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Nesta seção, se buscará determinar a porcentagem da renda familiar destinada à compra de alimentos por parte das famílias bolivianas. Com isto, constataremos empiricamente quais famílias sofrem um impacto maior ante uma subida de preços em alimentos. É importante mencionar que foram definidos três tipos de níveis de famílias, separadas pela renda familiar, porque se entende que a proporção de renda destinada a alimentos vai variar de acordo com cada nível.

Os dados utilizados nesta análise são os extraídos da Pesquisa de Melhoramento de Condições de Vida (MECOVI), realizada periodicamente pelo INE, para os anos 1999, 2000, 2001 e 2002, e da Pesquisa de Lares (EH), para os anos 2005, 2006 e 2007101, onde podemos identificar variáveis relevantes como (1) a renda familiar total mensal, medida em bolivianos/mês, em moeda corrente; e (2) O gasto em alimentos (dentro e fora do lar), medido em bolivianos/mês, em moeda corrente.

Para determinar qual é a porcentagem da renda que uma família destina ao gasto em alimentação, se determinam três níveis de renda: (1) Nível 1, com uma renda igual ou inferior a um salário mínimo nacional vigente do ano; (2) Nível 2, com uma renda superior ao salário mínimo nacional e inferior a 10 salários mínimos nacionais; e (3) Nível 3, as famílias com uma renda superior a 10 salários mínimos nacionais.

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Embora existam bases de dados da MECOVI 2003-2004 e da EH 2008 e 2009, estas bases de dados desconsideram variáveis relevantes, por isso descartou-se o seu uso para esta análise.

91 Posteriormente, se determina a porcentagem da renda familiar102 que as famílias

dos três níveis destinam aos gastos em alimentação para então, podermos mensurar quais as diferenças no impacto ante uma subida de preços dos alimentos. Como se mostra no Quadro 1 do anexo A, segundo a MECOVI 1999, dentro das famílias que se situam no Nível 1 de renda, 83,5% delas destinam entre 50% e 100% da sua renda ao gasto em alimentação. Na família de Nível 2, 74,2% delas destinam entre o 50% e 100% da sua renda em gastos para alimentos. Já as famílias que se situam no Nível 3, 89,9% delas destinam entre 10% e 40% de sua renda em gastos de alimentação.

No ano 2000, o comportamento é similar, de forma que 89,5% das famílias que pertencem ao Nível 1, destinam entre 50% e 100% de sua renda em gasto em alimentação. Nas famílias de Nível 2, 72,2% destas destinam entre 50% e 100% da renda familiar em gastos para alimentos. E 87,8% das famílias do Nível 3 gastam entre 10% e 40% da renda em alimentos.

Ainda de acordo com os dados das MECOVI, em 2001 temos que 91,3% das pessoas que estão no Nível 1 destinam entre o 50% e o 100% da sua renda em gastos de alimentos. As famílias de Nível 2, 62.4% destas destinam entre o 50% e o 100% da sua renda na compra de alimentos. E 95,3% das famílias do Nível 3 destinam entre o 10% e 40% da sua renda em gastos de alimentação.

Finalmente, os dados da MECOVI de 2002 mostram que 92,2% das famílias do Nível 1 destinam entre o 50% e 100% da renda em alimentos. Enquanto 60,5% das famílias do Nível 2 gastam entre o 50% e 100% da sua renda em comida. E 95,3% das famílias do Nível 3 destinam entre o 10% e 40% da renda em alimentação. Para a EH 2005, quando as famílias se situam no Nível 1, 92,6% delas gastam entre o 50% e 100% de sua renda em alimentos. As famílias de Nível 2, 71% destas destinam entre o 50% e 100% da renda em gastos de alimentação. E 83,6% das famílias que estão no Nível 3 dedicam entre o 10% e 40% das sua renda na compra de alimentos.

92 A EH de 2006 mostra que o 97,3% das famílias do Nível 1 destinam entre o 50% e 100% da renda na compra de alimentos. Já 73,5% das famílias do Nível 2 gastam entre o 50% e 100% da sua renda em alimentos. Enquanto 85,3% das famílias do Nível 3 destinam entre 10% e 40% da sua renda em alimentos.

Por último, temos que a EH de 2007 aponta que quando as famílias se situam dentro do Nível 1, 87,2% delas destinam entre 50% e 100% da sua renda em gastos de alimentação. Para as famílias que se situam dentro do Nível 2, 73,4% destas destinam entre o 50% e 100% da sua renda para comprar alimentos. E, finalmente, 82,1% das famílias que se situam no Nível 3 gastam entre o 10% e 40% da sua renda em alimentação.

Na posse destes resultados pode-se concluir que, embora se perceba uma leve melhora à medida que passam os anos, tanto as famílias do Nível 1 e do Nível 2 de renda demonstram-se sensivelmente vulneráveis no âmbito da segurança alimentar, pois todas as vezes destinam mais de 50% da renda familiar em alimentos – seja por causa do efeito do aumento dos preços internacionais, por causa de diminuição de oferta ou aumento de demanda – com isto, automaticamente, a dimensão de acesso aos alimentos estaria ameaçada, aumentando o nível de insegurança alimentar. As únicas famílias que não estariam expostas aos riscos da insegurança alimentar seriam as do Nível 3.

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Tabela 12: Resumo da porcentagem de gasto em alimentação das famílias, de acordo com a renda mensal em moeda boliviana/mês

Porcentagem de gasto MECOVI 1999 MECOVI 2000 MECOVI 2001 MECOVI 2002 EH 2005 EH 2006 EH 2007 Até 10% 3.09 1.91 3.79 3.74 1.40 1.62 1.68 Até 20% 8.86 6.50 9.20 8.97 6.89 6.58 7.31 Até 30% 13.30 12.25 14.86 14.97 12.09 13.97 12.04 Até 40% 14.21 15.59 15.07 15.51 14.72 14.05 14.22 Até 50% 13.42 14.22 14.18 14.11 15.96 13.21 14.54 Até 60% 13.78 12.89 12.34 12.24 14.21 13.89 13.02 Até 70% 11.34 11.19 10.18 10.11 10.60 12.11 11.91 Até 80% 9.72 9.38 8.53 8.27 9.53 9.42 9.65 Até 90% 7.00 9.15 7.04 6.50 8.64 8.91 7.93 Até 100% 5.27 6.93 4.81 5.57 5.96 6.23 7.68 > 50% 60.53 63.76 57.08 56.80 64.90 63.77 64.73

FONTE: Elaboração própria com base nos dados das MECOVI 1999, 2000, 2001, 2002 e EH 2005, 2006, 2007.

Na tabela de resumo podemos perceber que, no período da análise, entre 57,08% e 64,73% da população boliviana destina entre o 50% e 100% da renda com gastos em alimentação. No mesmo sentido, menos da metade da população, entre o 36,27% e 43,92%, destinam entre 10% e 40% da renda em compra de alimentos.

3.3.1. Relação entre o gasto com alimentação em função da renda das famílias

Nesta seção, se realizou uma estimativa linear e uma estimativa logarítmica para estabelecer uma relação entre o gasto em alimentação e a renda, verificando, em um primeiro momento, o conjunto da população e, em um segundo momento, os resultados de acordo com o nível de renda recebido pelas famílias.

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Tabela 13: Bolívia – estimativa da regressão entre o gasto em alimentação e a renda MECOVI 1999 MECOVI 2000 MECOVI 2001 MECOVI 2002 EH 2005 EH 2006 EH 2007 Regressão linear Interceptação 589.59 606.39 572.42 622.12 729.11 1021.18 1033.18 Declive 0.117 0.121 0.082 0.076 0.122 0.111 0.121 Regressão logarítmica Interceptação 4.08 4.21 4.29 4.56 4.39 4.31 4.7 Declive 0.349 0.342 0.305 0.272 0.33 0.363 0.318

FONTE: Elaboração própria com base nos dados das MECOVI 1999, 2000, 2001, 2002 e EH 2005, 2006, 2007.

Nas regressões lineares, a interceptação mostra que o gasto mínimo em alimentação supera o salário mínimo nacional, embora esta diferença vá diminuindo à medida que passam os anos. Observa-se ainda que, adicionalmente aos gastos mínimos em alimentação, se destinam entre 7 e 12 centavos da moeda boliviano em alimentação por cada boliviano de renda recebida. Nas regressões logarítmicas, se observa que por cada mudança de 1% na renda mensal, se destinam entre 27,2% e 36,3% em gastos com alimentação.

Tabela 14: Bolívia – estimativa da regressão entre o gasto em consumo de alimentos e a renda, de acordo o nível de renda

Regressão linear

Renda menor ao salário mínimo

Interceptação 326.39 285.41 356.71 322.68 403.3 423.64 589.53

Declive 0.483 0.916 0.358 0.83 0.635 0.746 0.387

Renda entre salário mínimo e 10 vezes o salário mínimo

Interceptação 496.72 553.91 509.91 518.94 663.7 773.14 901.02

Declive 0.247 0.234 0.164 0.182 0.205 0.265 0.225

Renda maior a 10 vezes o salário mínimo

Interceptação 1027.96 1250.37 1080.18 1186.94 1527.63 1822.57 2096.91

Declive 0.038 0.035 0.026 0.008 0.049 0.039 0.0307

Regressão logarítmica

Renda menor ao salário mínimo

Interceptação 4.633 4.487 4.602 4.918 4.915 4.835 5.591

Declive 0.224 0.278 0.243 0.202 0.228 0.263 0.142

Renda entre salário mínimo e 10 vezes o salário mínimo

Interceptação 3.627 3.822 3.716 3.736 3.895 3.969 4.469

95 Renda maior a 10 vezes o salário mínimo

Interceptação 5.318 5.225 5.341 6.038 4.391 5.984 5.548

Declive 0.198 0.225 0.189 0.111 0.343 0.175 0.232

FONTE: Elaboração própria com base nos dados das MECOVI 1999, 2000, 2001, 2002 e EH 2005, 2006, 2007.

Nas regressões lineares, a interceptação mostra o gasto mínimo em alimentação de acordo ao nível de renda. Verifica-se que a medida de que o nível de renda aumenta, também se incrementa o gasto mínimo em alimentação e que as famílias situadas no Nível 3 de renda gastam muito mais em alimentação que as famílias dos Níveis 1 e 2.

Observando os declives, se pode observar que: (1) as famílias do nível 1 destinam entre 48 e 91 centavos de boliviano aos gastos em alimentação, por cada boliviano de renda percebida; (2) as famílias do nível 2 destinam entre 16 e 26 centavos de boliviano ao gasto em alimentação, por cada boliviano de renda percebida; e (3) as famílias do nível 3 destinam entre 0,8 e 4 centavos de boliviano ao gasto em alimentação, por cada boliviano de renda percebida.

Com as regressões logarítmicas se pode concluir que: (1) as famílias do nível 1, por cada mudança de 1% na renda mensal, destinam entre 14,2% e 27,8% ao gasto em alimentação; (2) as famílias do nível 2, por cada mudança na renda mensal, destinam entre 34,9% e 41,7% ao gasto em alimentação; e (3) as famílias do nível 3, por cada mudança de 1% na renda mensal, destinam entre 11,1% e 23,2% ao gasto em alimentação.

3.4. Índice de preços ao consumidor (IPC), índice de inflação em