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1.2.2.1. A expedição realizada por Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira

O Museu Nacional de Etnologia de Lisboa reúne um dos maiores conjuntos de objectos realizados por ameríndios brasileiros que se encontram em Portugal. A colecção de peças recolhidas por Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira no Brasil durante a década de 70 do século XX representa 738 objectos, na sua totalidade depositados naquele Museu, conjunto que inclui os espólios provenientes da recolha realizada pelo casal numa necrópole

da região do rio Anajás16, na ilha do Marajó. Neste conjunto de peças, constituído

      

16   Nos catálogos de exposição o teso escavado é descrito como situado na região do lago Arari (OLIVEIRA, 1972), embora seja geograficamente mais próximo do rio Anajás. Por isso, ao longo do estudo, será sempre descrito como associado a este rio.

principalmente por cerâmicas, destaca-se a presença de grandes urnas funerárias ou igaçabas17 que terão sido utilizadas em enterramentos secundários, assim como uma série de objectos identificados no interior das mesmas. Todo este conjunto artefactual pertence à "fase Marajoara" com a tipologia cerâmica correspondente, de tradição policromática.

Victor Bandeira, protagonista da constituição desta colecção, pode ser descrito como um aventureiro, coleccionador e antiquário com grande interesse por culturas e objectos de outros continentes. Numa entrevista realizada em 2000 para a revista Ícon, descreve como iniciou a sua actividade:

Desde miúdo que gostava de objectos de arte, e um dia tive a possibilidade de fazer uma sociedade com dois indíviduos, abrir uma casa de antiguidades e fiquei todo contente, comecei a comprar coisas e a vender, foi por volta dos meus 25 anos. Cheguei à conclusão de que gostava era daqueles objectos que se costumam chamar de arte primitiva, e de arte popular e de arqueologia, e não havia especialistas em Portugal (PRATAS, 2000: 37).

Realcemos o facto de Victor Bandeira ter sido um precursor em Portugal na aquisição, recolha e venda de objectos provenientes de "culturas exóticas". No início adquiria os objectos sobretudo através de antiquários e de casas leiloeiras, e quando conseguiu juntar uma significativa soma de dinheiro terá ido para África. Neste contexto, entendemos que constituiu colecções com o objectivo de as vender, tendo sido portanto também um comerciante. A sua motivação foi a de adquirir, através da revenda dos objectos, o financiamento suficiente para realizar as suas inúmeras viagens. Assim, a colaboração com o Museu Nacional de Etnologia constituiu para Victor Bandeira uma situação comóda com a garantia de que teria um cliente fiel. Desta forma concluímos que, ao contrário da ideia do coleccionador que constitui uma colecção ao longo do tempo para seu usufruto pessoal, Victor Bandeira foi antes de mais um antiquário. No entanto, sempre admirado pelos objectos das várias culturas que ia descobrindo, não hesitava em visitar o Museu para poder rever as colecções. Além disso, desenvolveu uma amizade profunda com os funcionários da instituição. Passamos a citar o antiquário: “E não podendo ficar com todos os objectos de que gostava, vendendo ao museu podia vê-los quando quisesse. Continuavam a ser meus de certa maneira” (PRATAS, 2000:

      

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38). Foi nesta óptica que Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira, então sua esposa, foram encarregues da recolha de objectos ameríndios na Amazónia.

A expedição de Victor Bandeira e Francoise Carel-Bandeira, foi incentivada pelo director do então Museu de Etnologia do Ultramar, António Jorge Dias (1907-1973), e insere- se na continuidade de viagens com a finalidade de efectuar recolhas etnográficas em África, Ásia e Ámerica. O primeiro contacto entre o antropólogo e Victor Bandeira ocorreu enquanto decorria a exposição da sua colecção de objectos africanos, na inauguração do Museu da Escola Superior de Belas Artes no Porto. É de se destacar que, durante as suas viagens, Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira não se limitavam somente às recolhas etnográficas mas valorizavam igualmente a experiência vivencial com as populações contactadas.

Sabemos, por exemplo, que na ocasião da expedição ao Xingu, na Amazónia, Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira permaneceram durante um ano numa aldeia dos

Kamaiurá18. Através da recomendação do Centro de Estudos de Antropologia Cultural da

Junta de Investigação do Ultramar, Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira puderam entrar em contacto com os Serviços Culturais da Embaixada do Brasil a fim de realizarem a expedição, e foi durante os anos 1964/65 que constituíram a colecção encomendada pelo Museu. O conjunto de peças recolhidas foi adquirido pelo Ministério do Ultramar em 1969, com a ajuda da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação da Casa de Bragança e de alguns particulares (OLIVEIRA, 1972). O Museu foi adquirindo peças do antiquário durante anos, muito embora os gastos com as viagens e as compras dos objectos tenham sido sempre custeados pelo próprio Victor Bandeira. Assim, parece ter-se constituído um acordo para benefício de cada uma das partes: para o Museu, na aquisição de artefactos inéditos; para Victor Bandeira, na revenda das suas colecções.

1.2.2.2. A escavação do teso de Camutins e as peças recolhidas

As peças encomendadas pelo Museu foram recolhidas através de uma escavação na qual a componente arqueológica é quase nula. Foi realizada por pessoas estranhas à área da arqueologia e constitui um conjunto do qual estão ausentes informações estratigráficas, sendo

      

por isso decontextualizado. A escavação ocorreu no teso de Camutins, situado na parte Noroeste da ilha. O teso terá sido implantado junto ao rio Camutins, afluente do rio Anajás e pertence ao sítio d’ "Os Camutins", composto por um conjunto de 34 aterros. Este arqueosítio apresenta o conjunto de tesos mais conhecidos e de maiores dimensões na ilha do Marajó.

Encontram-se divididos em três categorias, repartidos espacialmente ao longo do rio Camutins. No curso inferior identificaram-se quatro, área onde parece ter sido organizado o núcleo ceremonial e político; no médio curso do rio reconheceram-se 15, a que estará associada a população comum; finalmente no curso superior ter-se-ão encontrado outros 15 (SCHAAN, 2006 b). A densidade populacional deste cacicado foi estimada em cerca de 2 000 pessoas, o que é muito significativo (SCHAAN, 2004:395). O teso de Camutins, de onde provem a recolha realizada por Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira é o maior do grupo e constitui assim um efectivo testemunho da organização de rituais funerários pela elite marajoara.

Apesar de a expedição de Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira corresponder sobretudo a uma recolha carente de informações arqueológicas, o casal teve a preocupação de salvar alguns dados relativos ao posicionamento dos objectos encontrados. Registaram o facto de as urnas funerárias se encontrarem enterradas a poucos centímetros de profundidade, assim como informações sobre o posicionamento dos objectos, eventualmente reconhecidos no seu interior ou enterrados à sua volta, na necrópole.

Sabemos que na urna AN.372 foram encontrados dois vasos (AN.388 e AN.389) assim como uma estatueta antropomórfica em cerâmica (AN.390). Os dois tapa-sexos da colecção (AN.386 e AN.387) foram identificados em duas urnas distintas, a AN.374 e a AN.380. Notamos o carácter inédito da urna funerária AN.375, em cujo interior se reconheceram restos ósseos preservados de um indivíduo, assim como um prato com pedestal (AN.395), uma estatueta antropomórfica (AN.381) e uma figura zoomórfica, em osso, de feição reptiliana (AN.649). Sabemos de igual modo que a urna AN.379 terá sido encontrada sobre a urna AN.372. A estatueta antropomórfica AN. 384, considerada um exemplar inédito, foi encontrada enterrada a cerca de 50 cm de profundidade sobre o vaso AN.397. A cabeça de cerâmica zoomórfica, interpretada como pertencendo à decoração de uma urna funerária (NOVAIS, 1966: 227) foi exumada de uma profundidade aproximada de 1,50 m e o tamborete AN.385 encontrava-se igualmente no subsolo, junto à urna AN.375.

O espólio marajoara é composto por 67 fragmentos e peças em bom estado de conservação e cerca de 200 fragmentos de diversas dimensões (artefactos fragmentados durante a viagem). As peças do Museu foram executadas sobre três suportes ou materiais distintos: osso (1.5%), lítico (13.4%) e cerâmica (85%) (Quadro.5, Anexo 3).

Existe somente um objecto em osso, que corresponde a escultura de um sáurio. Em pedra são realizados os machados, pilões e um acessório com formato de ponta de flecha. Enfim, é pelas peças cerâmicas que se destaca esta colecção, e de modo especial pelo conjunto de 16 fragmentos de urnas funerárias (23.9%). Outra categoria de objectos numerosos é a das figuras antropomórficas e zoomórficas, constituída por 17 fragmentos (25.4%), sendo que as loiças representam 14 peças (21%). Os grupos mais reduzidos são os dos acessórios utilizados na tecelagem, num total de cinco (7.5%), o dos objectos associados ao género, apenas três (tangas e tamborete, com 4.5%) e o conjunto dos adornos, constituído por apenas dois (3%).

1.2.2.3. A presença das peças marajoara nas "Galerias da Amazónia"

As peças provenientes da expedição de Victor Bandeira e Françoise Carel-Bandeira à ilha do Marajó estão actualmente expostas nas reservas musealizadas do Museu Nacional de Etnologia, as denominadas "Galerias da Amazónia". Este conjunto não constitui a única colecção brasileira recolhida pelo casal, pois como já mencionámos existem vários conjuntos etnográficos e outras recolhas de objectos arqueológicos trazidos da Ámerica do Sul. Valerá a pena citar, como exemplo, o conjunto de cerâmicas pré-colombianas do Perú.

A construção deste espaço museológico teve início em 1998 e foi inaugurado no dia 10 de Janeiro de 2006, sendo constituído por duas mil peças e destacando-se duas grandes colecções: aquela proveniente da recolha efectuada por Victor Bandeira na década de 60 do século XX e a da colheita organizada por Aristóteles Barcelos Neto junto aos índios Wauja do Alto Xingu, no ano 200019. Existem, para além destes conjuntos, algumas colecções menores e diversos objectos isolados.

      

19   Para uma breve apresentação das "Galerias da Amazónia", aconselhamos dois artigos publicados na imprensa portuguesa: CANELAS, Lucinda – “Museu Nacional de Etnologia”, Público.

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