Ao esboçarmos o nosso plano de ação, tendo o diálogo como ferramenta metodológica e objetivando um apoio pedagógico colaborativo e formativo junto ao grupo de educadores de uma escola pública, tínhamos em mente atuarmos em uma das três escolas de Natal/RN que investigamos no período entre 2002 e 2003, à época da pesquisa de mestrado, por ser uma escola de referência estadual na educação de alunos surdos.
Assim procedemos durante o ano letivo de 2004, mas à medida em que a investigação prosseguia, observamos que seria necessário ampliar o contexto educacional, uma vez que encontramos dificuldades para a implementação da ação pedagógica e metodológica proposta. Nossa perspectiva era observar e entender se as dificuldades encontradas na escola eram provenientes da nossa proposta metodológica ou se elas se deviam a nossa forma de atuação, ou, ainda, se derivavam da organização e funcionamento escolar. Assim, ampliamos a nossa proposta investigativa para mais duas escolas da rede pública de ensino, nas quais já havíamos identificado características importantes para o exercício do diálogo em encontros semanais destinados a estudos e planejamentos pedagógicos. Os perfis dessas escolas encontram-se no quadro I, do apêndice 1.
A escolha das três escolas, que serviram de campo à nossa investigação, baseou-se nas seguintes características: 1) que fossem escolas públicas na cidade do Natal; 2) que tivessem alunos surdos matriculados em salas de aula regulares; 3) que houvesse uma equipe de coordenação pedagógica no quadro escolar; 4) que os educadores da escola assumissem, coletivamente, novos caminhos de ação para os quais, eu, como pesquisadora,
me responsabilizaria por apoiá-los na sistematização da proposta de formação e de ação.
As duas primeiras características justificam-se pelas contribuições que essa pesquisa objetiva oferecer à educação das pessoas com necessidades educacionais especiais, entre elas os alunos surdos em ambiente regular de ensino, por ser essa a área da educação que vimos investigando e atuando ao longo de alguns anos.
A terceira característica atende ao objetivo maior da proposta colaborativa de formação e de ação, ao apontar o coordenador pedagógico como o profissional responsável por mediar/articular, de forma contínua e sistematizada, a formação do grupo de professores com os quais atua ao mesmo tempo em que lhes oferece o apoio pedagógico solicitado, buscando, quando necessário, apoio especializado em outra instância, além da escola.
Nossa investigação, por se caracterizar como uma proposta de ação numa perspectiva metodológica participante e colaborativa, não poderia acontecer sem a análise e aceitação dos educadores que nela estariam envolvidos, o que se constitui e justifica a quarta característica básica para a composição do locus dessa pesquisa.
Seguindo o quadro I do apêndice 1, a primeira das três escolas investigadas é da rede estadual de ensino e situa-se na região leste da cidade do Natal/RN, em um bairro de área nobre, próximo ao centro da cidade. As demais escolas são da rede municipal, localizando-se, a segunda, na região oeste, em um bairro com condições sociais adversas em que se destaca um grande índice de violência. A terceira escola, situa-se na região norte, em uma
área que apresenta, com freqüência, transtornos sociais, pela delinqüência de alguns grupos de jovens marginalizados.
As três escolas oferecem o ensino fundamental, com turmas de ciclos I (alfabetização), II (sistematização); turmas de aceleração; turmas de seriação de 5ª à 8ª séries e a terceira escola oferece, também, a educação infantil, com duas turmas em cada turno diurno.
Quanto ao espaço físico, embora com áreas físicas diversas, as três escolas apresentam semelhanças no que concerne aos seus espaços pedagógicos: salas de aula arejadas e iluminadas, bibliotecas, quadras de esportes, sala de administração/direção, sala de coordenação, sala dos professores, etc. A primeira escola destaca-se das demais por ter um auditório e duas salas para atendimento específico aos alunos com necessidades educacionais especiais, denominadas Salas de Apoio Pedagógico Especializado (SAPEs). A terceira escola destaca-se, também, por ser a maior da rede municipal, em número de salas de aula (vinte e uma) e pelo número de 1.885 alunos matriculados. Embora os muros e paredes se mostrassem sujas, pelas freqüentes pichações, as três escolas se encontram em bom estado de conservação.
No que concerne aos recursos disponíveis, como equipamentos e materiais pedagógicos (jogos, mapas, livros, etc.), as três escolas se assemelham, como descritos no quadro I, apêndice 1, apesar dos coordenadores e professores, da primeira escola, reclamarem que os equipamentos estão, freqüentemente, sem condições de funcionamento e uso. Sobre materiais pedagógicos, específicos para o trabalho com alunos surdos,
as escolas dispõem de alguns jogos e cópias de dicionários em língua de sinais. Somente a escola 1 dispõe de dicionários e vídeos em língua de sinais.
A respeito do quadro de funcionários e educadores, as três escolas contam com um diretor e um vice-diretor na equipe administrativa, sendo que nas escolas 2 e 3 estes já vinham sendo eleitos diretamente pela comunidade escolar, enquanto que na escola 1, o processo de escolha pela comunidade só foi implementado ao final do ano 2005, com a primeira eleição direta. As equipes de coordenação pedagógica, nas três escolas, são formadas por dois educadores em cada turno e nas escolas 2 e 3 somam-se um terceiro coordenador, denominado coordenador geral, que transita nos três turnos escolares, intercambiando as decisões pedagógicas e, por vezes, administrativas. Quanto aos funcionários de serviços administrativos, bem como de serviços gerais (limpeza, merenda e vigilância) parecem atender às necessidades das escolas, pois não observamos qualquer comentário desfavorável a esse respeito.
O número de professores nas três escolas é correspondente às turmas e/ou disciplinas que lecionam, ou seja, não se observou a falta de professores nas turmas, como era comum ocorrer em anos anteriores, principalmente se a escola oferecia o ensino em séries de 5ª a 8ª e Ensino Médio e estava localizada nas periferias da cidade. Observou-se, apenas na escola 1, a falta de professor de educação artística que logo foi suprida e, na escola 3, a reclamação da direção para com a Secretaria de Educação que demora em enviar professores substitutos para suprirem os afastamentos de professores por licenças médicas ou outros motivos.
Quanto aos professores, considerados de apoio específico aos alunos com necessidades educacionais especiais, somente a escola 1 dispõe desses profissionais, em média seis educadores por turno, que atendem os alunos matriculados naquela escola e de outras escolas da rede pública estadual que busquem esse serviço.
Com respeito aos alunos, observou-se que na escola 1 estão matriculados poucos alunos residentes no próprio bairro. Em sua maioria, os alunos provêm de bairros distintos, tanto próximos à escola, como os mais distantes. O que não ocorre com as escolas 2 e 3, em que os alunos residem, em sua maioria, no próprio bairro. Quanto a matrícula, é relevante destacar o número de alunos surdos nas três escolas investigadas. Na primeira, dos 109 alunos com necessidades educacionais especiais matriculados, 99% são surdos. Já nas escolas 2 e 3, apenas dois e um aluno surdo, estão matriculados, respectivamente.
Em nossa proposta inicial de ação pedagógica, esboçada em 2004, havíamos resolvido a trabalhar com uma só escola de Natal, porém com todos os educadores, nos três turnos, além dos especialistas em educação especial, lotados na SUESP/SECD-RN, que ofereciam apoio pedagógico itinerante a essa escola. Com a reformulação do nosso plano de atividades, cujas causas descreveremos adiante na contextualização da proposta de nossa ação, decidimos por atuar em mais duas escolas, porém somente em um de seus turnos de trabalho. Assim, a escolha do turno vespertino se deu na escola 1, por já termos iniciado a investigação ao longo do ano letivo de 2004 e, nas demais escolas, escolhemos o turno matutino por ser neste que os alunos surdos estavam matriculados.