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7.9 Effect of storage

7.9.3 Fume hood storage

É nas instituições que Dilthey irá perceber a efetivação do contexto vital, onde o indivíduo forma a sua subjetividade. Tal contexto histórico carrega a estrutura do mundo humano como histórica, onde acontece o mundo da vida, o Erleben, que se efetiva concretamente. Trata-se, pois, de sistemas de cultura e de organizações sociais que possuem existência histórica a possibilitar a relação dos indivíduos. “É a vida mesma a que se desenvolve e conforma frente a unidades compreensíveis, e é o indivíduo concreto o que compreende essas unidades como tais”214. Nesse sentido, “todas as criações culturais estão penetradas pelo espírito da época e participam da historicidade inerente ao ser espiritual. Para conhecer um indivíduo, para interpretar uma época ou uma criação cultural, é preciso acudir à história”215.

A história firma-se como chave-de-leitura para o acesso ao mundo. Dilthey dava razão à Escola histórica que acreditava “não existir um sujeito geral mas somente

210Cf. Gadamer, op. cit, p. 278 – 279. 211Ibid., p. 281.

212Ver, a esse respeito, Reale; Antiseri, op. cit., p. 455. 213Gadamer, op. cit., p. 280.

214Cf. Gadamer, op. cit. ,p. 283. 215Pucciarelli, op. cit., p. 21.

indivíduos históricos”216 . O espírito objetivo de que Dilthey trata não é, como para Hegel, a manifestação de uma Razão Absoluta, mas o produto da atividade de homens históricos, de suas relações recíprocas, condicionadas pela pertença a um processo temporal, que constituem a estrutura do mundo humano. O compreender (Verstehen) diltheyano deve ser compreendido como “processo pelo qual, com a ajuda de signos percebidos do exterior através dos sentidos, conhecemos uma interioridade. [...] Por isso chamamos compreensão o processo através do qual conhecemos algo psíquico”217. A objetivação da vida é a primeira característica no mundo histórico humano. “O nexo da vida, tal como se lhe oferece ao indivíduo (e como é revivido e compreendido no conhecimento biográfico dos demais), se funda na significatividade de determinadas vivências”218. “Cada parte expressa algo do todo da vida e tem, portanto, uma significação para o todo do mesmo modo que seu próprio significado está determinado desde este todo”219.

Gadamer comenta:

O passo decisivo que deverá dar Dilthey em sua fundamentação epistemológica das ciências do espírito será empreender, a partir da construção de um nexo próprio na experiência vital do indivíduo, a transição a um nexo histórico que já não é vivido, nem experimentado por indivíduo algum220.

A vida mesma permanece sempre o ponto de partida de Dilthey. A vida, para ele, se abre, na medida em que conseguimos nos elevar, metodicamente, acima da causalidade subjetiva do próprio ponto de partida e da tradição que lhe é acessível, “alcançando assim a objetividade do conhecimento histórico” no qual ela se gestou. “O nexo de vida e saber é para Dilthey um dado originário”221. A hermenêutica se coloca, para Dilthey, como o medium universal da consciência histórica, para a qual não há outro conhecimento da verdade que o compreender a expressão, e na expressão a vida. “Em qualquer ponto da História há vida, e a História compõe-se de vida, de todos os tipos de vida nas relações mais diversas. A História é a vida captada pelo ponto de vista da totalidade da Humanidade, constituindo uma conexão”222.

216Cf. Gadamer, op. cit., p. 283. 217Dilthey, op. cit., p. 150. 218Gadamer, op. cit., p. 283. 219Ibid.., p. 283.

220Ibid., p. 283.

221Confira a esse respeito os argumentos expostos em Verdad y Método, p. 297 e 298. 222Dilthey, op.cit., p. 179.

Nesse ponto Dilthey o deixa claro, ao expor que “poderia pensar-se o conhecimento de nexos históricos cada vez mais amplos e estendê-los até um conhecimento histórico universal”223. A compreensão histórica se estende, sobretudo, ao que está dado historicamente e é verdadeiramente universal, porque tem seu sólido fundamento na totalidade e infinitude interna do espírito.

[...] temos que construir o todo com as partes, mas é no todo que deve residir o 'momento' em razão do qual se atribui um significado às partes e estas encontram o seu respectivo lugar. A própria História efetiva princípios cuja validade nasce da explicação das relações contidas na vida 224.

Segundo Dilthey, as barreiras que impõe à universalidade da compreensão a finitude histórica de nosso ser, lhe são de natureza somente subjetiva. A crítica que Gadamer dirige a Dilthey está no fato de ele pensar a investigação do passado como “deciframento e não como experiência histórica”225. Hermenêutica, em Dilthey não tem a ver com o captar o sentido que se abre, mas antes compreender os fatores isolados dentro duma concepção historicista. Não há, em Dilthey, a idéia de estabelecer-se um acordo. Esse é um aspecto no qual Gadamer se diferencia, trazendo para dentro da compreensão a idéia do acontecimento da história e não mero projeto. Se quisermos reduzir a história a fatores isolados, teríamos que inserir nela um fio condutor pela expectativa que buscamos, ou legitimar, ou averiguar. Em outras palavras, só existe a construção de um sentido em relação à história, de modo que o sentido se abre para a compreensão. Na perspectiva gadameriana não existe a história como tal, como um objeto disponível ao sujeito.

Levanta-se aqui uma série de questões, principalmente ligadas à questão da inesgotabilidade da vida, onde, conforme pensa Dilthey, “a constante transformação do nexo de significados, que é a história, não implicará a exclusão de um saber que pode alcançar objetividade”226. Gadamer irá além, perguntando-se sobre a consciência histórica, no sentido de tentar descobrir se ela não será, em última instância, um ideal utópico, que contém em si mesmo uma contradição.

Referindo-se ao nexo estrutural, que se compreende desde seu próprio centro, Gadamer dirá que “é algo que responde ao velho postulado da hermenêutica e à exigência

223Ibid.., p. 292.

224Dilthey, op. cit., p. 186. 225Cf.Gadamer, op. cit., p. 303. 226Cf. ibid., p. 291.

do pensamento histórico de compreender cada época desde si mesma e de não medi-la com o padrão de um presente estranho a ela”227.

A história, no fundo, é como que a forma necessária da ciência de tudo o que chega a ser. É quase como que uma metaciência. O que norteia essa corrente é uma crença de que há a possibilidade de captar a totalidade do sentido como tal, e que a condição de possibilidade para tal é conseguir estabelecer um método de tal eficiência que dê conta da totalidade do saber como tal. No entanto, enquanto Dilthey busca legitimar seu ponto de vista à base da vida, que se corporifica e se apresenta na história, podendo ser epistemologicamente analisada, para Gadamer a relação com a vida se diferencia em muito. Para entendermos melhor a compreensão gadameriana, que vai se firmar sobre a historicidade, necessitamos refletir sobre a relação da subjetividade frente à compreensão.

A questão que permanece é: “Como é possível que uma individualidade possa transformar em conhecimento objetivo com valor universal o dado sensível que é, para ela, essa individualidade?”228 Dilthey responde a essa questão, dizendo que “a condição de que depende essa possibilidade consiste no fato de nenhuma manifestação individual estranha poder apresentar alguma coisa que não esteja, também, contida na individualidade viva que a percebe”229. Isso só é possível dentro de uma certa circularidade no compreender. Dilthey explicita-o em descrevendo sobre o método.

Extrair o todo do detalhe e seguidamente o detalhe do todo. A totalidade de uma obra exige que se chegue à individualidade do autor, ao conjunto literário de que depende. O método comparado faz-me compreender cada obra e até cada frase com mais profundidade. A compreensão resulta, pois, do todo que, no entanto, resulta, por sua vez, do pormenor230. Parece que a consciência histórica quer ocupar o lugar que em Hegel era ocupado pelo saber absoluto do espírito. “O próprio Dilthey aponta o fato de que somente conhecemos historicamente, porque nós mesmos somos históricos”231, porém há limites que se tornam difíceis de serem ultrapassados, uma vez que na sua pretensão de absolutização, em Dilthey a razão absoluta não é o espírito objetivado, porém, muito antes, produto da atividade de homens históricos. “Nossa consciência é, por sua vez, consciência

227Ibid., p. 292.

228Dilthey, op. cit., p. 167. 229Ibid.., p. 168.

230Dilthey, op. cit., p. 168. 231Gadamer, op. cit., p. 291.

histórica, porque a historicidade é a essência do homem. [...] A experiência do passado, plenamente assimilada, se incorpora e se fixa como um elemento plástico e influi sobre os atos do presente”232. De certa forma, as questões do passado estão, sim, a orientar as decisões do presente, assim como criando condições para a projeção do futuro.