A teoria do conceito, cunhada pela pesquisadora alemã Ingetraut Dahlberg, define “conceito” como unidade de conhecimento e que sua formação se dá pela reunião e compilação de enunciados verdadeiros a respeito de determinado objeto (DAHLBERG, 1978). Tal definição, segundo Dahlberg, possibilita um entendimento mais objetivo daquilo que está sendo observado pelo indivíduo, o qual tem a capacidade de fazer afirmações sempre verdadeiras perante as coisas reais do mundo e comunicá-las através de uma forma verbal. A visão de Dahlberg vai de encontro a um dos componentes de uma ontologia capaz de modelar sentenças verdadeiras sobre uma certa realidade, os axiomas. Tal componente permite especificar ontologias rigorosamente formais contendo “termos definidos com semântica
formal, teoremas e provas”22 (USCHOLD e GRUNINGER, 1996, p.6). Os axiomas permitiriam, assim, definições precisas nos conceitos e relações entre conceitos, de forma a possibilitar inferências sobre o sistema de conceitos.
Alvarenga (2001) explana “conceitos” como sendo unidades de conhecimento, compostas de declarações verdadeiras sobre um item específico de referência representado por uma forma verbal, o termo. Alvarenga (2003)ainda expõe comentários sobre o trabalho de Jesse Shera, um dos pensadores clássicos da biblioteconomia, o qual trata da gênese dos conceitos na mente humana, ou seja, como se desenvolve, no cérebro humano, o processo de formação de conceitos. Esse trabalho torna-se essencial para pesquisas voltadas à Inteligência Artificial na qual se exige um profundo conhecimento do sistema nervoso humano a fim de tentar viabilizá-lo na máquina. Ainda na concepção da autora, documentos são registros do conhecimento humano que são formados de conceitos, e que o homem sempre classificou o conhecimento em uma hierarquia taxonômica que une semelhanças ou separa diferenças existentes dos conceitos. Daí a razão pela qual, segundo o referido artigo, os conceitos seriam o material para a construção da classificação.
Dahlberg (1978) apresenta três passos, mostrados na Figura 4, para a formação de conceitos:
Figura 4 – Modelo para a construção dos Conceitos
Fonte: Dahlberg (1978, p.143)
i) o passo referencial, que seria o ponto de partida para o processo de determinação do conceito, ou seja, a seleção do referente num determinado domínio de conhecimento;
ii) o passo predicacional, no qual há uma atribuição de características relevantes ao referente;
iii) o passo representacional, em que através das características atribuídas ao referente, consegue-se chegar à denotação do conceito, representado pelo termo.
Após, ou no momento23 da formação ou definição do conceito, o próximo passo seria sistematizar tal unidade de conhecimento, ou seja, posicioná-la em um sistema de conceitos, utilizando-se das técnicas de categorização. Dahlberg, como Ranganathan, utiliza a noção de categoria para representar contextos, e posteriormente analisar os conceitos de um contexto no intuito de classificá-los no interior dessas categorias. A Figura 5 mostra as categorias e as subcategorias formais propostas por Dahlberg, as quais foram embasadas nas clássicas categorias de Aristóteles, que por sua vez fundamentaram as categorias de Ranganathan.
Figura 5 – Categorias e subcategorias formais de Dahlberg
Fonte: adaptado de Dahlberg (1978, p.145)
Campos (2001a, p.95) observa a técnica de categorização como: a) um recurso para o entendimento da natureza do conceito e b) um recurso de formação de estruturas conceituais. Os dois aspectos são considerados complementares e fornecem recursos para estruturar um determinado domínio de conhecimento. Diante disso, podemos conferir a relação da teoria da classificação facetada com a teoria do conceito com seu método analítico-sintético.
23 “Pode-se afirmar que o método de categorização é o exercício de entendimento do conteúdo conceitual do termo [...] esta afirmativa nos leva a uma pergunta clássica: Define-se para classificar (categorizar) ou classifica-se (categoriza-se) para definir? Fica a questão” (CAMPOS e GOMES, 2006).
No que diz respeito às relações entre conceitos, a teoria de Dahlberg (1978) propõe as seguintes:
• Relações lógicas que podem ser categorizadas em: Identidade: quando as características são as mesmas;
Implicação: quando os conceitos do objeto A estão contidos no objeto B; Interseção: os dois conceitos coincidem em algum elemento;
Disjunção: os conceitos se excluem mutuamente, sem nenhuma característica em comum;
Negação: o conceito do objeto A inclui uma característica cuja negação se encontra no objeto B.
• Relações hierárquicas. Também conhecidas como relações gênero-espécie, subdivididas em hierárquica subordinada (cadeia) e hierárquica coordenada (renque). Quando dois conceitos possuem características idênticas e um deles possui uma característica a mais do que o outro, então é possível estabelecer a relação hierárquica entre os conceitos. Por exemplo, temos árvore, árvore frutífera, macieira.
• Relações partitivas. É quando existe uma relação entre o todo e suas partes como, por exemplo: árvore e (raízes, tronco, folhas, etc.)
• Relações de oposição. É a noção oposta entre conceitos, tal como presente e ausente, caracterizando uma contradição, e a contrariedade, como branco e preto.
• Relações funcionais. Estas relações se aplicam a conceitos que expressam processos, através do caráter semântico e suas valências do verbo. Por exemplo: produção – produto – produtor.
Campos (2001a) ressalta que os princípios da teoria do conceito estão sendo úteis para a elaboração de tesauros, por que fornecem recursos para o estabelecimento de relações, para sua realização no plano verbal e para a determinação dos termos.
Campos (2004) ainda destaca que o estudo da teoria do conceito pode ajudar o modelizador em sua atividade de elaboração de modelos de representação para linguagens documentárias, sistemas computacionais, hipertextos e ontologias. Tais instrumentos de representação podem proporcionar de maneira eficaz o acesso, a disseminação, o compartilhamento e uso do conhecimento pelos usuários em potencial.