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O paradigma indiciário revelou-se como uma metodologia fundamental na presente pesquisa não só por permitir encontrar pistas e sinais nas atividades sobre o percurso da apropriação do desenho pela escrita, mas principalmente por nos possibilitar fazer o acompanhamento longitudinal desse processo de apropriação, demonstrando a história do desenvolvimento do desenho e da escrita em crianças. Neste trabalho consideramos como hipótese que a atividade do desenho é uma precursora da linguagem escrita. Para tanto, a partir das discussões apresentadas supusemos poder encontrar pistas, indícios nas atividades gráficas infantis que poderiam revelar o percurso do desenvolvimento do desenho para a escrita. A fim de explicitarmos nossa escolha por tal perspectiva metodológica, procuramos esclarecer alguns pontos do paradigma que consideramos mais importantes para nossas análises.

Sendo este um dos procedimentos que têm como um dos princípios buscar indícios e procurar captar os mínimos detalhes, inclusive os dados considerados sem importância, além de reconhecer que eles fornecem as pistas para compreensões e interpretações, refletimos ser a metodologia de pesquisa que melhor possibilita a investigação e buscas por momentos relevantes sobre o percurso gráfico das duas crianças. Como afirma Abaurre (2002)

Acreditamos que os dados da escrita inicial, por sua frequente singularidade, são importantes indícios do processo geral através do qual se vai continuamente constituindo e modificando a complexa relação entre o sujeito e a linguagem. (ABAURRE, 2002, p.15)

Assim como Morelli catalogava formas de orelhas, formatos de unhas, formas de dedos, etc., para identificações das obras de artes verdadeiras, nós também catalogamos as

produções das duas crianças que consideramos relevantes para o processo de desenvolvimento do desenho para a escrita. Para tanto, buscamos critérios para dar significado a essa relevância, apoiando-nos como no trabalho de um detetive e nos questionamos: quais atividades, de todo o nosso banco de dados, nos revelariam da melhor maneira o processo de apropriação do desenho e da escrita? Dessa forma, diante das inúmeras atividades do banco de dados, através de uma observação atenta optamos por catalogar atividades somente que fossem produzidas graficamente pela criança.

Da mesma forma como Holmes desvenda o autor do crime, assim como Morelli descobre o verdadeiro autor da obra baseado em indícios imperceptíveis pela maioria, nossa intenção foi de, a partir dos indícios das atividades gráficas selecionadas, “desvendar” alguns pontos imperceptíveis do processo de apropriação do desenho e da escrita.

Durante a discussão sobre o papel do detetive, apresentada por Duarte (1998), Holmes já havia elucidado que tal profissional elegia suas pistas de acordo com seus conhecimentos sobre os assuntos relacionados aos casos que lhe eram atribuídos. Esse conhecimento prévio é entendido como um fator importante uma vez que sua observação depende do seu conhecimento de mundo antecedente à investigação. O detetive só consegue observar algum fato relevante, quando tem alguns conhecimentos que o fazem tecer relações com a decifração do caso. Nesse sentindo, em relação à pesquisa é preciso que a investigadora tenha familiaridade com o seu problema. Assim entendemos como o conhecimento prévio sobre o “assunto” e a familiaridade com ele, o nosso conhecimento de mundo anterior à investigação, a experiência como professora de educação infantil e pesquisadora, justificados em nossas experiências profissionais. A partir dessas vivências anteriores, nosso olhar passa a ficar apurado. Assim como o médico ao examinar um paciente identifica, por exemplo, que ele está com determinada doença, nós como professoras, ao olharmos as atividades, podemos identificar sinais e pistas relevantes para a busca de nossa hipótese.

Destacamos que, no caso da presente pesquisa, buscamos considerar essas colocações, postas pelos autores, que um “detetive” deve ter: conhecimento, poder de observação e poder de dedução.

Quanto ao conhecimento, ele é dado como relevante, pois a observação do detetive está sujeita ao seu conhecimento de mundo anterior à investigação, como já apontado. Esse conhecimento serve como contextualizador das hipóteses que usamos para a presente pesquisa.

Quanto à observação, Duarte (1998) aponta que o investigador deva ter abertura e receptividade frente a seus dados para que não haja preconceitos em relação a eles.

É enfatizada também a importância do investigador como observador minucioso, atento aos detalhes, pistas e a sua relevância dentro do processo de decifração do mistério.

Quanto à dedução, para um detetive é importante saber raciocinar retrospectivamente, isto é, saber chegar a explicações a partir da análise do resultado característico dos fatos. É necessário também diferenciar os fatos incidentais dos vitais, e o dado singular, mesmo que pareça não ter uma explicação, é extremamente relevante para o entendimento do caso. Como diz Duarte (1998):

Recebem destaque os procedimentos utilizados na investigação policial pelo detetive, justamente porque tal exemplo caracteriza muito claramente os procedimentos que um pesquisador que deseja utilizar o Paradigma indiciário dever ter, com uma diferença apenas se na investigação policial o detetive não deve correr riscos ao formular suas hipóteses, tendo em vista que esta trabalhando com pessoas e isso envolve mais prudência de sua parte, na “investigação” científica, o pesquisador poderá se permitir correr mais riscos e, portanto, formular as hipóteses que precisar, quando estiver procurando explicar seus dados. (cf. BONFANTINI apud DUARTE, 1998). Para chegarmos à escolha das pistas relevantes para a decifração da nossa hipótese inicial, escolhemos adotar os caminhos apontados por Ginzburg (1991) utilizando faro, golpe de vista e intuição. Dessa maneira, nossos critérios foram determinados pela baixa intuição explicitada pelo autor14. Assim utilizamos critérios para escolher esta ou aquela atividade, através de sinais que nos foram deixados nas produções, como utilizados na investigação policial pelo detetive.

Devemos deixar claro que não fizemos escolhas por quaisquer pistas. Como já dissemos nossas histórias, como professora e pesquisadora, nos deram subsídios para as escolhas feitas, nossa “baixa intuição”. É através de nossa formação pessoal, profissional e social que temos crenças e verdades que nos direcionam o olhar. Talvez, se fossem outras investigadoras, poderiam ter sido elaboradas outras interpretações das pistas, já que a percepção da investigação depende das experiências e conhecimentos relativos ao caso. No entanto, como temos a intenção de observar o indiciário, devemos aprender como pesquisadora a duvidar daquilo que tendemos a olhar como estável, constante. Entretanto, mesmo com esse cuidado na observação, continuamos vinculadas às nossas histórias. Dessa maneira elaboramos nossas concepções do novo a partir do que já é conhecido, uma “nova

14 Como apontado por Ginzburg (1991), o termo intuição é considerado não como algo espiritual ou místico, mas

é entendido como uma capacidade humana, segundo a qual o sujeito é capaz de compreender algo por meio de suas experiências e vivências no mundo.

perspectiva”, mas que está composta com “visões” em que o passado se faz presente, contudo um passado “reconstruído”.

Por fim, buscamos reunir as evidências que fossem relevantes para compreendermos nosso problema de pesquisa: Quais marcas de escrita crianças de 4 a 7 anos deixam em suas atividades gráficas que indiciam o processo de apropriação da escrita? Para encontrarmos preciosos detalhes, indícios e reconhecermos sua relevância dentro do processo de apropriação da linguagem gráfica, buscamos o que de peculiar identificávamos em cada produção analisadas. O importante para nós era encontrar pistas que nos permitissem captar características que perpassavam o processo do grafismo.

Através das atividades produzidas pelas crianças, pudemos identificar fatos de seus cotidianos, lugares que frequentam, brincadeiras, amigos, isto é, pistas que nos deram indícios do contexto social e cultural que tais crianças vivenciavam. Não deixamos de considerar que, nos momentos em que as atividades/produções eram elaboradas, havia, provavelmente, inúmeras influências. Dentre essas influências podemos citar: a parceria com colegas, interação entre professoras e crianças, o contexto da produção (interesse ou não de fazer tal atividade), enfim possíveis falas e pensamentos que não pudemos captar no momento exato, mas cujos indícios de influências pudemos ver por meio de algumas atividades.

Dessa forma, buscamos o indiciário, o idiossincrático nas atividades. Esse procedimento nos deu a chance de seguir um processo de descoberta por meio de aspectos que muitas vezes não damos como relevantes. Assim, qualquer dado, por mais que parecesse insignificante, sem importância, foi considerado.