3. Results
3.5 Gap Analysis
Como a proposta do grupo é de uma formação continuada permanente, mesmo tendo concluído a coleta de dados, comunicamos à Secretaria Municipal de Educação que, enquanto houver interessados, o grupo estará na ativa, com minha participação voluntária e contando com auxílio da ProEx-UFSCar.
Nesse sentido, temos um desafio pela frente: incentivar a divulgação das produções das professoras, seja por meio de trabalhos apresentados em eventos científicos, seja pela organização de livros com textos elaborados pelas professoras. Dar visibilidade ao produzido pelas professoras aproximará cada vez mais a universidade da Educação Básica e, certamente, trará contribuições para repensar a formação de professores nos cursos de Pedagogia.
Assim, as discussões ocorridas em 2012 têm sido direcionadas para o propósito de publicar um livro para divulgar narrativas, a partir da teoria que as docentes adquiriram durante sua formação e da teoria que estudam e que (re)construíram a partir dos encontros do grupo, revelando o movimento da construção do conhecimento da prática (COCHRAN- SMITH; LYTLE, 1999).
As docentes narraram oralmente suas ideias sobre o que vão escrever. Na interlocução com as demais participantes e comigo, estão sendo feitas intervenções para melhorar os textos. Após esse momento, feedbacks escritos foram feitos por mim, de modo que possibilitem às professoras revelar como desenvolver o trabalho com o conhecimento matemático com as crianças.
As práticas descritas pelas professoras são de uma determinada realidade, tempo e espaço, mas podem proporcionar um exercício de reflexão para outros professores, dando a eles a oportunidade de construir suas próprias práticas pedagógicas; por isso, não haverá “receitas” de boas práticas no livro que o grupo pretende publicar, mas ideias que podem ser apropriadas e/ou adaptadas, visto que a Educação Infantil é um campo complexo e, ao mesmo tempo, rico em possibilidades.
Segundo Nacarato (2008, p. 145), as “narrativas não podem ficar circunscritas ao grupo; precisam ser divulgadas, tornadas públicas”, para elucidar a identidade das professoras que também são produtoras de conhecimento. E, certamente, esses textos contribuirão para a formação inicial e continuada de professores.
Além da publicação de um livro, o grupo continuará divulgando os trabalhos e as discussões que realiza no blog, para, cada vez mais, as professoras usarem esse recurso para trabalhar colaborativamente e, assim, envolver na discussão outros interessados.
Além do blog, há um grupo – criado por mim em setembro de 2012 e muito bem aceito pelas professoras – na rede social Facebook45, representado pelas professoras que já participaram ou que ainda são participantes dos encontros presenciais do grupo; por alunos da UFSCar que já participaram do grupo ou participam; por mim, professora e formadora- pesquisadora da UFSCar. Segundo as participantes, no Facebook é mais fácil compartilhar fotos dos trabalhos que realizam, além de poder “curtir” as postagens das colegas e fazer comentários. Essa é mais uma forma, um pouco mais informal do que o blog, de o grupo se comunicar. As professoras passaram a comentar uma situação que trabalharam com as crianças e a publicar as fotos do trabalho no grupo do Facebook. Além disso, começaram a compartilhar ali ideias de jogos que veem na internet e com os quais é possível trabalhar o conhecimento matemático. Percebi que professoras que já participaram do grupo, mas atualmente não participam dos encontros também começaram a compartilhar no Facebook ideias de materiais pedagógicos e jogos que trabalham o conhecimento matemático. Elas, aos poucos, estão ficando à vontade para compartilhar as fotos e, com o tempo, o exercício será escrever e refletir sobre as fotos postadas.
Com quase três anos de existência do grupo, o foco foi compartilhar o que já aconteceu e não o que vai acontecer, mas, indiretamente, as narrativas orais das práticas realizadas influenciaram na tomada de decisões para desenvolver práticas pedagógicas futuras das professoras.
Segundo relato oral das professoras participantes do segundo semestre de 2012 do GEOOM, não é possível propor para as crianças de suas turmas todas as ideias que elas aprendem no grupo: elas usam com cautela as ideias que adquirem, fazendo adaptações para suas turmas e, principalmente, adequações ao seu planejamento.
Reconheço que o grupo é um campo fértil de pesquisa, vejo que algumas professoras participantes têm interesse em fazer mestrado na área da Educação Matemática na
infância. As bolsistas graduandas do curso de Pedagogia da UFSCar desenvolveram e querem desenvolver seus trabalhos de conclusão de curso na área, e cada vez mais professoras estão procurando participar mais de eventos acadêmicos e científicos, em busca de conhecimento atualizado.
O grupo está de portas abertas aos pesquisadores e aos profissionais interessados na área da Educação Matemática na infância, mas o formato do grupo, por enquanto, não comporta muitas pessoas, por isso, há lista de espera de professores que querem participar do grupo.
Esta pesquisa, além de produzir conhecimentos para a área de formação continuada de professores e para a área da Educação Matemática para a infância, é uma contribuição social importante à parceria entre universidade pública e escola pública.
Considerações finais
Nesta pesquisa propusemo-nos a responder duas questões: Quais são os conhecimentos matemáticos e metodológicos produzidos, reconhecidos e ressignificados por professoras da Educação Infantil, quando se reúnem em um grupo de estudos sobre a Educação Matemática na infância? E quais são os indícios de desenvolvimento profissional, manifestados pelas participantes do grupo em processo de formação continuada?
Para responder a essas questões, descrevemos e analisamos os processos formativos de constituição e manutenção do grupo GEOOM; evidenciamos o percurso de aprendizagens, transformações, contribuições e obstáculos desencadeados pelas discussões no grupo, pelas narrativas e pelas reflexões sobre a prática, de forma sistemática; e identificamos a produção, o reconhecimento e a ressignificação dos conhecimentos matemáticos, a partir dos aspectos conceituais desencadeados pela aprendizagem colaborativa e relacionados aos conhecimentos matemáticos e aos conhecimentos metodológicos que, redimensionados pelas professoras, se revelaram nas narrativas orais e escritas.
A pesquisa mostrou que conhecimentos matemáticos e metodológicos podem ser produzidos e ressignificados por uma formação continuada em um grupo de estudo colaborativo. A participação não hierárquica no grupo entre formadora-pesquisadora, professoras da Educação Infantil e alunos da universidade; a ajuda mútua; a relação de confiança; a negociação cuidadosa e respeitosa com o saber das professoras; a tomada de decisões conjunta; a articulação teoria e prática; e a busca por conhecimento a partir das necessidades reais das professoras permitiram que o grupo GEOOM se fortalecesse e se tornasse colaborativo. Dessa forma, indícios de desenvolvimento profissional das participantes foram aparecendo e, embora elas tivessem dificuldade no debate conceitual relacionado à matemática, ao se interessarem pelos aspectos metodológicos, precisaram ressignificar os aspectos conceituais do conhecimento matemático, que não se desvinculam dos aspectos metodológicos.
Este trabalho de pesquisa consistiu em promover a constituição e a manutenção de um grupo de professoras da Educação Infantil em processo de formação continuada, dispostas a estudar matemática na infância, com o auxílio do trabalho colaborativo de modo presencial e virtual. Elas se consideraram efetivamente parte do grupo e, como desejavam aperfeiçoar-se e trocar experiências para responder às questões que surgem cotidianamente na prática
docente, esperam que a parceria da universidade com as instituições de Educação Infantil de São Carlos seja permanente.
GEOOM tornou-se um espaço de compartilhamento de experiências e reflexões das professoras da Educação Infantil sobre o desafio de trabalhar o conhecimento matemático com as crianças. No grupo, puderam produzir conhecimentos coletivamente, por meio da aprendizagem colaborativa; ressignificaram conhecimentos matemáticos; redimensionaram a abordagem metodológica para trabalhar a matemática na Educação Infantil; e ampliaram e desenvolveram diferentes tipos de conhecimento. O grupo GEOOM tornou-se um espaço colaborativo que não dissocia questões práticas e teóricas. As professoras - aprenderam outros modos de ensinar e aprender matemática e contaram com a parceria universidade - escola para a tomada conjunta de decisões e para compor uma forma de validar suas práticas docentes.
Resultados do trabalho revelam a utilização de práticas formativas em um grupo com características colaborativas que teve um domínio comum de interesse e de trabalho. Esse modo de fazer formação continuada deu oportunidade às participantes de aprofundar concepções e conhecimentos matemáticos e tornar-se sujeitos protagonistas de sua profissão, pois adquiriram mais autonomia para realizar suas práticas pedagógicas. No entanto, a ajuda mútua entre as envolvidas e a relação de confiança estabelecida no grupo não foram suficientes para que ocorressem mais espontaneamente a negociação de significados e a troca de ideias matemáticas, o que se revelou um dos limites dessa formação.
As experiências vividas no grupo evidenciaram que a formação continuada é uma necessidade para o trabalho docente e deveria ser uma condição de trabalho do professor, pois ela não só pode suprir possíveis lacunas da formação do professor, mas também ajudá-lo fundamentalmente nos problemas, nos dilemas e nas dificuldades do cotidiano docente.
Os resultados indicaram também que os saberes metodológicos das professoras, o conhecimento da didática, da disciplina e o conhecimento epistemológico do conteúdo podem ser ressignificados a partir da reflexão sobre a própria prática, norteada pela construção coletiva do conhecimento em um grupo colaborativo que prioriza a relação entre teoria e prática com base nas experiências reais da Educação Infantil.
Esta pesquisa demonstrou que é possível reconhecer a instituição de Educação Infantil como um espaço formativo não só para as crianças, mas também para os professores e todos os profissionais envolvidos.
Cremos que precisamos continuar no campo das lutas históricas pelos professores, por uma formação inicial e continuada de base comum de caráter geral, científico e
multifacetário, e incentivar projetos e políticas que preservem a especificidade da prática docente como ação formativa e sistematizada. As políticas de formação inicial e continuada dos educadores devem fundar-se nessas condições, para que haja participação consciente dos professores, com profissionalismo, de modo a responder às exigências e às necessidades sociais na atualidade. Os debates revelam que essa questão se situa no campo das contradições; no entanto, não há como desistir de uma luta histórica da valorização docente que é essencial para a conservação da profissão docente.
O percurso desta pesquisa apontou também a necessidade de um trabalho mais profundo, na formação inicial, com os conteúdos matemáticos e com a forma de ensinar matemática.
Constatamos que o processo de aprender coletivamente num grupo pode ter influência na prática pedagógica do professor que, por sua vez, pode sentir-se motivado em (com)partilhar suas experiências com seus pares, a ponto de avaliar sua prática, trocar ideias e aprimorar e/ou promover mudanças em seu trabalho.
Diante de todas as experiências vivenciadas pelas professoras do grupo GEOOM, houve uma renovação de suas expectativas: elas passaram a inovar mais em seu trabalho, acreditando em seu potencial e também passaram da dar mais voz e vez às crianças, percebendo que elas podem ir além de suas expectativas. As professoras conseguiram inserir, a seu modo e de acordo com a realidade de cada turma, os jogos, as brincadeiras, as histórias infantis e as situações problemas, articulados com a aprendizagem da matemática.
Como perspectivas de pesquisas futuras, como o grupo GEOOM agregou professoras de várias CEMEIs da cidade, chegando a acolher representantes de seis delas, reconhecemos como pertinente investigar se as professoras que participaram do grupo GEOOM influenciaram, de alguma forma, as práticas pedagógicas de seus pares que não participaram do grupo.
Outro tema derivado desta investigação a ser pesquisado é observar as crianças que hoje estão no Ensino Fundamental e, na Educação Infantil, tiveram professoras participantes desse grupo. Será que essas crianças gostam de matemática? Possuem dificuldades para aprender matemática? Entraram no 1º ano do Ensino Fundamental sabendo que conteúdos de matemática?
Por fim, encerramos estas considerações, reiterando, com base nesta pesquisa, que é possível construir e manter um grupo com características colaborativas. No entanto, sabemos que as experiências desse tipo são pontuais em nosso país. A questão central que nos colocamos agora não é saber o que falta para os professores, de um modo geral, colaborarem