• No results found

Sobre a origem etimológica da palavra hibridismo, ela é derivada do grego ὕβριδης, ou de ὕβρις, e do latim hybrida ou hibrida, como descrito por Gerardo Furtado (2010), e foi usada com diferentes conotações desde as civilizações clássicas. Na Grécia, a palavra hýbris significou “passar dos limites”, como no cruzamento de animais de espécies diferentes ou na relação conjugal de castas sociais diversas, que, em teoria, não deveriam se misturar. Assim, o híbrido foi inicialmente usado para definir tudo que excedia o limite, a impetuosidade, a paixão excessiva, o bastardo, o insulto, a violência. A mitologia de vários povos explorou esse conceito com a criação de diferentes figuras: Hybris era a deusa grega do exagero e da insolência; os Sátiros (metade homens, metade bodes), Centauros (homens com corpos de cavalos) e o Minotauro (homem com cabeça de touro) também fazem parte desse universo. Com uma conotação quase sempre negativa, o híbrido relacionava-se ao monstro, que deveria ser combatido e negado; com a morte do monstro, aniquilava-se o híbrido em sua diferença.

Já na Biologia do século XVIII, o híbrido fez referência ao cruzamento das espécies, que davam frutos tidos como impuros e não férteis. Passando da biologia para a medicina, o termo foi usado para designar os seres morfofuncionalmente diversos do normal para a espécie, podendo-se citar o homem-elefante e os hermafroditas como exemplos clássicos. No começo do século XIX, com a criação da Teratologia23 por Etienne Sant-Hilaire, as

23 A Teratologia é um ramo da medicina que se debruça sob o estudo das causas, mecanismos e padrões do desenvolvimento anormal do ser humano. Um agente teratogênico é definido como qualquer substância,

explicações relacionadas às origens dos híbridos/monstros ganharam espaço na ciência, deixando de lado a esfera mítica. Assim, a partir dos séculos XIX e XX, as noções relacionadas aos híbridos oscilavam entre as míticas e as científicas, e, a título de curiosidade, com o objetivo de educar os cidadãos, os híbridos passaram a ser expostos em feiras, circos e em cultos religiosos. Nessa teatralização da diferença, faziam parte os tatuados, os anões, a mulher-monga, os siameses e também os estrangeiros:

Teatralização, ou performatividade, que é partilhada, de um modo geral, pelas artes híbridas, nomeadamente, a performance24 e os happenings25, que sendo artes do efémero e, muitas vezes, o resultado de misturas inesperadas, comungam com o monstro não só na estranheza, como no caráter excepcional e irrepetível. (MADEIRA, 2007, p. 38).

Da segunda metade do século XX em diante, ao descobrir as causas específicas para as monstruosidades, com os estudos cromossômicos e genéticos avançando, a ciência retirou o monstro do seu estatuto de ser marginal, integrando-o, para depois banalizá-lo e marginalizá- lo. Concomitantemente, o termo ganhou outras significações ao ser usado pela sociologia, história e cultura, dentre outras áreas do conhecimento, para designar todo tipo de processo de fusão, como as religiosas/sincretismo, étnicas/mestiçagem e artísticas/performance/instalação. Essa transformação do conceito de hibridismo, e o redimensionamento de seu uso, pode ter sido provocada pela vivência em um mundo globalizado, no qual os deslocamentos e reterritorializações são constantes, provocando uma mudança na exploração da espacialidade, que passa a ser bem mais preponderante do que a temporalidade (COHEN, 2001).

Um dos grandes mestres do hibridismo é o sociólogo Canclini (1995), que, em seus estudos, fez com que ocorresse uma verdadeira revolução quando assuntos como cultura, individualidade, identidade, diferença e multiculturalismo são abordados. Canclini, em uma tentativa de entender a modernidade e suas consequências na América Latina, propôs-se a estudar as culturas híbridas que compunham essa parte do planeta, realizando uma crítica muito pertinente ao projeto modernista frente a sua crise, nos anos 1990, que predisse a

organismo ou agente físico que, na vida embrionária ou fetal, causa uma alteração na estrutura ou função da descendência.

24 A performance é uma forma de arte que engloba elementos do teatro, música e artes visuais. Esse termo, também uma prática artística, surgiu entre os anos 1960 e 1970, quando se questionavae a forma que a arte havia adquirido. As performances são manifestações que usam a improvisação, com os performers aparecendo muitas vezes nus ou em gestos que remetem a emoções primárias, expressões do inconsciente coletivo (REYNOLDS e MCCORMICK, 2003). A Performance surgiu no século XX e é ontologicamente ligada ao movimento da Live Art (arte ao vivo, arte como ritual), sendo tipicamente experimental, ideologicamente ligada à não arte e tem como objetivo causar uma transformação no receptor (COHEN, 2004; TOURINHO, 2004).

25 O Happening está ligado à ideia de acontecimento. Ele surgiu do Action Painting dos anos 1970 e se voltou para a relação entre o artista (seu corpo-instrumento), o espaço-tempo e a plateia na produção da obra (COHEN, 2004; TOURINHO, 2009). Nele, há a participação mais ativa do público.

falácia da ideologia vigente, com a tentativa de construção de objetos puros, futuristas e sem apego ao passado:

Os modernizadores conceberam uma arte pela arte, um saber pelo saber, sem fronteiras territoriais, e confiaram à experimentação e à inovação autônomas suas fantasias de progresso. As diferenças entre esses campos serviram para organizar os bens e as instituições. O artesanato ia para as feiras e concursos populares, as obras de arte para os museus e as bienais. (CANCLINI, 1995, p. 21).

O que quis dizer Canclini é que hoje existe uma complexidade maior a ser vivenciada: arte e saber caminham juntos. Essa complexidade faz modernidade e tradição coexistirem e a pretensão que alguns têm de criar universos autossuficientes passa a não fazer sentido. Nesses universos pensa-se, erroneamente, que as obras produzidas em cada campo são dadas exclusivamente à expressão de seus criadores, e não de protocolos criados por diferentes interações e níveis de realidade vigentes (TOURINHO, 2009).

Desse feito, a hibridização presente nas artes contemporâneas brasileiras, apesar de poder ser vista como sinônimo de um avanço cultural, tende a se perder na falácia do desenvolvimento socioeconômico deficiente, pois os países da América Latina ainda não deixaram de viver em uma versão desfigurada da modernidade preconizada pelas metrópoles. Nesses lados do Atlântico, as artes, e, principalmente, a dança contemporânea, parecem perdidas, pois podem se deixar invadir por esse paradigma, por vezes sem questioná-lo e contextualizá-lo como parte da cultura local, que se expande enquanto saber sensível de um todo:

Os filósofos positivistas e a seguir os cientistas sociais modernizaram a vida universitária, [...] mas o caciquismo, a religiosidade e a manipulação comunicacional conduzem o pensamento das massas. As elites cultivam a poesia e a arte de vanguarda enquanto as maiorias são analfabetas. A modernidade é vista então como uma máscara. Um simulacro urdido pelas elites e aparelhos estatais, sobretudo os que se ocupam da arte e da cultura, mas que por isso mesmo os torna irrepresentativos e inverossímeis. [...] Nessa linha, concebemos a pós-modernidade não como uma etapa ou tendência que substituiria o mundo moderno, mas como uma maneira de problematizar os vínculos equívocos que ele armou com as tradições que quis excluir ou superar para constituir-se. (CANCLINI, 1995, p. 25- 28).

Passando para uma abordagem antropológica sobre o tema em questão, Hannerz (1997) propõe hibridez e colagem como os termos mais propícios e atualizados para designar palavras como fluxo, mobilidade, recombinação e emergência, que se tornaram "[...] temas favoritos à medida que a globalização e a transnacionalidade passaram a fornecer os contextos para a nossa reflexão sobre cultura." (idem, p. 7). Ao conceituar fluxo como um termo

transdisciplinar que faz referência às coisas que não permanecem em seus lugares, a mobilidades e expansões variadas e à globalização em sua dimensão, esse autor parece aproximar-se das colocações de Madeira (2007).

Se Hannerz compreende a cultura como processo, acredita que ela tem de estar em constante movimento, sendo sempre recriada, pois só assim os significados e as formas significativas podem tornar-se duradouros: "E, para manter a cultura em movimento, as pessoas, enquanto atores e redes de atores, têm de inventar cultura, refletir sobre ela, fazer experiências com ela, recordá-la (ou armazená-la de alguma outra maneira), discutí-la e transmití-la." (idem, p. 12).

E é exatamente isso o que Madeira (2007) parece estar propondo quando diz que, apesar de o hibridismo ser um paradigma que contamina as artes cênicas, apresenta-se ora visível, ora não, uma vez que, no fluxograma cultural global, a medida que a cultura é herdada, usada, transformada, adicionada e transmitida há uma constante reorganização da cultura no espaço. Isso gera uma multirreferencialidade em que as noções culturais de centro e periferia são questionadas, com a cultura espacialmente percorrendo contrafluxos e fluxos cruzados. Nesse fluxograma cultural processual há uma possibilidade do surgimento de incertezas, o que confirma a tese de Madeira (2007), já que a cultura:

[...] deve ser vista como originando uma série infinita de deslocamentos no tempo, às vezes alterando também o espaço, entre formas externas acessíveis aos sentidos, interpretações e, então, formas externas novamente; uma sequência ininterrupta carregada de incertezas, que dá margem a erros de compreensão e perdas, tanto quanto a inovações. O que a metáfora do fluxo nos propõe é a tarefa de problematizar a cultura em termos processuais, não a permissão para desproblematizá-la, abstraindo suas complicações. (HANNERZ, 1997, p. 15).

Quando fala sobre o hibridismo, Hannerz (1997) concorda com Madeira (2007) ao afirmar que houve uma mudança de hábito com relação ao uso desse termo. Logo, impureza e mistura deram lugar a uma possibilidade de reconciliação entre os diferentes, sendo esta a fonte de uma desejável renovação cultural. Indo ainda mais longe, há quem proponha que essa mudança ocorreu precocemente no universo brasileiro dos estudos humanistas e das letras, "[...] podendo até mesmo sugerir que foi aí que começou." (HANNERZ, 1997, p. 25), com os trabalhos que delineavam não só um tipo de caráter entre os portugueses, ameríndios e africanos, ou um único modo de produção artística brasileira, mas toda uma nova civilização. De qualquer modo, existem diferentes termos usados que podem carregar significações parecidas ao hibridismo: hibridez, colagem, mélange, miscelânea, montagem, sinergia, criolização, mestiçagem, miscigenação, sincretismo, transculturação, terceiras

culturas e outros. Eles parecem estar vinculados à forma cultural, aos produtos culturais (linguagem, música, arte, ritual ou culinária) e aos processos. A hibridez já até foi eleita como o termo genérico preferido no ano de 1997:

[...] talvez por derivar sua força, como “fluxo”, de uma fácil mobilidade entre disciplinas [...]. Apesar de seu tom biológico, é um termo forte principalmente no campo dos estudos literários [...]. Mas como outros comentadores, ligados a diversas disciplinas, usaram a palavra com diferentes sentidos e objetivos analíticos, hibridez acabou se tornando um termo repleto de ambiguidades. (HANNERZ, 1997, p. 18).

O Quadro 1 tenta sintetizar as noções de hibridismo apresentadas nesta tese. Elucida- se que, para escrevê-la e para defender a hipótese em questão, segue-se a noção de que o híbrido, ou o hibridismo, determinam todo o tipo de fusão. Especificamente, fala-se sobre o hibridismo nas artes cênicas, que possibilitou uma mistura entre ciência e arte. Isso determinou uma mistura sem limites, definidora de todos os tipos de fenômenos vagos, imprecisos e variáveis, caracterizando-se pela total falta, ou pelo excesso, mais do que pela procura, de uma linearidade narrativa que segue regras, padrões ou dispositivos técnicos bem formatados.

Quadro 1: As diferentes concepções do híbrido através dos tempos.

Período Termo

Utilizado Significado

. Civilizações Clássicas

. Hýbris

. tudo que excedia o limite, a impetuosidade, a paixão excessiva, o bastardo, o insulto, a violência

. noção de híbrido ligada à mitologia

. relacionado ao monstro, que deveria ser combatido e negado; a morte do monstro aniquila o híbrido em sua diferença

. Século XVIII . Híbrido ou hibridismo

. na Biologia: cruzamento das espécies, que davam frutos tidos como impuros e não férteis

. na Medicina: seres morfofuncionalmente diversos do normal para a espécie

. Século XIX . Híbrido ou

hibridismo . a Teratologia faz o híbrido ser explicado pela ciência, teatralizando a sua diferença

. Metade do século XX em diante . Híbrido ou hibridismo . Sincretismo . Mestiçagem .Performance/ Instalação .Hibridez/ Colagem

. a ciência retira o monstro do estatuto de ser marginal, integrando-o para, depois, banalizá-lo e marginalizá-lo

. o híbrido passa a se referir a todo tipo de fusão . fusão religiosa

. fusão étnica . fusões artísticas

. na Antropologia, esses termos são mais propícios para designar fluxo, mobilidade, recombinação e emergência

. Hibridez .Hibridismo/

Mistura

. na Antropologia, passou a significar a possibilidade de reconciliação entre os diferentes

. nas artes cênicas: mistura entre arte e ciência; todos os tipos de fenômenos vagos, imprecisos e variáveis; um paradigma invasor, às vezes visível, ou não, que contamina tudo, em um território de cruzamentos sem fronteiras bem delimitadas; caracteriza-se pelo excesso ou pela total falta, mais do que pela procura, de uma linearidade narrativa que segue regras, padrões ou dispositivos técnicos bem formatados.