• No results found

2. Materials and Methods

2.4 Functional Assays

Após a coleta e análise dos dados referentes à leitura de texto, constatamos que as generalizações que podem ser feitas quanto ao desempenho na leitura do texto estão condizentes com as descrições constantes na literatura pesquisada, tanto no que se refere aos sujeitos do GNC, quanto aos sujeitos do GC (NATION; NORBURY, 2005; ASHA, 2004; CIASCA, 2003; BARROS; CAPELLINI, 2003; DSM- IV, 2002; CAPELLINI, 2001; PINHEIRO, 1995; JOHNSON; MYKLEBUST, 1987).

Foi observado que todos os sujeitos participantes do GNC apresentaram leitura proficiente, o que confirma, assim, a classificação que obtiveram na escala de Pinheiro; Costa (2005), em que foram classificados como bons leitores. Assim, conforme esperado, todos os estudantes do GNC apresentaram um melhor desempenho na leitura do texto. Leram com velocidade adequada evidenciando reconhecimento lexical – tipo de leitura em que a ortografia e a pronúncia das palavras são acessadas da memória lexical.

Já no GC (GC I e GC II), foi observada uma grande heterogeneidade no desempenho em leitura, variando de leituras do tipo silabada, com erros de decodificação até leituras com poucos erros e fluentes. Também a velocidade de

leitura foi muito variada. Esse resultado confirma os achados de Pinheiro (2001) que também encontrou uma grande heterogeneidade no desempenho de leitura da amostra de crianças com dificuldade de leitura.

Os erros encontrados durante a leitura foram diversos e eles estiveram presentes nos dois grupos (GC I e GC II). A TAB. 5 descreve as alterações observadas na leitura dos sujeitos participantes da pesquisa.

Tabela 5 – Tipo de alterações observadas na leitura

Freqüência Tipo de alteração GC I GC II GNC Repetição de fonema 0 1 1 Repetição de sílaba 15 8 3 Repetição de palavra 1 1 4 Repetição de trecho 2 3 2 Omissão de fonema 5 4 4 Acréscimo de fonema 2 4 4 Inversão de fonemas 2 3 0 Troca de fonemas 3 1 0 Prolongamento de fonema 3 2 0 Erro de acentuação 3 3 0 Reformulação 17 21 16

Adivinhação por aproximação 5 15 7

Erros diversos de decodificação 5 1 1

Pode ser observado que, dentre as repetições, a de sílabas foi a mais freqüente nos três grupos. Normalmente, esse é um recurso utilizado como um tempo que o sujeito pensa “ganhar” na tentativa de decodificar o próximo item. Assim, enquanto ele tenta

decodificar a sílaba seguinte, ele repete, automaticamente, a anterior. Geralmente, isso acontece diante de palavras novas para o indivíduo, para a qual ele deverá utilizar a rota fonológica para processar esta leitura.

A omissão e o acréscimo de fonemas aparecem na mesma quantidade nos grupos GC II e GNC, mas aparecem de forma diferenciada no GC I, sendo o número de omissões maior e o de acréscimo menor em relação aos outros grupos. Esse comportamento pode ser atribuído aos resultados obtidos pelo programa de remediação fonológica, ao qual os sujeitos do GC II foram submetidos, o que os coloca em situação similar à do GNC, no que se refere a este tipo de erro na leitura. O maior valor encontrado para o acréscimo de fonemas pode ter acontecido devido a episódios de hipercorreções, presentes na leitura dos sujeitos do GC II e do GNC.

A inversão de fonemas, observada somente no GC I e II, ocorreu na maioria das vezes em sílabas com estrutura VC, as quais os sujeitos inverteram, buscando uma harmonização com as demais estruturas silábicas da palavra e com as estruturas de sílabas bem formadas mais freqüentes no português (CV, CVC e CCVCC). Como, por exemplo, a palavra escondido (VC CVC CV CV), lida como “secondido” (CV CVC CV CV). Inversão desse tipo parece refletir uma preferência pela sílaba CV, que é a sílaba mais canônica no português. Outro exemplo de inversão ocorreu algumas vezes na palavra porque, lida como “proque”. Uma outra justificativa possível para este fenômeno pode ser a dificuldade dos sujeitos disléxicos para o reconhecimento ou a produção em voz alta da leitura de sílabas travadas.

A troca de fonemas também somente foi observada no GC. Houve uma troca de fonema vozeado por não-vozeado no GC I e, em ambos os grupos, foi observada, na palavra gente, a troca do fonema // pelo /g/, o que demonstra dificuldades com a internalização do fonema //.

O prolongamento de fonema, também um recurso para ganhar tempo na decodificação do item seguinte, foi observado, com pequena freqüência, só no GC, assim como erros de acentuação tônica (acento lexical).

A reformulação – ou seja, o ato de ler e, em seguida, ler novamente corrigindo erros de pronúncia, acento (tonicidade), entonação ou até mesmo de decodificação – teve a maior freqüência, dentre todos os erros, em todos os grupos. Interessante verificar que, no GC I, muitos sujeitos leram certos trechos com erros e não voltaram com reformulações, na tentativa de corrigir, ou seja, provavelmente não perceberam que erraram. Isso aconteceu porque a repetição é uma estratégia de leitura utilizada pelos leitores competentes14. O aumento da ocorrência desse tipo de alteração na leitura, do GC I para o GC II demonstra um maior nível de consciência dos sujeitos desse grupo quanto aos erros produzidos durante a leitura, ao voltarem e relerem o trecho com as devidas correções.

Os erros de adivinhação por aproximação acontecem quando, diante de uma palavra desconhecida, o leitor busca, por aproximação visual, outra semelhante em

14

Segundo Neves; Wense; Pinheiro (no prelo), que estudaram as estratégias metacognitivas utilizadas na leitura de textos por leitores proficientes, a utilização da estratégia repetição ocorre quando o sujeito relê um parágrafo ou sentença, cita-o em voz alta, buscando fixar a informação na memória de curto prazo e/ ou resgatá-la da memória de longo prazo.

seu léxico mental. A palavra “encabulado”, por exemplo, foi lida como “emburrado” e “embolado”. O aumento desse tipo de erro no GC II demonstra que eles já estão tentando realizar a leitura via rota lexical, porém ainda de forma rudimentar.

E, finalmente, dentre os erros diversos de decodificação, temos, como exemplos, trocas dos grafemas: p por t, b por t, e por a, o por a, e das sílabas sol por dos, ra por bre. Nenhum deles se enquadrou em nenhuma das classificações aqui propostas e sua ocorrência foi bem maior no GC I (a maioria deles são erros visuais e erro linear, exceto ra por bre).