição de princípio originador da multiplicidade, que por sua vez é constituída de potências e perfeições que imitam o primeiro. O Uno então deve ser considerado como o mais perfeito (telew/tatone o mais potente (dunatw/taton) de todos os seres92, significativamente relacionando os conceitos de perfeição e potência, fundamentais para se explicar a geração do múltiplo e também a imitação, mas que de certa maneira eclipsa a sua negatividade e o vincula a um regime ontológico que deveria ultrapassar pela sua absoluta indeterminação. 93

O passo anterior é complementado pelo passo a seguir, pois neste último Plotino