2 METODE, VALG OG BESKRIVELSE AV PROSESSEN
2.1 B EHANDLING AV EGEN FORFORSTÅELSE
Para Paul Evdokimov, que, durante toda a sua vida, atuou em prol do ecumenismo, a unidade entre os cristãos não poderia ser encontrada senão na dimensão do monaquismo universal.
Daí se depreende que, segundo ele, não será pela sustentação racional e de contornos jurídicos, dos argumentos de cada qual das partes em disputa, que se logrará alcançar o verdadeiro convívio ecumênico, mas pela transformação interior que se expressa na forma de viver proposta pelo monaquismo interiorizado. De fato, como afirma Lars Thunberg,
Para ele [Paul Evdokimov], o monaquismo é uma forma de vida cristã, que pode reunir todos os homens sob um código de hospitalidade, basiliana ou beneditina, expressando uma unidade transconfessional e transdogmática. 334
O ecumenismo é, assim, na visão de Evdokimov, menos uma engenharia político-doutrinária a cargo das “instituições” em conflito e, mais, uma atitude – a atitude monástica – dos indivíduos e da igreja – enquanto comunidade de almas conduzida pelo Espírito Santo - diante daqueles que dela divergem em artigos de fé. Thunberg assim sintetiza este ponto fundamental do pensamento de Evdokimov acerca do ecumenismo:
Isto quer dizer que, sob este prisma interior do ecumenismo, as manifestações exteriores de uma unidade eclesial não são o ponto decisivo. As três Igrejas (romana, ortodoxa, protestante) devem se engajar no plano oficial, mas o objetivo é de manifestar [o ecumenismo] na respectiva vida espiritual, refletindo, tal qual um espelho, o mistério das Três Pessoas Divinas, de modo que, misticamente, possam elas se colocar, juntas, na exposição incessante ao Amor divino.335
Tem-se aqui o que Paul Evdokimov denomina “epiclese ecumênica”, a invocação do Espírito Santo, em prol da união dos cristãos. Esta epiclese, porém, não é, para Evdokimov, um ato formal, indiferente e protocolar: “a epiclese ecumênica exige, fundamentalmente, a transparência e a pureza do coração”,336 a
metanóia proposta pelos Padres da Igreja.
Com efeito, Paul Evdokimov realiza a distinção entre dois “aspectos” do ecumenismo, que se alimentam mutuamente: o exterior (o testemunho perante o mundo) e o interior (a convicção interna da inteireza ou não fragmentação da vida cristã). Nas palavras de Thunberg:
Há em Paul Evdokimov uma dialética bastante sutil entre o aspecto exterior e o aspecto interior do ecumenismo. Diz ele que, sem a convicção, no coração do cristão, de uma obrigação interna com relação à causa ecumênica, que é uma causa à qual toda vida cristã está comprometida (a qual não pode ser senão ecumênica, já que a vida da Igreja não é jamais dividida e nem fragmentada), o ecumenismo organizado se torna vazio. Assim, o objetivo do engajamento ecumênico de todo cristão, enquanto batizado e confirmado pela unção carismática do Pentecostes, é de ser uma testemunha para o mundo – a fim de que o “mundo creia” – o que implica um engajamento da oração ativa. Por outro lado, este compromisso com o poder eclesiástico deve ser visto como fidelidade à realidade trinitária de um Deus que se revela e doa à humanidade pecadora de uma maneira histórica e eterna, como o Deus Uno e Trino a um só tempo.337
O ecumenismo interiorizado não pode ser entendido, em Evdokimov, senão em relação com o monaquismo interiorizado. Este último traz ínsita a ideia segundo a qual é pelos seus santos que a Igreja melhor se expressa. Assim, o viver segundo as três regras monásticas – com as devidas adaptações às inclinações do homem atual – em um ambiente secular, é o mais pungente testemunho que o cristão pode
335 Ibid, p. 280.
336 Paul EVDOKIMOV, Le buisson ardent, p. 24-25.
dar a um mundo hostil a Deus. Sob as mesmas bases, o segundo expressa a possibilidade de viver, interiormente, a união, sendo que, sob tal perspectiva, todo proselitismo – toda “propaganda” religiosa – se mostra fora de lugar. O praticante do monaquismo interiorizado e, por extensão, do ecumenismo interiorizado, ao invés de tentar convencer, racionalmente, o seu interlocutor, dos pretensos acertos de sua fé, cuida de concitá-lo à caridade recíproca, ao arrependimento mútuo, e à adoção de uma postura de silêncio contemplativo diante do Mistério.
Como bem consigna Thunberg, o ecumenismo interior é, para Evdokimov, “uma atitude de arrependimento, mas também, uma espera da Parusia do Espírito, enquanto Pessoa da Trindade, que é o modelo, por excelência, de toda união verdadeira”.338
De tudo se depreende que, em Evdokimov, tão só o aprofundamento na interiorização é capaz de fornecer uma solução ao problema ecumênico, aprofundamento, este, permeado pela constatação de que, diante do Mistério, há que se adotar a epokhé, a suspensão dos julgamentos. Não se cuida, porém, de passividade ou resignação. O diálogo entre os diferentes é necessário e desejável, em uma atmosfera de respeito, acolhimento e não proselitismo. O que se está a dizer é que uma considerável parcela das divergências doutrinárias entre as partes que se antagonizam deita raízes nas profundezas mais recônditas do Mistério, às quais os antagonistas não têm acesso – ao menos pela via conceitual. Daí porque Evdokimov recomende, às vozes dissonantes, nada menos do que o silêncio recíproco, humilde e orante, a fim de que possam elas ouvir, pela intercessão do Espírito Santo, o que se encontra abafado pelos ruídos da disputa, verbis:
Para se voltarem um ao outro – esse ad alterum – para dar início ao diálogo vivificante ao qual todo o passado cristão tende, é preciso [que os antagonistas], em primeiro lugar, se coloquem juntos e se unam no silêncio do arrependimento recíproco. Este é o silêncio orante no qual o Espírito se reconhece, do qual fluirão, como de uma fonte límpida, as palavras essenciais. 339
O ecumenismo interior é, assim, à vista de todo o exposto, mais uma indicação de que, em Paul Evdokimov, teologia e mística são fundamentalmente indistintas. O ecumenismo é um problema afeto à teologia. Entretanto, para
338 Ibid., p. 279-280.
Evdokimov não é uma teologia discursiva e conceitual que terá o condão de unir as partes separadas, mas, sim, uma teologia apofática, que se posta reverente, humilde e atenta, diante do círculo de silêncio que envolve o Mistério de Deus. Nestas condições, os discursos podem dar lugar ao amor.
5. CONCLUSÃO
Segundo Paul Evdokimov, quanto mais o homem se entrega às abstrações, mais se torna impermeável ao Mistério, mais se distancia dos abismos de seu coração, onde Deus habita.
Esta constatação percorre, de alto a baixo, a sua obra e é por ele retomada de diversas formas, sob variadas roupagens e no tratamento de múltiplas temáticas.
O pensamento de Paul Evdokimov – como anotaram alguns de seus comentadores – se desenvolve, de fato, em espiral: as várias repetições de ideias em torno de seu eixo central – Deus - vão como que depurando estas mesmas ideias e lhes conferindo um sentido cada vez mais profundo. Evdokimov jamais pretendeu emprestar contornos de sistema à sua obra, certamente porque o sistema é algo fechado em si mesmo e, como tal, acometido do terrível pecado da autossuficiência.
Referido “aprofundamento vertical” é, todavia, menos um produto da razão lógico-discursiva e mais – bem mais - fruto da introspecção mística. A teologia de Paul Evdokimov é, assim, na linha do que ensinavam os Padres do Deserto, contemplação da Trindade, experiência de Deus. É da intimidade – possível – com Deus, que se extraem as palavras que ousam a Ele se referir. E, de modo simétrico, só são aceitáveis as palavras que a Ele se refiram na medida em que sejam elas – quase sempre balbucios - filhas desta proximidade sublime.
Como ele próprio afirma:
A obscuridade inerente à fé protege o Mistério da proximidade de Deus. Mistério, porque, paradoxalmente, quanto mais Deus é presente, mais é oculto, tenebroso. A treva resplandecente é tão só uma maneira de exprimir a proximidade mais real e, ao mesmo tempo, mais inapreensível.340
Ou de outra forma, igualmente bela:
A transcendência de Deus obscurece toda luz natural, mas sua imanência torna a treva mais do que luminosa, mais do que evidente, porquanto geradora da união perfeita ou deificação, theosis.341
340 Paul EVDOKIMOV,
L’Orthodoxie, P.55. 341 Ibid., p. 111.
Toda a obra de Paul Evdokimov é, enfim, perpassada pela seguinte constatação, de contornos místicos: a razão, quando levada ao seu limite, abre-se à evidência de Deus. Este é o viés essencialmente epistemológico do pensamento de Evdokimov. Para ele, o pensamento especulativo se caracteriza pela rigidez e a fixidez, muito distantes da experiência do “Deus vivo”, própria da theosis, da “divinização” do homem. Neste horizonte, o pensamento especulativo deve, necessariamente, dar lugar a um pensamento unitivo, voltado à contemplação.
A “epistemologia” de Paul Evdokimov é, por si só, um paradoxo que combina duas variantes opostas e que atuam sinergicamente no ser humano: ação e atividade. O “conhecimento” de Deus implica não em especular sobre Deus, mas em transformar-se para Deus. O fazer-se teóforo é uma atividade exaustiva, um combate contra si mesmo – que se perfaz pela ascese; mas a ascese reclama silêncio para perscrutar o próprio coração e lá reconhecer, tanto o inferno, quanto a imagem de Deus. Ao lado desta condição ativa, viril da ascese, se posta a necessária docilidade, receptividade, passividade, ao influxo da graça, que se dá em meio às trevas de uma ignorância douta.
Tal viés epistemológico impregna toda a teologia de Paul Evdokimov. Esta, como se viu, se define a partir de um ato religioso que transforma o sujeito da experiência; trata-se, pois, de um conhecimento por participação, em meio ao qual o especular é francamente sobrepujado pelo viver. Nas palavras do próprio Evdokimov: “A única atitude justa é a de me colocar no terreno ontológico da Realidade que me ultrapassa, me envolve e que me dá acesso à real participação”.342 Este conhecimento teológico, pois, se dá por experiência,
prescindindo das mediações da lógica e do conceito.
A “epistemologia teológica” de Paul Evdokimov tem outro traço fundamental, qual seja o de em tempo algum tentar objetivar Deus, dominar o seu “objeto”. Como pondera Roussel:
Ela [a teologia de Paul Evdokimov] teve o mérito de trazer de volta a uma teologia obcecada pelo ideal de objetividade científica, aquilo da qual a teologia ortodoxa jamais se esqueceu, a saber, que a teologia não domina o seu objeto. Ela convida o leitor de hoje, assim como o de ontem, a se deixar deslocar por Deus no coração do ato teológico e no coração da existência. Trata-se, no fundo, da visão de uma