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A convergência de todas as estratégias até agora elencadas é, por certo, o estabelecimento da dimensão normativo-prescritiva, visto que, a mídia, ao difundir múltiplas imagens e saberes que dizem os corpos, acaba por estabelecer com eles uma relação que é, antes de tudo, normativo-prescritiva, ou seja, ela estabelece as regras (as normas) aos corpos, ao mesmo tempo em que prescreve as vias para que tais objetivos sejam alcançados. Corpo a Corpo, como um todo, está pautada neste par normas-prescrições; aliás, frequentemente, o discurso midiático como um todo está organizado em torno desse par, que se auxilia e se complementa.

Essa dimensão se materializa em todo o corpo da revista, mas podemos ter uma maior clareza dela em seções como Mais Bonita, Make É Tudo e Fio Maravilha, nas quais a revista enuncia certos cuidados a serem tomados pelas mulheres com seus corpos e, imediatamente após, aponta cosméticos, maquiagens e produtos em geral para a manutenção da beleza. Mas temos outros exemplos, como é o caso da matéria intitulada Vejo Flores em Você, presente na edição 237 de Corpo a Corpo, de outubro de 2008, que segue uma estrutura muito parecida a dessas seções:

Figura 24 - Quinta e sexta páginas da matéria Vejo Flores em Você presente na edição 237 de Corpo a Corpo, de outubro de 2008

As normas presentes nessa matéria: primeira, a mulher, para ser bela (na primavera), tem que estar maquiada e, segundo, tem que saber quais os tons de maquiagem corretos para usar nessa estação. As prescrições: que produtos utilizar e como utilizar. Perceba-se que a imagem da modelo atua nessas duas direções: ela tanto estabelece a norma, como aponta as prescrições. Ela é um modelo, por fim.

Voltamos a ressaltar, portanto, que as estratégias discursivas elencadas até aqui convergem, necessariamente, para essa espécie de máxima do discurso midiático: a maleabilidade discursiva, as dicas, a voz dos especialistas (os novos educadores) e as imagens, todas se articulam e funcionam para normatizar e prescrever ideais de beleza e cuidados com corpo (para torná-lo belo, saudável, feliz, relaxado, capaz etc.).

É salutar lembrar, desde já, que, além de convergirem para o estabelecimento da dimensão normativo-prescritiva, esses recursos não aparecem, na materialidade da revista, de forma isolada. Eles sempre se articulam uns com os outros, funcionando em conjunto. Dessa forma, em uma mesma matéria, podemos observar a recorrência de vários (por vezes até de todos) esses recursos, ora servindo para dar mais validade ao que está sendo dito, ora para suprir os limites que outro recurso porventura tenha deixado.

Vejamos, por exemplo, a matéria intitulada 3,2,1, zero!, da edição 240 de Corpo a Corpo, de dezembro de 2008. Nessa matéria, a revista estabelece um calendário de atividades que a leitora deve seguir para estar com o corpo e a aparência perfeitos para a estação do verão (que está por vir).

Figura 25 – Primeira e segunda página da matéria 3, 2, 1… Zero! Feliz Verão! presente na edição 240 de Corpo a Corpo, de dezembro de 2008

Perceba-se que o primeiro contato que a leitora tem com o conteúdo desta matéria está expresso em uma imagem que sugere o perfil de corpo desejável para se apresentar na praia durante o verão, ou seja, um corpo magro.

3,2,1, zero! é composta de doze dicas de especialistas (os novos educadores), através das quais é reforçado o perfil do corpo correto a se apresentar durante a estação do verão. Em concomitância, a revista prescreve quais os cuidados que a leitora deve ter com a pele e com a alimentação para alcançar esse ideal de corpo sugerido, além, é claro, dos produtos e técnicas à disposição no mercado a que deve recorrer, e como utilizá-los. Vejamos um pouco de como se dá a estrutura desta matéria:

30 dias antes. Inicie uma rotina semanal de exfoliação [sic]. Isso vai ajudar a remover as células mortas da epiderme, deixando-a mais lisinha. O resultado

é um bronzeado uniforme e bonito. O procedimento pode ser feito uma ou até duas vezes por semana. Para um bom resultado, use um produto específico para o corpo, com grânulos finos. Ou experimente esta receita caseira, sugerida por Marcela Studart, dermatologista (SP): misture açúcar mascavo, mel e água morna, numa proporção de uma colher de sopa de mel para uma colher de chá de açúcar e uma colher de chá de água. Massageie o corpo com movimentos circulares e ascendentes. Tome banho com água e sabonete neutro. Hidrate-se da cabeça aos pés, com um produto a base de uréia ou lactato de amônia.

(…)

20 dias antes. Se ainda não tem o hábito, comece já: beba entre 1.5 e 2 litros de água por dia. Os benefícios são vários – melhora da celulite, pele mais

viçosa…

Inclua em seu cardápio frutas ricas em vitamina C. Antioxidante, ajuda a prevenir o envelhecimento causado pelo sol. A indicação da dermatologista Marcela Studart é ingerir, todo dia, um corpo de suco de laranja, kiwi ou acerola.

(…)

4 dias antes. Deixe os dentes mais branquinhos – a idéia é que você sorria muito nestes dias de sol! Para resultados à jato, aposte no clareamento a

laser. Tatiane Buscarili, dentista da Sorridentes (SP), explica: “Os dentes

recebem uma camada de gel de peróxido de carbamida ou hidrogênio.

Depois, vem o laser, que acelera a liberação do peróxido e o clareamento”.

Preço médio: R$ 900. (SALLES, 2008, p. 58 – 60).

Note-se que a maioria das estratégias por nós aqui apontadas estão funcionando em conjunto desta matéria, convergindo, afinal, para a dimensão normativo-prescritiva.

Enfim, não são poucas as estratégias discursivas elaboradas e divulgadas em nome do culto ao corpo, da eterna juventude ou da associação entre beleza, saúde e felicidade, por exemplo. Todos os dias, múltiplos saberes circulam pelos mais variados meios midiáticos, permeando o ideário feminino e estabelecendo determinadas formas das mulheres contemporâneas entenderem e se relacionarem com seus próprios corpos.

A mídia determina e condiciona os desejos femininos sobre seu corpo, sua aparência e em relação aos cuidados que mantém consigo. Em uma palavra, ela subjetiva as mulheres.

Mas, para concluirmos, gostaríamos de ressaltar, novamente, uma questão importante que esteve embutida em praticamente todas as matérias e encartes até aqui apresentados: o cuidado de si como tônica principal para os cuidados com o corpo. Somando-se a isso, a necessidade da experiência de cada mulher com as chamadas tecnologias políticas do corpo, ou seja, com as dietas, cosméticos, cirurgias estéticas, exercícios etc., no processo de subjetivação de seus corpos.

Hoje, as mulheres são constantemente convidadas a olhar para si. Todo cuidado é necessário, é desejável e é importante. Ter um corpo perfeito significa, antes de tudo, ter um

corpo trabalhado, esculpido e moldado segundo o esforço de cada uma sobre si, conforme sua experiência consigo. Ser bela tornou-se, portanto, uma opção, algo que depende do esforço, da disciplina, da dedicação e dos cuidados que cada mulher mantém com o próprio corpo. Mas não apenas isso: para ser bela, há que se manter sempre uma relação estreita com os produtos de mídia e com as tecnologias políticas do corpo. Em outras palavras, um corpo, para ser dito belo, deve ser atravessado por múltiplas técnicas que visam seu aprimoramento e sua potencialização visual; mas, vale lembrar, o uso destas está estreitamente vinculado à prática de olhar para si.