2.3 Lean Manufacturing
2.3.2 Fundamentals of Lean Manufacturing
José Rodrigues Leite e Oiticica Filho nasceu em 28 de fevereiro de 1906, no Rio de Janeiro. Filho de Francisca Bulhões Leite e Oiticica e José Rodrigues Leite e Oiticica, professor de Letras e anarquista conhecido, tinha a casa frequentada por personagens famosos da intelectualidade brasileira, tais como Coelho Neto, Viriato Correia e Monteiro Lobato. Seu pai foi professor de Antônio Houaiss e Manuel Bandeira. Seu avô foi Deputado e Senador da República54.
Filho mais moço de cinco irmãs, José Oiticica Filho55 vem de uma família tradicional,
que prezava a intelectualidade e a criatividade. Seu pai também escrevia poesias parnasianas e sua irmã, Sônia Oiticica, foi atriz de cinema e televisão, participando de várias montagens de
54 Francisco de Paula Leite e Oiticica (1853-1927) foi advogado, Deputado Federal (1891 a 1893) e Senador (1894-1900) pelo Estado de Alagoas.
55 A partir de agora, será mencionado também por suas iniciais, JOF. Figura 8: José Oiticica Filho.
Fonte: José Oiticica Filho: fotografia e invenção. Catálogo da exposição José Oiticica Filho: fotografia e invenção. Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, 2007.
Figura 9: Auto-retrato de José Oiticica Filho. Fonte: José Oiticica Filho: a ruptura da fotografia nos anos 50. Catálogo. Funarte/Núcleo de Fotografia, 1983.
Nelson Rodrigues. Foi casado com Angela Oiticica, com quem teve os filhos Cesar, Cláudio e Hélio Oiticica, todos envolvidos com o campo das artes visuais.
Com isto podemos entender como Oiticica Filho foi estimulado, desde a infância, a construir sua trajetória artística e intelectual. Suas atividades profissionais giravam em torno de outros assuntos, que não os fotográficos ou artísticos. Em 1930, José Oiticica Filho formou-se engenheiro mecânico e eletricista pela Escola Nacional de Engenharia56.
Desde 1928, exercia o cargo de professor de matemática no Colégio Jacobina, tendo lecionado nesta instituição até 1962. De 1932 a 1937, e depois novamente em 1942, lecionou matemática e ciências no Colégio Pedro II. Em 1937, foi professor da disciplina de matemática na Faculdade Nacional de Medicina. De 1943 a 1964, Oiticica Filho trabalhou no Museu Nacional da Universidade do Brasil, como zoólogo especializado. É nesta época que surge seu interesse por fotografia. Sua primeira exposição fotográfica, Luz dançante, coincide com seu ingresso no Museu.
Nos anos de 1947 e 1948, com renovação em 1949, José Oiticica Filho foi contemplado com uma bolsa Guggenheim Fellowship57, para realizar pesquisa no United
States National Museum. De lá, envia para o Foto Cine Clube Bandeirante suas Cartas de
Washington58, nas quais dá conta da situação da fotografia nos Estados Unidos da América.
Ao mesmo tempo, associa-se a foto clubes norte-americanos: National Photography Society (1949), ao Photographic Society of America (1952) e ao Honorary Pictorialists Society (1952). Em 1954, associa-se ao Montreal Salon of Photography, foto clube canadense.
A participação de JOF nas associações fotográficas, como podemos perceber, não se restringia aos foto clubes brasileiros. O circuito de exposições e de discussões fotográficas promovidos por tais ambientes era bastante grande, como podemos perceber ao analisarmos a lista de exposições realizadas pelo fotógrafo, em sua grande maioria coletivas em associações fotográficas. Os fotógrafos enviavam, via o foto clube aos quais eram associados, fotografias
56 Ver OITICICA FILHO, José. Reforçando os pingos nos ii (II). Boletim Foto Cine, ano V, nº 59, abril 1951. 57 A Guggenheim Fellowship é uma bolsa concedida desde 1925 pela John Simon Guggenheim Memorial
Foundation para aqueles que demonstram uma capacidade extraordinária em produzir conhecimento ou grande habilidade criativa para as artes. O prêmio é dividido entre duas categorias: Cidadãos Norte- Americanos e Canadenses e Cidadão Latino-Americanos e Caribenhos. José Oiticica Filho aparece na lista dos contemplados de 1947, na categoria Biologia, e não está ligado a nenhuma instituição.
a serem expostas em outros foto clubes, promovendo, assim, tanto o seu próprio nome quanto o do seu clube.
Chama a atenção, neste contexto, o Salão Internacional de Arte Fotográfica da Associação Riograndense de Fotógrafos Profissionais (ou Associação de Fotógrafos Profissionais do Rio Grande do Sul59). Foram quatro participações de José Oiticica Filho em
tal salão, a partir de 1952, até 1955. Segundo Rodrigo Massia (2008), a Associação dos Fotógrafos Profissionais do Rio Grande do Sul existiu de 1946 a 1954, tempo em que organizou o Salão Fotográfico, contando inclusive com publicação.
Seu filho Hélio Oiticica60, importante e reconhecido artista plástico brasileiro,
escreveu sobre o interesse inicial de JOF pela fotografia. Segundo seu depoimento,
“(...) Foi justamente de sua pesquisa científica que nasceu seu amor pela fotografia: para uma completa pesquisa sobre Lepidoptera, sentiu necessidade de aprender e executar com perfeição a arte fotográfica, e logo o quê!, microfotografia, no campo o que há de mais difícil. Ao aperfeiçoar-se na microfotografia de Lepidoptera (e outras ordens de insetos também), foi-lhe, aos poucos, nascendo o sentido da fotografia como uma expressão de arte. De 1945 em diante passa a pesquisar no campo da fotografia (cuja técnica já dominava com desembaraço) e a participar das primeiras exibições internacionais. (…) Sua evolução fotográfica é variada e complexa, levando-o, nos últimos anos, a descobertas bem individuais com suas Derivações e Recriações, e sua mestria no preto e branco, na “definição” e no “contraste” restam insuperáveis. (…) Com o tempo, tendo como que transformado a fotografia num verdadeiro campo experimental, e após o contato com a arte moderna (Bienais paulistas, grupos de vanguarda, para os quais colaborou com Fotografias concretas em 1957, e com as já citadas Derivações e Recriações posteriormente), passa a pintar, primeiro como acessório aos fotogramas que executava na época, e depois como pintura mesmo (sempre abstrata, geométrica ou não). (...)”. (OITICICA in José Oiticica Filho: a ruptura da fotografia nos anos 50, 1983).
A partir deste apanhado geral, Hélio Oiticica reflete sobre a trajetória profissional quanto artística de seu pai. Foi a partir da necessidade de fotografar seu objeto de estudo no Museu Nacional que JOF empreendeu seu longo, importante e renomado caminho pelas artes fotográficas. Depois, experimentando com a fotografia, ele entrou em contato com a arte moderna e empreendeu, talvez, o que de mais importante tem em toda a sua obra: a relação entre a fotografia as artes visuais do período.
59 A divergência quanto ao nome da associação surgiu a partir da análise da brochura com a biografia de José Oiticica Filho, publicada pelo Centro de Arte Hélio Oiticica, e da dissertação de Mestrado de Rodrigo Massia (2008), sobre o cenário da fotografia profissional em Porto Alegre nos anos 1940 e 1950.
Foi como “fotógrafo utilitário61” que JOF desponta como fotógrafo. Segundo Paulo
Herkenhoff, “tratava-se de uma fotografia correta para os fins pragmáticos a que se destinava, sem preocupações com o desenvolvimento da linguagem” (HERKENHOFF, 1983, p. 11). Entretanto, já nestas fotografias iniciais é possível perceber o esmero com a técnica, e, em algumas imagens, o resultado obtido tinha uma “sedutora aparência abstrata”, quando tratava- se de uma ampliação de alguma parte do inseto.
A partir destas experiências fotográficas, JOF passou a frequentar os principais fotoclubes do país, e a participar de diversas exposições e concursos fotográficos no exterior. Era sócio do Photo Club Brasileiro, mas participava como “consócio” do Foto Cine Clube Bandeirante. Para este fotoclube ele escreveu inúmeros artigos e resenhas bem como organizou pelo menos uma exposição retrospectiva de sua obra62.
José Oiticica Filho morreu cedo, não dando chance, possivelmente, à total vazão de sua criatividade. Morreu inesperadamente em 1964, com 58 anos. O Foto Cine Clube Bandeirante noticiou sua morte no boletim nº 143:
“(...) Perde a arte fotográfica brasileira uma de suas mais autênticas glórias. Perde o F. C. C. Bandeirante um dos seus mais valorosos consócios. Já não mais ouviremos o vozeirão amigo comentando com sinceridade e lealdade sem par os próprios trabalhos ou os trabalhos de seus colegas, ensinando, orientando, criticando, sempre 61 As definições “fotógrafo utilitário”, bem como “fotoclubista, abstrato e construtivo”, foram cunhadas por
Paulo Herkenhoff (1983), no afã de definir as diversas fases pelas quais JOF teria passado.
62 A exposição foi noticiada pelo Boletim Foto Cine em 1954, na edição de número 88. Nela há uma reprodução do discurso proferido por José Oiticica Filho na ocasião da abertura da exposição.
Figura 11: Lepidoptera. Fonte: José Oiticica Filho: a ruptura da fotografia nos anos 50. Catálogo. Funarte/Núcleo de Fotografia, 1983.
Figura 10: Genitália de Citheronia Mogya. Fonte: José Oiticica Filho: a ruptura da fotografia nos anos 50. Catálogo. Funarte/Núcleo de Fotografia, 1983.
com as vistas voltadas para o maior aperfeiçoamento, inclusive dele mesmo. Porque Oiticica era um artista acima de tudo honesto consigo próprio (...)”. (BFC, 1964, p. 8)
Na mesma edição do Boletim Foto Cine, Fernando Goldgaber63, sócio do fotoclube,
escreveu algumas palavras de despedida ao fotógrafo. Definido como “lobo mau de voz grossa”, entretanto tímido, Goldgaber afirmou, a respeito da perenidade da obra de JOF: “mas certeza temos, que por mais de uma geração, ficará o nome, a sua lembrança e seu magnífico exemplo de trabalho e de visão artística” (GOLDGABER, 1964, p. 9).
2.2. OS FOTO CLUBES: ESPAÇOS DE ENCONTRO E DE FORMAÇÃO DO