2 METODE, VALG OG BESKRIVELSE AV PROSESSEN
2.5 G JENNOMFØRING AV INTERVJU OG TRANSKRIPSJON
A partir da retomada dos fragmentos do discurso freudiano a respeito do processo criativo, é possível observar a presença de momentos distintos da teorização da sublimação (Birman, 2002 e 2007; Castiel, 2007): num primeiro momento, a sublimação implicaria dessexualização da pulsão, e, para que houvesse criação, a erotização deveria ser colocada “entre parênteses”. A criação seria, assim,
(...) um ato de espiritualização, na medida em que o corpo erógeno seria colocado provisoriamente de lado e impedido de se manifestar. (...) tal suspensão erótica, que materializaria o tal ato de espiritualização, seria um esforço da ordem da ‘civilização’. Pressupõe-se, pois, que o processo civilizatório se daria na direção da espiritualização e contra a erotização (BIRMAN, 2002, p. 98).
Para haver sublimação, pois, necessário seria que os objetivos pulsionais passassem de sexuais a não-sexuais; dito de outra maneira, a sublimação ocorreria para que o sexual não aparecesse. Dessa forma, a sublimação seria igualada ao recalque, e não adquiriria status de processo psíquico singular (Castiel, 2007).
Este momento inicial corresponderia à primeira teoria freudiana sobre a
sublimação (Birman, 2002). Entretanto, desde sua enunciação formal, essa primeira teorização foi tida como insatisfatória por Freud e seus impasses e contradições
“acabaram por conduzi-lo inequivocamente para uma segunda teoria da sublimação nos anos trinta” (Birman, 2002, p. 99) . Afinal, qual seria então a diferença entre
sublimação e o recalque, se em ambos os processos a dessexualização seria o objetivo? Como pensar uma civilização construída a partir da sublimação, se essa descartava a sexualidade? Pensar a civilização dessa maneira não significaria empobrecê-la erótica e simbolicamente? Se nesse momento da teorização freudiana a doença nervosa é pensada como resultante direta do recalque imposto pela civilização, a sublimação entendida como dessexualização não levaria a um incremento das perturbações do espírito (Birman, 2007)?
N
um segundo momento da teorização freudiana, por outro lado, a sublimação não mais se oporia à erotização, mas pressuporia, justamente, sua presença (Birman, 2002). A sublimação passa a ser definida, então, como um dos quatro destinos pulsionais, e é caracterizada como o mais evoluído deles (Castiel, 2007). Birman (2002) destaca como é curioso o fato de o discurso psicanalítico pós- freudiano – com exceção de um ou outro intérprete, como Jacques Lacan e Jean Laplanche - ter se fixado na primeira teoria sobre a sublimação, recalcando a segunda, “quando não a ignorou pura e simplesmente” (p. 99).
3.1.1 A dessexualização pulsional
O termo sublimação foi introduzido precocemente no discurso
freudiano, já nas correspondências trocadas com Fliess: no Manuscrito L (Freud, 1897) Freud fez sua primeira referência à sublimação, sem no entanto cunhar seu
conceito nesse momento. Refletindo sobre a “arquitetura da histeria”, Freud afirmou nessa correspondência que as fantasias seriam barreiras psíquicas levantadas para impedir o acesso à recordação das cenas primordiais esquecidas, e que serviriam, simultaneamente, à tendência de refinar as recordações, ou seja, sublimá-las. Nesse sentido, “a sublimação seria uma operação de ‘refinamento’ psíquico – criando as
grandes produções do espírito -, pela qual a ‘defesa’ afastaria a presença brutal dos fantasmas sexuais.” (Birman, 2002, p. 100). A sublimação apontaria, assim, para um refinamento com objetivo defensivo, e, dessa maneira, serviria ao sujeito como dispositivo contra o sexual (Castiel, 2007). Embora referido texto não faça mais do que destacar a palavra sublimação, Birman ressalta que não resta qualquer dúvida de que Freud delineou, em 1897, o campo em que inscreveria inicialmente o conceito de sublimação, qual seja, o campo da sexualidade (Birman, 2002).
Em 1905, em Fragmento da Análise de um Caso de Histeria, Freud
mencionou novamente a sublimação, opondo-a ao sintoma histérico: se no cerne do sintoma histérico se encontra o gozo sexual, a sublimação seria a defesa possível contra ele, a partir do refinamento e da espiritualização. Assim como na primeira aparição do termo, a sublimação é aqui situada como defesa contra as exigências sexuais (Birman, 2002; Castiel, 2007).
N
os lembra Castiel (2007) que, no artigo Três Ensaios sobre a Teoria
da Sexualidade (1905), a sublimação é trabalhada de forma mais ampla do que nos textos anteriores, a partir de sua articulação com o conceito de sexualidade: no processo sublimatório, as pulsões sexuais perverso-polimorfas que encontram barreiras em forças psíquicas têm seu uso desviado para outras finalidades, não- sexuais. Nesse texto Freud inicialmente aproxima a idéia de sublimação da idéia de formação reativa e de recalcamento; mas em nota de rodapé acrescentada em 1915, acaba diferenciando os conceitos, colocando-os como processos diversos.
É
apenas em 1908, no entanto, em Moral Sexual ‘Civilizada’ e Doença Nervosa Moderna, que a sublimação foi enunciada propriamente como um conceito, cunhado em sua especificidade (Birman, 2002; 2007): dotada de características metapsicológicas próprias, a sublimação pôde então ser entendida como o mecanismo psíquico que permitiria a inscrição da pulsão sexual perverso-polimorfa
no registro da cultura pela via da dessexualização da referida pulsão, com a manutenção, no entanto, do mesmo objeto. O objeto deslocar-se-ia do registro erótico para o registro espiritual, tornando-se efetivamente um objeto sublime (Birman, 2007). Dessa maneira, as mais sublimes produções humanas teriam origem no que seria mais abjeto diante da consciência e dos valores morais – a sexualidade humana (Birman, 2002).
A civilização estaria fundada, então, na dessexualização da sexualidade perverso-polimorfa: a sublimação mediaria a construção da civilização dessexualizando-a e promovendo apenas a sexualidade genital. Entretanto, a renúncia à sexualidade perverso-polimorfa que a modernidade exigiria teria um alto custo para os indivíduos, que se expressaria no “mal-estar” psíquico vivido através da denominada “doença nervosa moderna” (Birman, 2002).
Freud diz que na sociedade moderna a restrição da vida sexual das mulheres e uma sexualidade basicamente centrada na procriação traria uma insatisfação. Essa insatisfação relativa ao exercício da sexualidade levaria o sujeito a sublimar (de acordo com suas capacidades psíquicas) parte da sexualidade devido à plasticidade da pulsão sexual. Esse entendimento de Freud marca a existência de uma contradição entre pulsão e civilização. Há a necessidade do recalcamento do pulsional para a formação e manutenção da cultura. A sublimação é entendida no mesmo sentido que o recalque, não havendo especificidade no conceito de sublimação. Dessa forma, as criações não seriam marcas do desejo e sim pela renúncia ao desejo se formaria a cultura. (CASTIEL, 2007, p. 35. Grifo nosso).
Para Joel Birman (2002), a leitura da sublimação como dessexualização remeteria o discurso freudiano ao registro da alquimia, posteriormente preservado pelo discurso da química: no registro da alquimia, o processo sublimatório está relacionado à transformação direta de uma substância no estado sólido para o estado gasoso, sem sua passagem pelo estado líquido; dessa maneira, uma mesma substância, invariável, poderia existir em diferentes estados da matéria. Analogicamente, pela sublimação o erotismo perderia seu caráter grosseiro, material, mundano, e “se transmutaria no que existe de gasoso no mundo
dessexualizado e transformado agora numa produção sublime.” (Birman, 2007, p. 9). Dessa maneira, uma mesma substância existente no estado sexual sairia do estado sólido (materialidade corpórea, sexual) e passaria ao estado gasoso, etéreo, espiritualizado (Birman, 2002).
Joel Birman (2002) salienta que desde o início da formulação do conceito de sublimação o discurso freudiano já apontava uma série de impasses que tornavam inviável a consistência teórica do conceito tal como primeiramente enunciado. O autor lembra, assim, que a enunciação inicial de sublimação trouxe consigo uma imediata insatisfação do discurso freudiano: o conceito de sublimação tal como postulado não conseguiria dar conta da produção do processo civilizatório na medida em que a dessexualização implicaria uma subjetividade marcada não apenas pela “pobreza erótica” – em virtude da ação do recalque - como também pelo “empobrecimento simbólico”. Aqui encontraríamos a contradição do conceito de sublimação formulado, cunhado para dar conta de uma produção de formas superiores de espiritualidade, mas que produziria exatamente o contrário. Ora, para que houvesse simbolização, seria necessário o erotismo, e não seu recalque. Nesse sentido, segundo Birman, o “mal-estar” apontado por Freud em 1930 em relação à civilização residiria no fato de pensar a civilização fundada em oposição às demandas eróticas das subjetividades (Castiel, 2007).
O
utro impasse colocado pelo conceito inaugural de sublimação diz respeito aos discursos da ciência e da arte: Freud considerou que a renúncia à pulsão sexual poderia ser válida para a ciência, mas não para a arte, colocando em xeque a conceituação que formulara.
A sublimação estaria, ainda, equiparada à noção de recalque, não possuindo singularidade enquanto processo psíquico nesse momento. Se ambos os termos indicavam o mesmo processo, por que falar ora em sublimação, ora em recalque?
Tomar a sublimação como dessexualização pulsional implicava, ademais, pensar que o processo criativo não seria marcado pelo desejo, mas pela renúncia a ele:
A partir das considerações dos diversos autores, pode-se afirmar que quando Freud se refere às relações da sublimação com a cultura, apóia sua interpretação na idéia de que a cultura se forma às expensas da sexualidade. Isto restringe tanto a idéia de cultura como a de sublimação, uma vez que retirando o desejo como parte do processo sublimatório e colocando-a como o que resta diante da renúncia ao pulsional a sublimação atuaria no mesmo sentido do recalcamento. (...) De certa maneira, a capacidade de sublimar é aquela que pode dar conta de outras saídas para o sujeito diante das necessárias renúncias ao desejo. No entanto, se se toma o sublimatório como o que resta ao sujeito, o que decorre é a produção de subjetividades empobrecidas simbolicamente. (CASTIEL, 2007, p. 38)
Birman (2002) sublinha o fato de a literatura psicanalítica pós-freudiana ter abraçado a primeira teoria sobre a sublimação, descartando (ou recalcando) a segunda, e destaca que isso levou a perigosas generalizações na aplicação do conceito de sublimação a obras particulares e ao não enfrentamento da complexidade e precariedade do conceito. Sissi Castiel (2007), por seu turno, alerta para o fato de que o entendimento do processo sublimatório pelos pós-freudianos como dessexualização sexual trouxe como consequência o abandono da sublimação como conceito metapsicológico e como procedimento técnico presente no processo analítico. Entretanto, nos lembra a autora, “a sublimação se encontra no
centro de problemáticas metapsicológicas e clínicas fundamentais e está longe de delimitar questões marginais.” (Castiel, 2007, p. 14).
Conforme frisa Castiel (2007), Jean Laplanche e Joel Birman identificam nesse posicionamento freudiano a respeito da sublimação e da civilização um grande impasse: Jean Laplanche, por exemplo, entende que a sublimação, pensada como dessexualização, implicaria uma concepção restritiva da cultura, muito vinculada à autoconservação. Joel Birman, como acima mencionado, entende que pensar a cultura a partir desse ponto de vista significa pensá-la empobrecida erótica e simbolicamente, enquanto a sublimação deveria ser pensada justamente como o mecanismo que permitiria ao sujeito renunciar à satisfação da sexualidade tal como originalmente demandada sem deixar de lado sua condição de sujeito desejante.
3.1.2 A sexualidade como matéria-prima D
iante dos impasses teóricos encontrados já na primeira formulação do conceito de sublimação, pouco tempo depois Freud esboçou uma nova possibilidade para o conceito.
Em seu trabalho sobre Leonardo da Vinci, de 1910, Freud defendeu a idéia de que a sublimação poderia ser entendida de maneira diferente, “como uma
transformação direta da pulsão perverso-polimorfa numa produção do espírito.”
(Birman, 2002, p. 104). Nesse sentido, a sublimação não mais significaria uma dessexualização da pulsão perverso-polimorfa originária, e não resultaria de uma operação anterior de recalque; em vez disso, o processo sublimatório encontraria na sexualidade perverso-polimorfa sua matéria-prima (Birman, 2002). Assim, “não
existiria o recalque das pulsões sexuais na sublimação, mas a passagem direta dessas para a produção de objetos sublimes.” (Birman, 2007, p. 9).
D
issertando nesse texto sobre as vicissitudes do impulso de pesquisa sexual infantil diante do recalcamento, Freud afirma haver três possíveis caminhos: a atividade intelectual pode permanecer inibida, juntamente com a sexualidade (inibição neurótica); ela pode resistir ao recalcamento, e as atividades intelectuais de pesquisa podem emergir do inconsciente sob a forma de uma preocupação pesquisadora compulsiva e sexualizada, situação em que a pesquisa se torna ela mesma uma atividade sexual, e o sentimento derivado da intelectualização e explicação das coisas substitui a satisfação sexual; ou ainda, o que é mais raro e
perfeito, a atividade intelectual escapa não só da inibição, quanto do pensamento neurótico compulsivo (Freud, 1910; Castiel, 2007). Embora neste último caso também se verifique o recalcamento, “ele não consegue relegar para o inconsciente
nenhum componente instintivo do desejo sexual” (Freud, 1910, p. 88); pelo contrário,
(...) a libido escapa ao destino da repressão sendo sublimada desde o começo em curiosidade e ligando-se ao poderoso instinto de pesquisa como forma de se fortalecer. Também nesse caso a pesquisa torna-se, até certo ponto, compulsiva e funciona como substitutivo para a atividade sexual; mas, devido à total diferença nos processos psicológicos subjacentes (sublimação ao invés de um retorno do
inconsciente) a qualidade neurótica está ausente; não há ligação com os complexos originais da pesquisa sexual infantil e o instinto pode agir livremente a serviço do interesse intelectual. (FREUD, 1910, p. 88. Grifo nosso ).
Ao dizer que a pulsão é sublimada desde o começo, Freud afirma que a sublimação não depende de uma operação anterior de recalque; mais ainda, distingue sublimação e recalque, colocando-os como dois destinos pulsionais diferentes.
Joel Birman nos lembra que em Totem e Tabu (1913) Freud avançou num sentido importante no que concerne à conceituação do processo sublimatório: nesse texto, o pensamento freudiano não apenas inseriu os discursos da religião e da filosofia na questão da sublimação, ao lado da ciência e da arte, como também estabeleceu uma relação entre as diversas formas de funcionamento psicopatológico e as diferentes modalidades de ser sublimatórias. A histeria, assim, seria “quase” uma “obra de arte”, da mesma maneira que a neurose obsessiva seria “quase” uma “religião” e a paranóia “quase” uma “filosofia” (Birman, 2002).
A histeria (anormal, não-civilizada, não-sublimada e privada) poderia ser uma obra de arte (normal, civilizada, sublimada e pública) pela beleza de sua materialização na plasticidade de gestos e de produções corporais; entretanto, ela remanesceria no registro do “quase isso” por não ultrapassar a esfera privada da experiência. Ela “Pode nos comover pelo seu espetáculo de belo horror, mas não
nos transmitiria algo que transcenderia a miséria privada do personagem inscrito na experiência conversiva” (Birman, 2002, p. 110). Da mesma maneira, a obsessão e a
paranóia se aproximariam da religião e da filosofia, respectivamente, mas não as alcançariam por não se inscreverem no registro público, na transcendência da experiência religiosa ou filosófica possibilitada pela sublimação (Birman, 2002).
Freud estabelece, assim, analogias metapsicológicas, “traçando
fronteiras entre os registros da civilização e da anticivilização, regulados pela presença/ausência da sublimação.” (Birman, 2002, p. 110-111). A histeria, a obsessão e a paranóia possuiriam funcionamento metapsicológico bastante semelhante ao dos registros da arte, da religião e da filosofia, mas em virtude de sua
impossibilidade dialógica e do caráter de comunicação privada, não os alcançariam, embora com “uma irrefutável marca criativa.” (Birman, 2002, p. 111).
Conquanto se tenha notícia de que no contexto da elaboração dos ensaios metapsicológicos, em 1915, Freud teria escrito um artigo original sobre sublimação, esse texto nunca foi encontrado, incluindo-se entre aqueles que se teriam perdido ou sido destruídos pelo próprio autor (Birman, 2002; Castiel, 2007). A questão do processo sublimatório é, assim, apenas mencionada em Os Instintos e
suas Vicissitudes, de 1915, e embora a menção seja pontual, nesse texto Freud deixa clara a diferença entre recalque e sublimação como dois destinos distintos da pulsão, ao lado da reversão a seu oposto e do retorno em direção ao próprio eu do sujeito (Freud, 1915; Birman, 2002). Fica afastada, então, a idéia de dessexualização da pulsão.
Segundo Birman (2002), nesse momento, a sublimação pressuporia o retorno do recalcado como sua matéria-prima fundamental. Assim, a sublimação,
Neste contexto, (...) implicaria obrigatoriamente na suspensão do recalque, isto é, na anulação deste. Portanto, se o recalque estaria na origem da produção do sintoma que, como formação de compromisso que seria, articularia os diferentes pólos da pulsão e da defesa, a sublimação implicaria o retorno do recalcado como sua matéria-prima primordial, isto é, a suspensão do recalque estaria aqui em jogo. Vale dizer, estaria sugerido aqui que a sublimação se fundaria na erotização da pulsão, pelo viés precisamente do retorno do recalcado como sua materialidade. (p. 112).
Castiel (2007) assinala que o desenvolvimento do conceito de
narcisismo, com a publicação, em 1914, de Sobre o Narcisismo: uma introdução, e as modificações e ampliações feitas ao conceito de pulsão ao longo da história do discurso freudiano, repercutiram sobre a compreensão da noção de sexualidade e, por conseguinte, sobre a compreensão das noções de conflito psíquico, dualidade
pulsional, ética e civilização. Essas ampliações teriam possibilitado, assim, novas articulações à concepção de sublimação.
Com o texto de 1914, o narcisismo deixa de se inserir na psicanálise apenas como etapa evolutiva do desenvolvimento do sujeito para ganhar, de forma explícita, um verdadeiro estatuto de estrutura; afinal, ele nunca é totalmente abandonado pelo sujeito, como evidenciam as psicoses, por exemplo. Economicamente, o psiquismo nunca deixa de vivenciar o investimento libidinal no próprio ego, e os investimentos no ego ou nos objetos vão sendo balanceados: quanto mais investimentos libidinais no ego, menos investimentos libidinais em objetos, e vice-versa. O ego é o grande reservatório de libido, a partir do qual ela é enviada aos objetos, e para o qual retorna (Castiel, 2007).
Se entendermos que o ego é a imagem que o sujeito adquire de si, e que esta imagem não está dada desde seu nascimento, o que seria fundamental à aquisição dessa imagem seria o olhar do outro. Nesse sentido, o narcisismo12 seria
a captação amorosa do sujeito por esta imagem, que dependeria do investimento libidinal daqueles para quem sua existência é fundamental (Laplanche e Pontalis, 2008). Segundo Lacan, esse primeiro momento de esboço do eu corresponderia ao que convencionou chamar de fase do espelho (Laplanche e Pontalis, 2008).
(...) qual é a ação capaz de garantir que o bebê adquira a imagem de si mesmo? Essa ação ocorre através da relação com o outro que é quem narcisiza o bebê e, a partir daí, ele pode, então, adquirir a imagem de si. Essa imagem é adquirida segundo o modelo do outro. (...) O bebê é impotente para garantir por si mesmo seu próprio narcisismo se não estiver sustentado pelo narcisismo parental deslocado sobre ele. (...) Desta forma, Freud explicita a presença do outro como elemento formador do psiquismo do sujeito. (CASTIEL, 2007, p. 60-61).
Freud questiona, nesse texto, por que o represamento da libido no ego teria de ser experimentado como algo desagradável, e chega à conclusão de que uma catexia libidinal no ego que ultrapassasse certa quantidade é que provocaria desprazer. Seria necessário, então, para o alívio da sensação de desprazer, investimentos em objetos:
12 Não é nossa intenção, no presente trabalho, discutir as concepções de narcisismo primário e narcisismo secundário. Como destaca Laplanche (2008), esses são termos que encontram na literatura psicanalítica acepções muito diversas, que impossibilitam a apresentação de uma definição unívoca.
Aqui podemos até mesmo aventurar-nos a abordar a questão de saber o que torna absolutamente necessário para a nossa vida mental ultrapassar os limites do narcisismo e ligar a libido a objetos. A resposta decorrente de nossa linha de raciocínio mais uma vez seria a de que essa necessidade surge quando a catexia do ego com a libido excede certa quantidade. Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em consequência da frustração, formos incapazes de amar. (FREUD, 1914b, p. 92. Grifo nosso).
Investimos no próprio ego e em objetos para obter satisfação. Entretanto, a pulsão não pode ser satisfeita sempre da mesma maneira, através dos mesmos objetos. Assim é que os ideais culturais e éticos do sujeito o impedem, por exemplo, de satisfazer suas pulsões tal como o fazia quando era criança; “(...) o
narcisismo infantil se choca com os ideais culturais e éticos do sujeito e, por isso, sofre a vicissitude do recalcamento.” (Castiel, 2007, p. 62). Mas abrir mão dessas formas originais de satisfação não é fácil:
Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais uma vez aqui o homem se mostra incapaz de abrir mão de uma satisfação de que outrora desfrutou. Ele não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância; e, quando, ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a forma de um ego ideal.O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual ele era seu próprio ideal. (FREUD, 1914b, p. 100-101).
Freud fala, então, na formação de um ego ideal (Idealich), como um ideal narcísico de onipotência cunhado a partir do modelo do narcisismo infantil, e em sua substituição (Laplanche, 2008), diante das sucessivas frustrações que o sujeito experimenta. Entretanto, o ego ideal não se sustenta diante da castração e dá lugar ao ideal de ego.
Cumpre destacar que Freud não traz em seu texto de 1914, nem em O