• No results found

Para estudar o homem cultural, devemos ter em mente a noção de que ele se desenvolveu como resultado da evolução complexa resultante, pelo menos, de três trajetórias: a da evolução biológica desde os animais até o ser humano (filogênese), a da evolução histórico-cultural, que resultou na transformação gradual do ³homem primitivo´ até o homem cultural moderno (sociogênese) e a do desenvolvimento individual de uma personalidade específica (ontogênese), através do qual um pequeno recém-nascido atravessa alguns estádios, passando pela meninice, tornando-se um adolescente e posteriormente um adulto. No desenvolvimento histórico da humanidade, ocorreram mudanças e desenvolvimento não só nas relações externas entre as pessoas e

no relacionamento do homem com a natureza; a própria natureza humana se desenvolveu e se alterou (LÚRIA & VYGOTSKY, 1993).

Ao revisitar a história da humanidade, percebemos que o homem primitivo já

deu o passo mais importante no seu desenvolvimento, ao passar da aritmética natural para o uso de signos. (P.143)26. É legítimo dizer que todo o caminho do desenvolvimento humano tem origem exatamente nesse passo. É seguramente nesse momento que o homem passa a deixar suas marcas e a constituir-se como um ser cultural diante do mundo. É pressionado pelas necessidades econômicas (registrar quantidades, medidas e distâncias) que ele aperfeiçoa os símbolos externos, as técnicas de memória e os instrumentos de comunicação (sons e gestos)27. Citando as pesquisas de Lévy-Bruhl, com ³homens primitivos´, os autores dizem que, em algumas tribos primitivas, ele encontrou duas linguagens, a dos gestos e a oral. (p.126).

De acordo com Luria (2001), o advento do trabalho social e o surgimento das formas de organização em grupo a ele vinculadas impulsionaram a origem da linguagem. O Pensador defendeu ainda a noção de que o nascimento da linguagem decorreu da necessidade de os trabalhadores se comunicarem durante o exercício da suas atividades laborais.28 As formas sociais de existência histórica do homem provocaram aparição de ferramentas de apoio ao convívio coletivo. Luria é categórico, ao assinalar que, mesmo existindo inúmeras teorias tentando explicar a origem da linguagem,

(...) possuímos uma ampla base para acreditar que a palavra , como signo que designa um objeto, surge do trabalho, das ações com os objetos, e que é na história do trabalho e da comunicação , como repetidamente assinalou Engels, onde se deve buscar as raízes do surgimento da palavra. (P.28).

26 Cf. o livro Estudos sobre a história do comportamento ± símios, homem primitivo e criança, dos

autores L.S. Vygotsky e A.R. Luria, 1993.

27 A memória natural desses povos foi considerada primorosa, com a descoberta dos signos (a linguagem,

os números etc.), ela passa a ser cultural ou artificial e, com apoio desses instrumentos, passa a fazer menos esforço para memorizar maiores quantidades de informação, além de contar com novas possibilidades operacionais. (IBIDEM, P.118)

28 Diferentemente de uma linguagem tosca e menos desenvolvida do que a do homem cultural, a

linguagem do homem primitivo surpreende-nos pela enorme riqueza de vocabulário. Toda a dificuldade em entender e estudar essas línguas origina-se, antes de mais nada, de sua superioridade sobre as línguas dos povos culturais, em razão do grau de riqueza, da abundância e da exuberância de suas diversas WHUPLQRORJLDV FRLVD WRWDOPHQWH DXVHQWH GH QRVVD OtQJXD   ³1RVVD PHWD   p IDODU FRP FODUH]D H precisão, a do índio, é falar como se estivesse desenhando, enquanto nós classificamos, ele LQGLYLGXDOL]D´ ,'(03 

Segundo ele, é importante considerar que o homem, a princípio contando apenas com o conhecimento produzido pela experiência sensorial imediata, ultrapassou, com a palavra, esses limites e passou a refletir, a elaborar conceitos abstratos e a produzir um saber que lhe permitiu chegar mais próximo da essência das coisas. Em suas palavras, é por isso que, em um dos clássicos do marxismo, diz que a passagem do

sensorial ao racional resulta em algo não menos importante que a passagem da matéria inerte à vida. (LURIA, 2001).

Em seus primórdios, a linguagem esteve estritamente ligada aos gestos, a sons, entonações e contextos concretos para produzir sentidos (caráter simpráxico). Aos poucos os grupos foram aprimorando as formas partilhadas de comunicação. Criaram, então, um sistema de códigos que, no primeiro momento, designava objetos e ações. Em seguida, começaram a diferenciar as características dos objetos, das ações e suas relações, o que foi alvo, progressivamente, de uma emancipação da prática e se tornou um sistema autônomo de códigos.

Por fim, surge a linguagem como sistema sinsemântico, isto é, um conjunto de signos ligados uns aos outros por seus significados e que formam um sistema de códigos, mediante o qual podemos interpretar uma realidade, mesmo não estando presente nela. O sistema sinsemântico forma a estrutura léxico e gramatical da linguagem.

Na verdade, a aquisição e o desenvolvimento da linguagem ampliam as possibilidades do homem de interagir no mundo. A palavra, que a princípio designava um objeto, uma ação, uma qualidade ou uma relação, ao ser codificada e interiorizada, permite acessá-lo, independentemente de sua presença real, pela percepção, à representação mental e à memória.

É a capacidade de operar mentalmente com uma variedade de aspectos da realidade que permite ao homem transmitir as tradições e o capital cultural de sua geração para a posteridade.

Os autores da Troica29 entenderam que as primeiras palavras da criança são de origem sociocultural, porque incorporadas por ela pela imitação, ou seja, à medida que escutam a fala dos que estão em seu entorno, geralmente seus pais, irmãos ou

29 Uma referência aos três pesquisadores da Escola de Vygotsky: Lev Semiónovitch Vygotsky, Alexander

cuidadores, sua linguagem nasce ligada à ação e à comunicação com outro. Sua compreensão é facilitada pelos contextos práticos, como gestos e entonação da voz.

Aos poucos a criança vai adquirindo habilidades cada vez mais sofisticadas para descrever e categorizar acontecimentos, extrair conceitos das coisas, expressar seus sentimentos e desejos, principalmente levantar hipóteses sobre o que ocorre em seu cotidiano.

Inicialmente a linguagem se manifesta em sua versão oral e só posteriormente, dependendo dos estímulos, suportes e interações a que for submetido, o indivíduo desenvolverá a leitura e a escrita quando, então, reeditará sua fala. Em concordância com os autores que defendem o argumento de que a escrita contamina o discurso, estão Ferreiro (2004), Teberosky (2004), Benveniste (2004), entre outros, que provaram não ser possível numa sociedade letrada a sobrevivência da oralidade primária, como referiu Ong (1987).

A afirmação de Wallon (1989), corroborada por Vygotsky (1991), de que o homem é geneticamente social, explicita-se à medida que se constata a enorme facilidade da criança em interagir com os outros humanos. O fato de a criança pré- verbal se interessar pelo som da voz humana, mais do que por outros, ou pela fisionomia das pessoas que convivem com ela, mais do que as de outros seres, além da enorme facilidade para incorporar rotinas de intercâmbio social, vem harmonizar-se à afirmação anterior.

As crianças que vivenciam sistematicamente intercâmbios comunicativos com seus entes mais próximos, precocemente, ou seja, por volta de dois meses, já são FDSD]HV GH HPLWLU DV SULPHLUDV ³SURWRFRQYHUVDV´ EDOEXFLRV DOWHUQDGRV SRU gestos e contatos visuais). Nesse período, os jogos de exercícios piagetianos já começam a ocupar lugar de destaque na vida do filhote de homem.

A etapa entre os quatro e os oito meses é por demais promissora no que se refere ao aparecimento de motivos sociais de comportamento. Jerome Bruner (1975 e 1982) foi um dos principais expoentes no destaque ao papel ocupado pelas rotinas lúdicas na formação comunicativa da criança. Esse autor destaca, com a expressão formatos

ritualizados, os contextos estáveis que permitem à criança reconhecer a estrutura de

interação e se antecipar ao adulto, que a regula externamente. Segundo ele, esses formatos têm papel muito importante na interação adulto/criança. O adulto, mesmo não

tendo a intenção planejada de ensinar a criança a ocupar seu papel nos jogos propostos, o faz ocupando um papel de andaime (uma espécie de suporte, de apoio), que irá saindo de cena à medida que a criança for conseguindo sua independência.

Aos oito e nove meses, começam a aparecer as primeiras demonstrações de condutas intencionais. Nesse ínterim, o pequeno já começa a expressar desejos a serem satisfeitos pelos que o cercam. Ele olha para o objeto e para o adulto e, por gestos e vocalizações (condutas protoimperativas), demonstra aspirações.

Por volta de doze meses, a criança emite as primeiras intenções comunicativas por meio de palavras (condutas protodeclarativas). Um exemplo típico das primeiras holofrases é a emissão do WHUPR³iJXD´SDUDGL]HU³HXTXHURiJXD´$OpPGHDSUHQGHU as primeiras normas que regulam a funcionalidade comunicativa, na etapa pré- linguística, desenvolve concomitantemente suas habilidades da discriminação visual e auditiva.

Dos dois aos quatro anos, com o encontro das linhas do pensamento e da linguagem, ocorrem um enriquecimento espetacular do repertório lexical e a ampliação dos usos e funções das palavras. É importante destacar que, para significar, a criança precisa estar dotada de alguns instrumentos psicológicos e funções cognitivas constituídas por meio de processos de maturação biológica e de interação social, razão por que esse fenômeno percorre um longo caminho.

Vale referir que, como citamos anteriormente, o ingresso nas instituições educativas, o consequente convívio (trocas) com seus pares e educadores, bem como a necessidade de conviver sem a presença protetora dos familiares funcionam como impulsionadores da representação mental, dos jogos de ficção, da memória de evocação, entre outros.

Aos cinco e seis anos, é notável um aprimoramento da consciência fonológica, tão importante para a aquisição das habilidades de ler e de escrever. Para alguns autores, a adquirição da escrita e a distinção do número de sílabas e de fonemas que compõem as palavras ocorrem paralelamente e se reforçam.

Para efeito de compreensão didática, a linguagem pode ser subdividida em vários componentes: a Semântica, compreendendo o estudo do significado/sentido das palavras; a Fonologia ou Sintaxe, que procura dar conta do material sonoro da linguagem; a Morfologia, ao retratar as unidades mínimas expressivas de significados

(os morfemas); e a Pragmática, que estuda usos e funções da linguagem. Para que um indivíduo utilize o código linguístico em toda a sua potencialidade, precisa apoderar-se dessas dimensões da linguagem e combiná-las.

A explosão do vocabulário (somado ao seu uso contextualizado) resulta na descoberta de que as palavras representam conceitos ou classes de objetos, ações, qualidades, acontecimentos e relações, e é isso que compreende o desenvolvimento semântico.

A Sintaxe vai sendo incorporada à oralidade infantil, a princípio, por imitação dos enunciados dos adultos e, no segundo momento, pela compreensão de como funciona a composição de uma frase no português brasileiro30. Para Ferreiro et alii, algumas experiências mostram que, antes dos seis ou sete anos, as crianças apresentam sérias dificuldades para aceitar os artigos e as preposições como palavras por estas não apresentarem sentido semântico pleno; já os substantivos (nomes) e os verbos (suas ações), por sua concretude, são aprendidos com maior facilidade. Isso porque, tanto na fala como na fase inicial da escrita, há uma supressão dos artigos e das preposições. Para a criança pré-alfabetizada, há clara distinção entre o que está escrito e o que se pode ler.

Convém assinalar que é a Pragmática a expressar funções e habilidades reguladoras do sistema linguístico ± o que se faz com a linguagem, em que circunstância se usa uma ou outra forma de linguagem e com que finalidades. Para Cagliari (1991), a linguagem vive no uso que os falantes fazem dela em sua cotidianidade. Para ele, aos sete anos, pode-se garantir que a criança está madura linguisticamente.

Considerando as afirmações feitas sobre a linguagem pelos diversos autores referidos, tencionamos mais uma vez dar relevo à necessidade do adulto alfabetizado na assessoria à aquisicão e/ou ao desenvolvimento deste sofisticado sistema, que é a língua nativa, por parte das crianças pequenas. Portanto, desvendar os saberes que norteiam as ações educativas do professor da Educação Infantil é mister para quem pretende colaborar para a garantia dos direitos básicos das crianças.

30 Para linguistas como Bagno (1999 e 2001) e Antunes (2003), é importante destacar as diferenças entre

3. 2 O papel da Escola no desenvolvimento das funções psicológicas superiores na