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complexa, pois ao mesmo tempo em que guerreia contra a tradição filosófica, ela vai se consolidando cada vez mais como filósofa. É nesse sentido que sua biógrafa, Elizabeth Young-Bruhl (1997, p. 257), nos adverte que “a historiadora de As origens do totalitarismo tornou-se, durante os anos 1950, uma filósofa política”. Por isso, como uma helenista heterodoxa, ela reinterpreta aspectos políticos importantes da cultura grega à luz dos problemas mais urgentes do século XX. Arendt entendia que esta era “a grande oportunidade de olhar sobre o passado com os olhos desobstruídos de toda tradição, com uma visada direta” (ARENDT, 2009b, p. 56) sobre os fenômenos políticos originários (Urphänomene), livre da opacidade do rigor conceitual dos sistemas filosóficos da modernidade.

Assim, ao invés de recorrer à tradição filosófica, à procura de conceitos que explicassem como a esfera política deveria ser compreendida, “Arendt retorna a categorias pré-filosóficas com vistas a recuperar a importância da política e da vida ativa na democrática Atenas” (FRY, 2009, p. 64). Esse método de investigação pode ser descrito como uma “análise histórica e conceitual” (YOUNG-BRUEHL, 1997, p. 253) – ou uma historicidade não ortodoxa dos conceitos – em que Arendt remonta às origens históricas dos conceitos, visando encontrar as condições políticas que garantiram seu aparecimento ou ocultamento. Diante disso, ela procura constatar o grau de modificação dos conceitos ao longo do tempo e a partir de quando determinadas confusões conceituais se instalaram na tradição do pensamento político.

2.3 O procedimento hermenêutico de perfuração do discurso teórico:

Como já foi demonstrada em seção anterior, Hannah Arendt desenvolveu uma espécie de genealogia conceitual que exuma os conceitos, buscando “encontrar” novas possibilidades de sentidos por sob os escombros da tradição do pensamento da filosofia política. A partir de uma interpretação particular do pensamento de Heidegger e da filosofia da linguagem, presente na teoria literária de Walter Benjamin (ARENDT, 2008, p. 219), Arendt “perfura” camadas cada vez mais profundas do discurso teórico que nos foi repassado pela tradição, na tentativa de revelar (thaumadzein; offenbarung) novas potências de sentidos, à luz das exigências e solicitudes do presente. Trata-se de um olhar para o futuro pelas frestas dum passado que ainda permanece desconhecido, porque o importante para Arendt era fazer com que os tesouros culturais do passado, considerados mortos, voltassem a nos falar, só que de maneira totalmente diferente do que se julgava (ARENDT, 2008, p. 279 e 280).

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Esse procedimento hermenêutico, portanto, não visa recuperar nem reconstruir os significados primitivos dos conceitos em sua temporalidade, o que seria inexequível, haja vista que a revelação do ser através da linguagem jamais poderá ser completa e definitiva. Traduzindo em moldes heideggerianos: “trata-se de um pensamento que, no mundo, busca restituir o mundo na sua possibilidade de Ser, e que precisa sempre reencontrar, sem garantia, os caminhos epocais para fazê-lo” (LYRA, 2001, p. 105, meus grifos). Por isso, a “abertura” infinita de sentidos proporcionada pela linguagem é utilizada, não como obstáculo, mas como lost paradise que é construído a favor da interpretação, como possibilidade também infinita de instituírem-se as múltiplas e diversas “trilhas do pensamento” (ARENDT, 2008, p. 281).

O conceito de revelação foi adotado como fundamento da filosofia de Heidegger, mas sem o tom religioso do século XIX. A revelação do ser, segundo Heidegger, nunca é perfeita e exaustiva porque o ser se esconde ao mesmo tempo em que se revela: “O ser subtrai-se a si mesmo enquanto se revela no ente. Assim, o ser, iluminando o ente, ao mesmo tempo o desvia e o encaminha para o erro” (Holzweg, p.

310). Segundo Heidegger, a revelação do ser ocorre através da linguagem, que não é instrumento humano, mas o próprio ser em sua revelação (Brief über den Humanismus, p. 81). (ABBAGNANO, 2000, p. 858)

A teoria política que Arendt desenvolveu em A condição humana pode, então, ser compreendida a partir das trilhas de pensamento que foram abertas por sua forma particular de interpretar os fenômenos políticos. São “caminhos florestais” (ARENDT, 2008, p. 281) que devem ser construídos pelo próprio intérprete, sem a segurança do apoio em nenhum organon da tradição da filosofia política. Por isso a análise das categorias da vita activa representa, também, a crítica veemente que Arendt lança contra a maneira que a tradição codificou e transmitiu a compreensão da política.

Por certo Hannah Arendt estudou as características específicas das atividades “mais elementares da condição humana”. A proposta de sua investigação era pensar as atividades humanas a partir da coisa produzida – sua localização, sua função e duração de sua permanência no mundo. A localização dizia respeito ao lugar, privado (oikía) ou público (pólis), onde se realizavam as atividades30; a função de cada atividade orientava-se à

30 Complementar à rigorosa distinção conceitual entre a esfera privada e a esfera pública, Hannah Arendt

também desenvolveu em A condição humana uma controversa análise da ascensão da esfera social na modernidade. Esta esfera híbrida teria sido a responsável pela dissolução e decadência da esfera pública, uma vez que trouxe para a esta os interesses e demandas pela sobrevivência, próprios da vida privada. Margaret Canovan foi uma das primeiras pesquisadoras a indicar os possíveis problemas dessa teorização arendtiana sobre a esfera social (Cf. CANOVAN, Margaret. The political Thought of Hannah Arendt. Nova York: Harcourt Brace Jovanovich, 1974).

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subsistência, à produção ou à convivência necessárias ao bem em comum; a duração indicava que a permanência das atividades estava ligada ao consumo (trabalho), ao uso (fabricação) ou à imortalidade (ação).

2.4 As categorias fundamentais da vita activa:

Desse modo, Arendt dividiu a atividade humana em três categorias fundamentais31: trabalho (labor), fabricação (work) e ação (action). “Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na Terra” (ARENDT, 2009a, p. 15). Segundo Arendt, o local de ocorrência do trabalho e da fabricação é a dimensão privada, que entre os gregos antigos correspondia a casa (oikos); enquanto a ação política ocorria na dimensão pública, na praça (ágora). Essas categorias da vida ativa estão relacionadas às condições da existência humana: a vida, a natalidade e a mortalidade, a mundanidade, a pluralidade e o planeta Terra (ARENDT, 2009a, p. 19).

2.5 A categoria do trabalho e o animal laborans:

A categoria do trabalho diz respeito ao que “assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie” (ARENDT, 2009a, p. 16). É a atividade que equivale ao “processo biológico” intrínseco e constituinte do corpo humano. Por isso, o crescimento espontâneo, o metabolismo e o inevitável declínio do corpo humano estão ligados às necessidades vitais, que na verdade são postas e geradas pelo próprio trabalho no processo da vida. “A condição humana do trabalho é a própria vida” (ARENDT, 2009a, p. 15).

Hannah Arendt define o trabalho (labor) como uma atividade inerente ao corpo humano no que se refere à exigência de manter-se vivo. É a condição de vida comum a homens e animais, sujeitos às necessidades de prover a própria fonte de subsistência. Daí a recorrente denominação de animal laborans para a espécie humana, enquanto composta de seres que precisam a qualquer custo, prover sua própria subsistência. A atividade do labor é

31 De acordo com a inusitada distinção fenomenológica entre as categorias “labor” e “work”, adotaremos a

tradução de “labor” por “trabalho” e de “work” por “fabricação”, por se aproximarem de modo mais adequado do sentido da interpretação da teoria política de Arendt (Cf. A Condição Humana, 2009, Cap. I, seção I, e Cap. III, seção II).