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Muitos autores (ALBUQUERQUE; GOES, 1987; DAMIANI, 2003; LEÃO; POSSÍDIO, 2000; SILVA et al., 2009) são unânimes ao afirmar que a fruticultura irrigada no Submédio do Vale do São Francisco começou a se desenvolver, depois de muitos anos, quando o Estado interveio na região. E uma das intervenções ocorreu por meio da criação, no final da década de 40, da Comissão do Vale do São Francisco – CVSF. A CVSF criada pela lei federal nº 541 em dezembro de 1948, tinha como finalidade planejar e executar um plano de desenvolvimento para a região, que incluía a navegação, irrigação e a industrialização.

Para Andrade (1983) a criação da CVSF está diretamente ligada à experiência de soluções ocorridas no vale do Tennessee (EUA) que incentivou o Estado brasileiro a estabelecer no interior da Constituição daquele período a disponibilidade de 3% da renda da União aplicados em uma política de valorização da Amazônia e 1% para o plano de recuperação econômica do vale do São Francisco e, para isso, a CVSF foi criada, com o objetivo de executar essa política.

As responsabilidades da CVSF eram grandes e compreendiam: “estudos globais sobre a bacia hidrográfica; construção de centrais elétricas; execução de

irrigação; saneamento e drenagem de terras agrícolas; realização de serviços de educação, de ensino profissional, de saúde e de assistência; efetivação de trabalhos destinados ao desenvolvimento da produção agropecuária e da industrial”. (MACHADO, 2004, p. 01)

A CVSF representava a mão intervencionista do Estado na região, estabelecendo a ordem e a lógica específica para o desenvolvimento do Vale do São Francisco, que seria o desenvolvimento agrícola, apoiado pela construção de uma infraestrutura básica e assessorado por linhas específicas de pesquisas agrícolas.

Nas palavras de Damiani (2003):

As pesquisas então desenvolvidas produziram estudos detalhados sobre o potencial dos solos para agricultura irrigada, mostrando que havia 3 milhões de hectares de terra apropriada para irrigação. A infraestrutura básica incluía estradas, escolas, postos de saúde além de redes de energia elétrica instaladas em pequenas cidades construídas como resultado das pressões das elites locais de todo o Vale do Rio São Francisco. A CVSF construiu 1.900 km de estradas, 50 pequenos aeroportos, mais de 120 projetos de abastecimento de água, 14 usinas elétricas com uma produção total de 408.000 KW, e 2.700 km de linhas de transmissão (DAMIANI, 2003, p. 08).

Isto mostra que a CVSF foi determinante para o desenvolvimento dos futuros projetos de irrigação. Ela criou uma estrutura que colocou em prática uma lógica de produção que antes não existia.

Através das experiências anteriores de plantios de uvas em algumas fazendas no Vale do rio Salitre, Horto florestal em Juazeiro da Bahia, Posto de Colonização em Petrolina no Pernambuco ficou evidente que era possível o plantio econômico de uvas nesta região. Com a construção da infraestrutura básica fornecida pelo estado, disponibilidade de terra e mão de obra barata foi possível a criação das condições ideais para que determinados oportunistas (“empreendedores”, pequenos capitalistas, visionários, etc.) começassem a produzir uvas de mesas em escala comercial.

Foi diante destas condições que no ano de 1952, chegou à região um técnico português conhecido por José Cabral de Noronha e Menezes para trabalhar na CVSF. Foi com ajuda deste técnico que se começou a prática racional de cultivo e tratos culturais, como desbaste de cachos, controle de doenças e uso de fertilizantes (LEÃO; POSSÍDIO, 2000). Assim, surgiu uma lógica de desenvolvimento da agricultura que permanece até os dias atuais: algumas pessoas com determinado

poder aquisitivo compram determinado lote de terra sob uma infraestrutura oferecida pelo Estado e apoio de institucional, contrataram vários trabalhadores e começaram a produzir8.

Um dos primeiros produtores de uva a contar com a ajuda da CVSF, sob a supervisão de José Cabral de Noronha, foi um imigrante espanhol de nome José Molina Membrado. Este, sob a supervisão técnica do Sr. Cabral, implantou no município de Santa Maria da Boa Vista, estado do Pernambuco, no ano de 1958, uma área de videira de 10 hectares de variedade europeia, sendo um marco histórico para aquilo que seria considerada a primeira área de uva em escala comercial. (SILVA et al., 2009)

Para Edson Possídio em entrevista realizado com Silva (2001) o Sr Molina soube aproveitar o apoio dado pelo Estado através da CVSF sob supervisão do Sr Cabral.

Cabral topou trabalhar com Molina, que tinha um sócio em Recife chamado Alex. Eles tinham algum dinheiro, compraram um pedaço de terra e Cabral era o técnico. Teve sorte, que a CVSF fez da fazenda deles o seu campo Experimental. Botou trator lá dentro, botou técnico, botou adubo, botou tudo! Chegou-se a produzir uma uva, para a época, de muito boa qualidade (SILVA, 2001, p. 75 – 76)

Albuquerque e Goes (1987) destacam também o pioneirismo do senhor Molina. Para eles “este espanhol já utilizava técnicas, não só de desbastes, como o de tratamento fitossanitário. O seu produto, de magnífico aspecto e elevado teor de açúcar, não tinha dificuldade de comercialização (ALBUQUERQUE; GOES, 1987, p. 06).

A década de 1950 foi o período inicial de intervenção do Estado que possibilitou as primeiras iniciativas de plantio comercial de uvas na região de Juazeiro e Petrolina. Foi através do discurso do desenvolvimento e do progresso, que as bases da agricultura irrigada foram implantadas.

8 No caso específico dos perímetros irrigados, a lógica de desenvolvimento se dá da seguinte forma:

O governo inicialmente identifica as áreas onde serão introduzidos os perímetros irrigados. Em seguida faz todo um procedimento para implantação da infraestrutura necessária aos futuros perímetros irrigados (por exemplo, desapropriação, desmatamento, obras para captação de água, sistemas de distribuição de água, estradas, eletrificação etc.). Após esta etapa, há o processo de ocupação dos lotes mediante processo licitatório, em conformidade com a Norma de Ocupação dos Projetos Públicos de Irrigação – NOR 501 da CODEVASF. Esta ocupação está também relacionada ao pagamento de valores relacionados aos custos incorporados ao valor da terra. O preço inicial destes lotes é apurado por comissão especialmente designada, onde se avalia o valor da terra nua somado aos custos realizados para a instalação. Os selecionados para ocupar os perímetros compram os lotes, contratam trabalhadores e começam a produzir.

Para Andrade (1984) os debates políticos ocorridos no final da década de 50 sobre a questão do desenvolvimento do Vale do São Francisco estavam situados entre duas correntes distintas.

Uma, comprometida com uma visão social do problema, pensava em organizar um programa de desenvolvimento que equilibrasse os interesses nacionais e locais, com a implantação de programas que elevassem o rendimento dos recursos explorados e que beneficiassem a população do vale; outra corrente, eminentemente capitalista, procurava facilitar o crescimento econômico da bacia do São Francisco em função do interesse de grandes empresas dos centros mais dinâmicos do país que desejavam ampliar os seus negócios, esquecendo ou colocando em segundo plano os interesses da população local. (ANDRADE, 1984, p. 45-46)

A segunda corrente de predominância capitalista foi vitoriosa. Estruturada em sua lógica expansionista, foi estimulada a exploração comercial do rio São Francisco com a construção de grandes barragens com o objetivo de produzir energia. Daí, durante um período de quatro décadas (1950 a 1980) foram construídas três grandes usinas ao longo do rio São Francisco: Paulo Afonso no ano de 1954, Três Marias em 1959, Sobradinho em 1979.

A construção destas barragens com o objetivo de produzir energias favoreceu indiretamente o desenvolvimento da fruticultura irrigada, possibilitando o fluxo contínuo de água para irrigação, energia para o bombeamento e irrigação das frutas e hortaliças e a disponibilidade de mão de obra, ocasionada pela desapropriação e expulsão de uma grande quantidade de trabalhadores, ocasionado pela construção da barragem e o consequente alagamento de suas propriedades.

1.3 O início dos perímetros irrigados e a presença da CODEVASF e