Research setting
Dimension 3: Internal Accountability
7.5 Future research
Nossa compreensão não depende somente dos mapeamentos metafóricos que elaboramos, mas, muitas vezes, está ligada à habilidade de pensarmos metonimicamente. De acordo com Gibbs (1994), metonímias são elementos essenciais do nosso sistema conceptual: as pessoas tomam um aspecto bem-delineado ou facilmente percebido de algo a fim de representar ou simbolizar um todo. O processamento de metonímias é bastante similar ao da metáfora, posto que também possui uma base conceptual elaborada pela experiência corpórea, e constitui uma maneira primária pela qual as pessoas referem-se a outras, eventos e situações, expressando uma maneira particular de pensar. Essa forma de pensamento metonímico subjaz muitos tipos de raciocínios, e permite que as pessoas delineiem inferências sobre o que os falantes pretendem dizer.
Lakoff e Johnson (1980, p. 35-40) argumentam que a constituição de metáforas e metonímias ocorre por processos diferentes. A primeira é “uma maneira de conceber uma coisa nos termos de outra, e sua função básica é o entendimento” (p. 36, itálico nosso). Há, nesse caso, um domínio conceptual que designa outro domínio, mas os conteúdos desses domínios são desiguais. Já a segunda tem uma função referencial, permitindo que usemos uma entidade para designar outra, além de também servir para fornecer entendimento. Na metonímia, temos apenas um domínio conceptual, em que o mapeamento ou conexão entre duas coisas está dentro do mesmo domínio (GIBBS, 1994, p. 322).
A metonímia conceptual PARTE PELO TODO, como é possível resgatar no enunciado (46)
O bonde passa cheio de pernas.23, é comumente referida como sinédoque. Nesse caso, „pernas‟ são
entidades utilizadas para designar „pessoas‟. A diferença entre metonímia conceptual e sinédoque é que a primeira é mais produtiva, está em um nível superordenado em relação à segunda e substitui uma característica-tipo por um princípio geral, ou função – de fato, esse princípio retrata um aspecto do conceito para o qual se quer chamar a atenção. Além disso, os termos de referência de uma metonímia frequentemente ligam elementos abstratos e concretos. A sinédoque, por sua vez, é mais restrita e seus termos de referência são concretos, como em (47)
Pagamos R$ 15 por cabeça.
Além da metonímia conceptual PARTE PELO TODO, Lakoff e Johnson (1980, p. 38-39)
apresentam outras atualizações desse mecanismo conceptual:
a) O PRODUTOR PELO PRODUTO: Você pode devolver o meu Dostoievski?
b) O OBJETO USADO PELO USUÁRIO: Os ônibus estão em greve.
c) O CONTROLADOR PELO CONTROLADO: Napoleão perdeu em Waterloo.
d) A INSTITUIÇÃO PELA PESSOA RESPONSÁVEL: A universidade não aprova essa atitude.
e) O LUGAR PELA INSTITUIÇÃO: Hollywood não é mais a mesma. f) O LUGAR PELO EVENTO: Watergate mudou a política dos EUA.
Como podemos observar em alguns dos exemplos acima, muitas das associações feitas são culturais, e refletem um princípio geral de que uma coisa representa outra à qual está convencionalmente ligada. Para ser compreendido, o referente precisa estar acompanhado de um conjunto de crenças estabelecidas. Referiremos o tipo de interpretação gerada ao se utilizar o mecanismo metonímico como inferência metonímica, isto é, uma interpretação por meio de metonímia conceptual.
Inferências assim designadas podem ser geradas a partir do julgamento de que alguns membros de dadas categorias podem ser os mais representativos de dada categoria do que outros. Segundo Gibbs (1994), os efeitos prototípicos espelham diretamente a estrutura da categoria, em que os protótipos constituem representações específicas dela. Assim, para refletir sobre membros típicos que representam a totalidade de uma categoria, utilizamo-nos de modelos metonímicos. Por isso, „dona de casa‟, „mãe-trabalhadora‟, „mãe-esposa‟, „pai-que-é-mãe‟ podem representar modelos cognitivos de „mãe‟, dependendo da cultura, e em dada situação.
As metonímias conceptuais, bem como as metáforas conceptuais, são formas de conhecimento (convencional) usadas para delinear inferências do tipo implicaturas conversacionais (nos termos de GRICE, 1975). Para Gibbs (1994), no modelo cognitivo idealizado24, um ouvinte infere o que o falante quer dizer porque sabe que o evento no qual essa
fala se insere tem uma série de passos. Assim, no exemplo elaborado por esse autor, verificamos que os eventos relacionados ao enunciado são esperados pelo interlocutor, não sendo necessário especificá-los:
(48) A: Como você foi ao aeroporto?
B: Eu chamei um taxi.
24 Veremos, na seção 2.5, como se definem os Modelos Cognitivos Idealizados. Por ora, podemos dizer que se
tratam, em alguns contextos, de Modelos Culturais por estarem ligados a experiências sociais, culturais, históricas, sendo esquemas coletivos determinados pela intersubjetividade.
O modelo cognitivo idealizado carrega uma série de passos que envolvem esse evento, mostrando que B quis especificar que encontrou um taxi e que esse o levou ao aeroporto. Nele, outros eventos estão implicitamente incluídos (cf. LAKOFF, 1987):
- Precondição: você tem (acesso ao) veículo.
- Embarcação: você entra no veículo e dá a partida (ou alguém dá a partida). - Centro: você (ou alguém) dirige para o seu destino.
- Término: você (ou alguém) estaciona e sai. - Ponto final: você está no seu destino.
Da mesma forma, emoções também estão inscritas em modelos cognitivos idealizados por serem dependentes de processos metonímicos, tendo em vista que a sua compreensão faz parte da experiência: quando alguém refere que está “fervendo de raiva”, temos uma sequência de passos envolvendo o evento emocional que estão metonimicamente inseridos no modelo, mas que são vistos como uma emoção integrada: da causa à perda de controle da emoção, quem a sente não procura recuperar todos os estágios pelos quais a raiva se desenvolveu, mas avalia o próprio estado emocional como algo único, integrado e, possivelmente, como parte de um
continuum. Como veremos mais adiante, a implicatura conversacional ligada a processos
metonímicos está, em grande medida, relacionada à forma como elaboramos a ocorrência de nossas próprias emoções. É comum usarmos uma parte para evocar o modelo inteiro, pois ao mencionar que alguém está fervendo, no caso da raiva, é possível que os interlocutores reconheçam como essa pessoa está se sentindo, e qual o seu nível aproximado de raiva. Retomaremos essa questão na seção 2.7.
Pensar metonimicamente é reconhecer, por meio de inferências, toda a sequência da parte que é salientada na interação. A informação que não é dita será preenchida inferencialmente pelo ouvinte, se necessário, para que a compreensão se efetive. O falante deixará implícitas as informações que ele acredita que os ouvintes serão capazes de recuperar por si próprios. Como veremos no Capítulo 3, isso ocorre porque falante e ouvinte seguem princípios de relevância: o primeiro, ao dizer algo, tenta utilizar os estímulos mais relevantes para que suas intenções sejam compreendidas, enquanto o segundo infere que a forma como algo está sendo dito é o estímulo mais relevante empregado e, dessa forma, preenche inferencialmente as informações pretendidas pelo falante.
De acordo com Gibbs (1994), o tipo de mapeamento metonímico “reflete padrões pré- existentes de pensamento metonímico que em muitos casos delimitam os tipos de inferências que os ouvintes podem delinear para dar sentido ao que os falantes dizem” (p. 336). Assim,
elaboramos sentidos novos para os conceitos já inscritos em nossa memória de longo prazo quando entendemos expressões metonímicas por meio da associação de conceitos ligados ao conhecimento e às palavras e expressões ditas em contexto. Isso ocorre, inclusive, quando falamos de nossas próprias emoções. Ao dizermos (10) Pedro achou que Ana iria explodir., temos um caso de metonímia conceptual, em que „explosão‟ designa, analogamente, uma manifestação fisiológica da raiva25. Esse ponto é sustentado por Kövecses (2000), para o qual as respostas fisiológicas para emoções são codificadas metonimicamente, tendo em vista que “há em nosso sistema conceptual um princípio metonímico muito geral: AS RESPOSTAS FISIOLÓGICAS E EXPRESSIVAS DE UMA EMOÇÃO REPRESENTAM A EMOÇÃO” (p. 134), sendo que a metonímia mais
geral, que norteia a construção da primeira, é EFEITOS DE ESTADO REPRESENTAM O ESTADO (p.
134). Isso pode ser visto em enunciados como “Fiquei vermelho de raiva”, “Ela empalideceu”, “Minha boca secou”, “Congelei de horror”, “Tremi de medo”. Assim como ocorre com metáforas conceptuais, essas metonímias conceptuais são manifestações ligadas a experiências corpóreas, as quais têm grande potencial para existirem em culturas diversas.
Tanto metáforas e metonímias conceptuais como a estrutura de esquemas de imagem (além da noção de frames, sobre a qual falaremos ainda neste capítulo) são reconhecidas como princípios estruturadores da organização da realidade que construímos. Esses são parte de um sistema que molda as nossas experiências corpóreas e que abarca a nossa habilidade para categorização e para o reconhecimento de pontos de referência cognitivos (ou protótipos), chamados por Lakoff (1987) de Modelos Cognitivos Idealizados.