No contexto do envelhecimento populacional e do crescimento do número de idosos com doença crónica e multimorbilidade, as deficiências físicas e cognitivas afectam a capacidade de desempenhar actividades de vida diária básicas e/ou instrumentais, isto é, elevam a gravidade de doença e de dependência9-10. No estudo EPEPP49, a análise por grupo etário dos idosos com 75 ou mais anos, comparativamente com os mais jovens, verificou ser 1,62 vezes maior a possibilidade de ter incapacidade funcional, sendo 4,2 vezes superior nos homens49.
Koller e colaboradores desenvolveram um estudo de coorte com a duração de cinco anos (2005 a 2009), numa população idosa, com o objectivo de estimar o impacto da multimorbilidade na dependência e necessidade de cuidados de longo prazo. A média de seguimento foi de 4,5 anos e os resultados confirmam que as pessoas com multimorbilidade tiveram um maior risco de se tornarem dependentes de cuidados (HR: 1,85; IC 1,78-1,92). As doenças com maior risco para a dependência de cuidados de longa duração foram: a doença de Parkinson (HR: 6,40 contra 2,68) e demência
(HR: 5.70 vs. 2.27). Pacientes com o padrão multimorbilidade "transtornos neuropsiquiátricos" tiverem um risco 79% maior de dependência de cuidados78.
Tal como referido, o envelhecimento e a multimorbilidade contribuem para a deterioração no desempenho das actividades da vida diária (AVD)79. Laana e colaboradores desenvolveram um estudo transversal cujo endpoint primário foi avaliar, através do índice de Katz (-15 KATZ) escala modificada, o nível de independência nas AVD79. Neste estudo, verificou-se uma associação estatisticamente significativa entre dependência, sexo feminino e distúrbios psiquiátricos, com taxa de prevalência estimada de 1,37 [1,17-1,60 (95% IC)] e no sexo masculino os acidentes isquémicos transitórios e acidentes cerebrovasculares com prevalência estimada de 1,94 [1,41- 2,66 (95% IC)]79.
Um estudo observacional realizado na China80 que teve como objectivo investigar a relação entre a multimorbilidade e a funcionalidade entre os idosos (60 anos e mais) confirmou, através de modelos de regressão logística, que a multimorbilidade (duas ou mais condições crónicas) e o número de sobreposições de grupos de multimorbilidade foram factores de risco independentes para a perda de independência funcional em idosos. A hipertensão e a dor crónica, foram o par mais prevalente a associar-se significativamente à perda da independência física (OR = 1,64, IC 95% = 1,25-2,16), seguida pela co-ocorrência de hipertensão e cardiopatias80. Dos cinco sistemas utilizados para a análise factorial, o osteoarticular (OR = 1,47, IC 95% = 1,23-1,77) e o cardiometabólico (OR = 1,34, IC95% = 1,13-1,59) foram os significativamente correlacionados com perda de independência física80.
Importava confirmar a relação entre multimorbilidade e dependência (incapacidade funcional) e como a multimorbilidade prediz o declínio funcional nos idosos (65 e mais anos). Implementou-se, em 30 de Abril de 2017, a estratégia de pesquisa semelhante à realizada nas secções anteriores com o objectivo de caracterizar o impacto da multimorbilidade na dependência ou incapacidade funcional nos idosos (65 e mais anos).
O retorno da pesquisa de acordo com a metodologia referida correspondeu a 30 artigos nenhum dos quais satisfez o objectivo, nem cumpriu os critérios de elegibilidade à excepção de dois já sintetizados secção anterior35,75. A eventual explicação para este resultado prende-se com a fronteira ténue entre fragilidade e dependência, a qual terá conduzido a termos de pesquisa sobreponíveis.
Tal como referido anteriormente, o estudo de Chang e colaboradores75 explorou padrões de transição de saúde. Os modelos utilizados heterogéneos e
multidimensionais, incluíram três dimensões (multimorbilidade, fragilidade e incapacidade funcional) e morte como predictores de classe de transição de saúde75. Esta investigação mapeou seis classes de formas de envelhecer e realçou o "paradoxo de sexo de morbilidade-mortalidade" que podem vir a condicionar mudanças organizativas de cuidados, centradas nos problemas de saúde fatais para os homens e na funcionalidade para as mulheres75.
No estudo SHARE-FI 75+ em ambos os sexos os resultados foram compatíveis com um gradiente biopsicossocial (e.g. número de condições médicas ou de medicamentos; baixo nível de escolaridade; baixa qualidade de vida). Em ambos os sexos o índice de fragilidade esteve associado à idade, ao número de morbilidades, sintomas, medicamentos, consultas e internamentos. A mortalidade por sexo revelou diferenças e veio confirmar a associação entre fragilidade e proporção de óbitos superior nos homens35.
Do resultado da pesquisa os estudos que melhor cumpriram os objectivos, embora não os critérios de elegibilidade, corresponderam a dois que incluíram a população adulta. Laditka e colaborador, numa população com 55 e mais anos de idade, verificaram que quase metade (48,8%) apresentavam duas ou mais condições médicas, 24,7% tinham três ou mais e 11,5% tinham quatro ou mais. A multimorbilidade reduz a esperança de vida e ainda aumenta os anos de vida vividos com incapacidade81. Neste estudo os participantes foram questionados quanto à possibilidade de terem alguma das seguintes condições: osteoartroses, depressão, diabetes, doença cardíaca (coronariopatia ou insuficiência cardíaca congestiva), hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), défice cognitivo ou acidente vascular cerebral81. O modelo de análise utilizado para estudar a relação entre condições de saúde e incapacidade ou morte foi o de Markov logístico multinomial. Para a diabetes e para cada uma das restantes condições de saúde estimaram-se os riscos de incapacidade e morte para todos os indivíduos, independentemente de outras comorbilidades81. A magnitude da multimorbilidade não esteve associada à redução da esperança de vida em comparação com cada condição médica isolada, não obstante, aumentou substancialmente o número de anos de vida vividos com incapacidade. O padrão de multimorbilidade reflectiu-se na proporção média de anos de vida vividos com incapacidade. Isto é, entre mulheres com diabetes, doença cardíaca e hipertensão, a proporção média de anos de vida vividos com incapacidade foi de 47,0% (46,9-47,1), enquanto se diabetes, doença cardíaca e depressão essa proporção média foi de 64,8% (64,6-65,0)81.
Ryan A e colaboradores82 realizaram uma revisão sistemática com o objectivo de estudar a associação entre multimorbilidade e declínio funcional e como a multimorbilidade pode predizer esse declínio no futuro. A população incluída foram adultos (≥18 anos), a multimorbilidade definida como a presença de duas ou mais condições médicas crónicas num indivíduo e o declínio funcional físico medido com recurso a um instrumento validado. Num total de 37 estudos elegíveis, 28 eram transversais e 9 de coorte. A maioria dos estudos transversais demonstrou uma associação consistente entre a multimorbilidade e incapacidade funcional. Os nove estudos de coorte incluíram 14.113 participantes com períodos de seguimento que variaram de um a seis anos. A maioria revelou que a multimorbilidade previu declínio funcional e todos revelaram associação entre declínio funcional e o número crescente de condições médicas. A gravidade da doença foi outro predictor de declínio funcional. Esta revisão destaca a importância de considerar a funcionalidade no planeamento de intervenções e organização de cuidados para pacientes com multimorbilidade82.
Em síntese, a maioria dos estudos demonstraram uma associação estatisticamente
significativa e consistente entre multimorbilidade e declínio funcional. Um dos estudos incluídos analisou a gravidade da doença e verificou que também pode prever um maior declínio funcional82. As evidências disponíveis indicam que a multimorbilidade e a gravidade da doença permitem prever o declínio funcional, o que realça a importância de se considerar a actividade física ao projectar intervenções e planear cuidados a pacientes com multimorbilidade82.