Esta pesquisa permitiu descrever e registrar aspectos da tecnologia do processo de biorreator com membrana (MBR) voltados para a sua aplicação aos sistemas descentralizados de esgotos, tais como a sua concepção e dimensionamento, requisitos de operação e de manutenção, suas vantagens e desvantagens, permitindo obter as principais conclusões para propor um sistema unifamiliar e se aprofundar no assunto.
Foi desenvolvida uma metodologia simplificada de avaliação tecnológica de processos de tratamento de esgotos descentralizados com uma abordagem de análise de decisão multiobjetivo e multicritério, utilizando método com variável discreta e construindo o problema para obter uma solução por hierarquização. Os métodos de análise multiobjetivo selecionados e utilizados foram o ELETRE III e o TOPSIS. Na análise tecnológica proposta, por motivo de simplicidade, adotaram-se apenas algumas das dimensões da Tecnologia normalmente consideradas, e somente os critérios possíveis de mensuração rápida e simples dessas dimensões. Essa proposta metodológica de avaliação foi testada por um processo de análise de sensibilidade, no qual foram variados os valores dos pesos de cada dimensão e de cada critério.
A metodologia de avaliação tecnológica desenvolvida foi então processada para três cenários muito comuns e possíveis de existirem sob as condições brasileiras, incluindo-se as mais remotas regiões do País. Para o Cenário 1, considerou-se que o efluente poderia ser infiltrado no terreno, e as melhores alternativas a serem aplicadas nesta situação seriam as alternativas A1 (Tanque séptico) e a A2 (Tanque séptico seguido de filtro anaeróbio), por serem tecnologias simples, com baixo custo e de fácil implantação. No Cenário 2, para atender a confiabilidade desejável para o sistema de tratamento e a permanência do efluente dentro dos padrões de lançamento estabelecidos pela Resolução 430/2011 do CONAMA, as alternativas A2 e A3 (tanque séptico seguido de filtro anaeróbio e tanque séptico seguido de wetland), são as mais adequadas para este cenário, por atenderem aos requisitos ambientais e serem tecnicamente e economicamente viáveis. A alternativa A6 (Tanque séptico seguido por MBR) é a ideal para o Cenário 3, por ser a única que atende aos padrões de reúso. No entanto, a alternativa ótima para este cenário 3 seria a A4 – Tanque séptico seguido por biofiltro aerado submerso.
O MBR por ser uma tecnologia considerada complexa e com altos custos de implantação e manutenção se mostrou adequado para ser instalado apenas em locais que sofrem com a escassez hídrica e necessitam de utilizar o efluente tratado de esgoto sanitário.
Entretanto, alguns aspectos da implantação da tecnologia MBR que podem ser considerados relevantes para sua adoção em sistemas descentralizados de esgotos no Brasil não foram levados em consideração pela metodologia de avaliação tecnológica desenvolvida no presente trabalho. Isso sugere automaticamente que a metodologia poderá sofrer ajustes mais refinados, para incluir algumas dimensões da tecnologia não consideradas no momento, e, por óbvio, critérios mais precisos de avaliação. Portanto, sugere-se rever as planilhas pontuadas e ponderadas.
Por exemplo, uma questão importante não capturada pela metodologia proposta é o domínio pela comunidade da tecnologia, a sua “apropriação” pelo País. Sabe-se e é notório que o Brasil não domina a tecnologia de fabricação das membranas, o que torna a adoção da tecnologia MBR um fator de grande dependência pela importação de membranas e equipamentos para funcionamento dos módulos de membranas. Então, para que a metodologia capturasse esse fator, seria necessário que a ela fosse incorporada a dimensão da política tecnológica.
A possibilidade ou não de se realizar o reúso de água parece ser o grande divisor entre a adoção ou não da tecnologia MBR. Se se continuar a considerar padrões tão restritivos de qualidade da água para reúso, então, pelo valor alcançado para Sólidos Suspensos Totais e Turbidez no efluente das alternativas de tratamento de esgoto normalmente consideradas, somente a tecnologia MBR tem condições de atender a esses critérios de exigência. Espera-se que o Brasil adote uma legislação para reúso de água que seja realística, e, portanto, permita que outras alternativas de processos biológicos de tratamento de esgotos que não a MBR possam ser levadas em consideração nos cenários com reúso de água. Por outro lado, sugere-se que na metodologia proposta sejam inseridos outros métodos multiobjetivo e multicritério e que seja promovida a consulta a atores e especialistas para atribuir pesos e avaliar os critérios utilizados para a avaliação tecnológica. E, ainda, uma sugestão para aprimoramento do processo de análise tecnológica realizado é a adoção de outra problemática decisória, que é a de alocação, onde se teria que criar classes de
adequação da tecnologia (adequada, inadequada) e cada alternativa tecnológica seria classificada em uma dessas classes. Nesse caso, bastaria trocar os métodos de análise multiobjetivo aqui utilizados por outros que permitam o procedimento de alocação (como, por exemplo, o próprio TOPSIS modificado, ou o ELECTRE-TRI).
Os custos para a implantação e operação do MBR, bem como a comparação com outros processos, como Lodos Ativados, podem ser tópicos de estudo para uma análise de custo mais aprofundada quando aplicados a sistema unifamiliar ou descentralizado.
Finalmente, é importante ressaltar que os custos mais altos de implantação e de manutenção da tecnologia MBR jogaram importante papel na análise tecnológica realizada. Os resultados obtidos com o processamento da metodologia consideraram como dados de entrada os custos atuais registrados. Entretanto, esses custos do processo MBR estão declinando rapidamente, de tal forma que os resultados obtidos com a metodologia proposta para análise poderão ser alterados em pouco tempo.