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5.6 Further work

FEMININO:

Esta dimensão é analisada segundo a efetividade do projeto ELAS em relação ao auxílio da inserção feminina em atividades econômicas e em suas decisões de alocação dos recursos advindos destas atividades.

Buscou-se medir esta efetividade através de alguns elementos:  Acesso ao microcrédito no projeto ELAS;

 Decisão sobre a forma de utilização deste empréstimo;  Impacto na renda individual e familiar.

O apoio do marido na tomada de empréstimo e sua participação na decisão sobre as finanças familiares também foi avaliado dentro das questões ligadas aos elementos anteriores, para que se pudesse fazer um paralelo com a situação familiar anterior e posterior à participação no ELAS. O foco era observar se essas mulheres estão participando mais nas decisões referentes à família, no plano econômico.

A decisão de acessar o empréstimo foi tomada em conjunto com seus cônjuges por parte de todas as entrevistadas casadas, exceto uma entrevistada que nem chegou a dizer ao marido que estava tomando um empréstimo. Muitas entrevistadas discutiram o assunto com outros membros da família e conhecidos que, em sua maioria, citaram outras mulheres que já haviam tomado o empréstimo e haviam tido resultados positivos ou simplesmente acreditavam nas iniciativas desenvolvidas pelo Banco Palmas.

104 Foi interessante perceber o quanto a fama do Banco Palmas conferiu credibilidade ao projeto.

“Meu esposo não disse nada. Mas apoiou. Disse que a nossa situação exigia aquilo” (Entrevistada 17, 26 anos).

“Todo mundo gostou da ideia de eu pegar. Porque todo mundo veio

pegar também. Banco Palmas ajudou todo mundo, né. Meu marido

aprovou, achou bom. Disse que ia ajudar em casa” (Entrevistada 18,

28 anos).

Embora a situação econômica familiar tenha sido colocada como justificativa a todos os empréstimos, pode-se perceber que elementos como independência e autonomia entraram em jogo, se não no momento do empréstimo, logo após o início do desenvolvimento do empreendimento.

“Não tem jeito. Se você depender dele economicamente, você vai

engolir sapo” (Entrevistada 13, 28 anos).

“Projeto ELAS deixa nossas línguas afiadas. Quando não trabalha,

depende do dinheiro dele, aí como que tu vai responder? E homem faz chantagem” (Entrevistada 5, 43 anos).

“Eu gosto de ser independente. O projeto ELAS fala justamente disso,

não é? Se ocupar com algo diferente, ter independência (...). Eu sou realizada. Não tenho medo de enfrentar a vida. Só quero crescer e aprender muitas coisas mais. Essa ideia aqui do meu negócio foi muito boa” (Entrevistada 22, 42 anos).

“Eu não quero depender de homem, não. Credo. Tive um namorado

que só me botava pra baixo sem eu precisar de nada dele. Imagina se

eu precisasse?!” (Entrevistada 11, 19 anos).

“É ruim depender, viu. Eles sabem cobrar o preço. E você nem tá

querendo coisa pra você! Tú tá querendo é pro filho dele. Mas não interessa. É só a necessidade dele mesmo (do marido) que importa. Você tem paciência, menina? Se não tiver, não casa!” (Entrevistada 12,

105 Segundo as entrevistadas, houve uma conquista de espaço a partir do desenvolvimento de um trabalho. A participação econômica na esfera familiar as colocou numa posição de maior autonomia, a qual elas enfatizam desejar até o fim dos seus dias.

Algumas entrevistadas utilizaram o conhecimento adquirido nos cursos profissionalizantes oferecidos pelo projeto para iniciar sua atividade, mas a realidade da maioria delas não foi esta. Embora muitas tenham utilizado os cursos profissionalizantes para melhorar sua aptidão em prol do empreendimento a ser desenvolvido, a maioria das opções dos pequenos empreendimentos, normalmente conduzidos dentro de seus próprios lares, foram pensados a partir de atividades que já fossem próximas a sua realidade. Destacaram-se as atividades de pequeno comércio, alimentação e costura85.

O crédito adquirido proporcionou a possibilidade de melhoria das condições de trabalho para as que já possuíam um pequeno empreendimento, seja através da reposição de produtos, compra de equipamentos, reformas em instalações ou capital de giro.

As taxas de juros, menores que as praticadas pelo sistema financeiro tradicional, e a rapidez na aprovação do crédito também foram consideradas positivamente por elas. A maioria das entrevistadas não teve contato com outras instituições com oferecimento de microcrédito; mesmo assim, elas pareciam entender que as condições de seus empréstimos eram diferenciadas.

Em estudo realizado por Geraldo (2004) sobre a trajetória de tomadoras de microcrédito na experiência da Blusol, havia uma relação entre a baixa escolaridade das entrevistadas, os problemas enfrentados no mercado formale o desejo de desenvolver uma atividade profissional ligada às atividades reprodutivas do espaço da casa. O perfil das mulheres estudadas neste trabalho, bem como os outros dois elementos citados, é bastante parecido, como será demonstrado a seguir.

6.3.1.1 A ADMINISTRAÇÃO DA PRÓPRIA RENDA:

As entrevistadas declararam administrar a renda obtida em seus empreendimentos sem a interferência dos maridos. Percebeu-se que faziam questão de cuidar do andamento de seus empreendimentos sem qualquer interferência masculina, mesmo que o início

106 destes empreendimentos tenha sido discutido com eles, a partir da tomada do microcrédito.

O impacto positivo aparece também em relação ao pagamento da dívida contraída. As entrevistadas afirmaram que conseguiram pagar seus empréstimos “religiosamente”. Nas falas, percebe-se que esta foi uma preocupação central com repercussão sobre sua autoestima e confiança. A possibilidade de quitar o financiamento sem maiores problemas foi tida como resultante do retorno recebido em seus pequenos empreendimentos – fator que possibilitou a muitas realizar novos empréstimos.

Administrar a renda do seu trabalho, possibilitou-lhes decidir sobre o consumo da família. Ao serem indagadas em relação ao bem-estar do grupo familiar em relação a um ano antes do empréstimo e um ano após, a maioria das entrevistadas destacou sua satisfação em poder dar mais opções de consumo aos filhos e até mesmo ajudar os maridos em momentos de necessidade. As principais formas de auxílio aos filhos eram relativas à alimentação, materiais de estudo e vestuário; em relação aos maridos, ajuda em quitar alguma dívida ou obter algum objeto de consumo.

O reconhecimento dessas mulheres por seus filhos e, principalmente, pelos maridos, em relação ao auxílio no lar a partir do desenvolvimento de uma atividade econômica, foi bastante colocado pelas entrevistadas.

De acordo com Sen (2000), a variável liberdade de escolha, correlacionada à renda, são variáveis que possibilitam modificações na vida dos indivíduos, promovendo seu desenvolvimento pessoal, ou seja, seu empoderamento. No caso das entrevistadas, a afirmação do autor de que a participação econômica da mulher, com rendimentos, muda seu papel dentro da esfera doméstica, foi confirmada. A seguir, são apresentadas algumas das respostas à pergunta “Como está a situação financeira da sua família? Qual a diferença de um ano antes do acesso ao empréstimo e um ano após? ”.

“Difícil. Tudo está mais caro, a situação mudou muito. Mas é mais fácil

adquirir coisas depois de ter participado do projeto ELAS. Porque a economia da casa foi facilitada. Aí o bom vai pros filhos, né”

(Entrevistada 14, 48 anos).

“Razoável. Dá pra se manter dentro do padrão do possível. A diferença

foi ter mais oportunidade pra comprar o que a gente queria. Realizar mais coisas no nível pessoal. O que ajudou é que sem o crédito não teria conseguido investir tanto. Teria demorado muito pra conseguir as

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“Tá mais ou menos esse ano, viu. Mas pegar o empréstimo fez é muita

diferença. Serviu bastante. Se não tivesse conseguido, não teria comprado minhas mercadorias e meus filhos iam passar necessidade.

Pensando nisso a situação melhorou. E muito” (Entrevistada 23, 32

anos).

“Menina, meus tapetes bem que deram pra comprar uma camisetinha

pro menino. A menina quer uma boneca, mês que vem eu vou comprar pra ela, viu. Ah, melhorou sim, poxa, antes era só trapo! (Risos). Meu marido até pede emprestado de vez em quando. Eu empresto, não dou

não, que é pra ele sentir como é que era quando eu que pedia (Risos)”

(Entrevistada 1, 39 anos).

Como citado anteriormente, a maioria das mulheres confirmou o apoio dos maridos em seus empreendimentos. Isso não quer dizer, entretanto, que este apoio tenha ocorrido além da expressão verbal, normalmente motivada por elementos de ordem financeira (para complementação de renda ou para que sua companheira não lhe pedisse dinheiro). Pois mesmo após o reconhecimento das melhorias na condição de vida da família, segundo as entrevistadas, há algumas práticas relacionadas ao grupo familiar que continuam ocorrendo como se o empreendimento feminino não existisse: a divisão do trabalho doméstico.

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