A categoria do trabalho diz respeito ao que “assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie” (ARENDT, 2009a, p. 16). É a atividade que equivale ao “processo biológico” intrínseco e constituinte do corpo humano. Por isso, o crescimento espontâneo, o metabolismo e o inevitável declínio do corpo humano estão ligados às necessidades vitais, que na verdade são postas e geradas pelo próprio trabalho no processo da vida. “A condição humana do trabalho é a própria vida” (ARENDT, 2009a, p. 15).
Hannah Arendt define o trabalho (labor) como uma atividade inerente ao corpo humano no que se refere à exigência de manter-se vivo. É a condição de vida comum a homens e animais, sujeitos às necessidades de prover a própria fonte de subsistência. Daí a recorrente denominação de animal laborans para a espécie humana, enquanto composta de seres que precisam a qualquer custo, prover sua própria subsistência. A atividade do labor é
31 De acordo com a inusitada distinção fenomenológica entre as categorias “labor” e “work”, adotaremos a
tradução de “labor” por “trabalho” e de “work” por “fabricação”, por se aproximarem de modo mais adequado do sentido da interpretação da teoria política de Arendt (Cf. A Condição Humana, 2009, Cap. I, seção I, e Cap. III, seção II).
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escravizada pela necessidade do ciclo natural da vida, que contraditoriamente mantém a vida na medida em que a consome.
Em contra partida – sem cairmos nos anacronismos e polêmicas que questão suscita – o termo animal laborans foi comumente utilizado, desde a Antiguidade Clássica, para nomear o grupo dos escravos, aqueles cuja existência se restringia à dimensão privada, destinados ao provimento das condições de subsistência, sem as quais a família (oikía), a aldeia (kóme) e a cidade (polís) jamais existiriam, ou, sem as quais, os homens livres jamais poderiam exercer sua liberdade. “Ser-livre e viver-numa-polis eram, num certo sentido, a mesma e única coisa” (ARENDT, 2009c, p. 47). Não querendo dizer, por conta disso, que o “zoon politikon” (animal político) fosse um desocupado ou ocioso no sentido moderno dos termos, pois como nos adverte Hannah Arentd, “a palavra “skhole”, como a latina “otium”, significava basicamente isenção de atividade política e não simplesmente lazer, embora ambas sejam também usadas para indicar isenção de labor e das necessidades da vida” (ARENDT, 2009a, p. 23, ref. 10).
O desprezo pelo labor, originalmente resultante da acirrada luta do homem contra a necessidade e de uma impaciência não menos forte em relação a todo esforço que não deixasse qualquer vestígio, qualquer monumento, qualquer grande obra digna de ser lembrada, generalizou-se à medida em que as exigências da vida na polis consumiam cada vez mais o tempo dos cidadãos e com a ênfase em sua abstenção (skhole) de qualquer atividade que não fosse política, até estender-se a tudo quanto exigisse esforço. (ARENDT, 2009a, p. 91)
Arendt interpretava o labor como uma forma de privação, o que significava dizer que uma vida voltada para o labor ficava impedida de acessar a vida pública. Por isso, o lamentável estabelecimento da escravatura entre os gregos tenha sido, em certa medida, uma consequência da necessidade de liberação das classes dominantes dos encargos e enfados que são impostos àquele que busca os meios de sua subsistência. E como a finalidade da polis era garantir “uma boa vida aos cidadãos”, este objetivo somente seria possível se de fato o homem conseguisse encontra meios para vencer a necessidade, condição essencial para o exercício da liberdade.
Segundo Arendt, o trabalho, assim também como a fabricação e a ação, têm suas raízes na natalidade, na medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo dos recém-chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em conta (ARENDT, 2009a, p. 17). Arendt entende que o trabalho
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(labor) humano é uma atividade que está voltada para as necessidades cíclicas e repetitivas da vida dos seres humanos, incluindo, portanto, os processos de metabolismo, crescimento e degeneração. A circularidade incessante na qual o trabalho é absorvido tem sua razão de ser na preservação da vida e na continuidade da espécie humana, desligada de qualquer permanência ou durabilidade de sua atividade, pois é destinada à perpétua deterioração. Por meio do trabalho, o homem entra numa espécie de simbiose com a natureza, da qual não resta qualquer vestígio duradouro.
O labor [trabalho] produz alimento para a sobrevivência, mas seus esforços não se aquietam por muito tempo, pois o alimento precisa ser consumido dentro de determinado período de tempo antes que se deteriore. O labor é cíclico e repetitivo porque quer o produto do labor seja consumido, quer seja relegado à deterioração, ele é reabsorvido, voltando para a vida orgânica, e o processo deve começar novamente. Uma vez que suas exigências são constantes, o labor não tem um começo ou um fim específico. (FRY, 2009, p. 66)
Celso Lafer, escrevendo no pósfácio de A Condição Humana (2009a, p. 345), afirma que “o labor é uma atividade assinalada pela necessidade e concomitante futilidade do processo biológico, do qual deriva, uma vez que é algo que se consome no próprio metabolismo, individual ou coletivo”. Assim, o aspecto laboral do existir humano é irrecusável e insuperável, porquanto diz respeito à naturalidade orgânica que é intrínseca à vida. A atividade do trabalho (labor) está associada, portanto, ao processo biológico vital que garante a vida dos seres humanos, seguindo inquestionavelmente os ditames, fluxos e influxos da natureza. Por isso, para Arendt o labor está ligado à mundanalidade, porquanto o corpo do homem não se concentra em outra coisa senão em permanecer vivo.
A forma como Hannah Arendt interpreta a categoria do “trabalho” (labor), resguardando-se as devidas diferenças, aproxima-se bastante do conceito de fruição proposto pelo filósofo Emmanuel Lévinas, em Totalidade e Infinito (1988, passim). Nas palavras de Lévinas, trata-se de uma “essência elemental”32 da qual todo ser vivo é participante, pois
necessita “morder com todos os dentes os alimentos do mundo”, fruir “do sólido da terra que me suporta, do azul do céu acima de minha cabeça, do sopro do vento, da ondulação do mar, do brilho da luz”. O trabalho (labor) é visto como fruição, pois está inscrito na própria corporalidade do ser vivente. Essa é a primeira maneira do “estar no mundo”. O homem está no mundo, primeiramente, a partir de um domínio privado, de um “junto a si” (chez soi)
32 Lévinas elabora o termo “élémentale”, que não existe no vocabulário francês, contra “élémentaire”. Por isso, é
possível empregar a variante elemental de elementar, lexicamente registrada em português. A essência dos “elementos” está em serem “alimentos” (Cf. CINTRA, 2009, p. 25, ref. 3).
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iniludível. Para Lévinas, no entanto, esta carência (bésoin) permanente pode ser interpretada, não como deficiência, mas como “simples falta”, que, acima de tudo, exprime a presença do ser do homem.
2.6. A categoria da fabricação e o homo faber:
Sobre a categoria da fabricação (work ou fabrication), Arendt a entendeu como “a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana, existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja mortalidade não é compensada por este último” (ARENDT, 2009a, p. 15). A atividade de fabricação produz o mundo humano como um artefato, preso à lógica estratégica dos meios e fins, um mundo artificial de coisas, objetivamente diverso de qualquer ambiente natural. A atividade de fabricação e “seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do tempo humano” (ARENDT, 2009a, p. 16, meus grifos).
Arendt argumentou, na obra Entre o Passado e o Futuro (2009b, p. 91), que a fabricação “possui um início definido e um fim previsível: ela chega a um fim com seu produto final, que não só sobrevive à atividade de fabricação, como também daí em diante tem uma espécie de ‘vida’ própria”. Por meio da fabricação, o homem produz objetos para serem usados, pois são portadores de uma durabilidade de que não desfrutam os produtos do trabalho, que são destinados ao mero consumo. A diferença entre o produto do trabalho e o da fabricação assemelha-se, respectivamente, a distinção entre destruição e desgaste. No entanto, apesar do uso dos objetos da fabricação implicar em degeneração crescente, esta deve ser entendida mais como efeito colateral, do que consequência necessária.
A permanência e a durabilidade dos objetos, que resultam da atividade de fabricação, proporcionam as condições de existência do mundo humano. Esses objetos são condicionados pela lógica de meios e fins, que os homens impõem à natureza, dando-lhe direção e significado diferentes da circularidade proveniente da subsistência e fruição. Entretanto, à medida que os homens condicionam a natureza à artificialidade dos objetos, também são simultaneamente condicionados por eles. “Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência” (ARENDT, 2009a, p. 17). A força condicionante dos artigos e artefatos que são produzidos