1 INNLEDNING
1.6 Fremstillingen videre
A questão do gênero masculino pode ser vista como um facilitador na possibilidade de compreender como os homens percebem e usam seus corpos. Em nosso trabalho, a expressão diferenciada entre os gêneros se iniciou, quando nos deparamos com a escassez de material voltado para essa população; mas, evidenciou-se na busca por sujeitos para a realização do estudo. Foram criadas várias condições para que houvesse o contato com homens obesos, contudo, fomos ao encontro de um espaço vazio. E, enquanto, eles não se permitiam participar, não se apresentavam nem esboçavam qualquer interesse, as mulheres obesas se candidatavam, mostravam interesse, instigavam seus parceiros e, por meio de profissionais envolvidos nesta busca, disponibilizavam-se para tentar usufruir do espaço.
Compreendemos, então, que já estávamos diante de um movimento simbólico da diversidade do modo de agir dos gêneros. Enquanto a mulher mostrou uma posição ativa, expôs-se e até tentou seduzir, os homens evitaram o envolvimento espontâneo, mantiveram-se em uma zona de conforto, sem se apresentar, sem nem ao menos investigar, antes de rejeitar.
Em nosso caso, fez-se necessário o deslocamento do local onde pretendíamos realizar o estudo. A maior parte dos sujeitos que se permitiram participar estavam amparados por seu local de trabalho e seu papel de trabalhador. Assim, esse lugar se constituiu o espaço no qual conseguimos maior acesso e contribuição desses sujeitos.
As dinâmicas entre os gêneros são construções humanas arquitetadas durante séculos. Ser mulher ou ser homem são caminhos diferentes. Nossa experiência nos mostrou que no grupo masculino existe uma dificuldade maior em se deixar conhecer. Desse modo, há necessidade de ampliar nossas posturas, nossos recursos e as possibilidades de nossos olhares
e, assim, contribuir de maneira efetiva – especialmente, quando o caminho escolhido passa pelo desenvolvimento de pesquisas no campo da psicologia clínica.
As diferenças entre o sujeito em sobrepeso e os sujeitos obesos e, mesmo, as similaridades entre os graus mais severos da obesidade, também, podem se constituir pontos importantes em futuros estudos, na elaboração de estratégias de tratamentos e no planejamento de ações preventivas.
Na construção da história da obesidade, cada sujeito, em sua singularidade, nos levou a compreender que o corpo movimenta-se, abre, tritura, engole, digere, absorve, acumula. Farta-se, mas a alma continua diante do vazio. O corpo concreto não é capaz de digerir as frustrações, os receios e as necessidades afetivas. Assim, independente do cenário de excessos (abuso de alimentos, de comportamentos, diversidade de sofrimentos, necessidades etc), o caminho que esses obesos percorrem é o espaço da falta e da insatisfação. Eles evidenciaram que, em muitos momentos, apenas repetem processos cristalizados. Então, permanecem estagnados.
Embora as proporções corporais geradas na obesidade, entre outras coisas, possa representar uma tentativa de preenchimento diante das necessidades emocionais, inevitavelmente a pessoa retorna ao vazio. E, apesar da associação equivocada, entre força e excesso de peso, quando um homem engorda, muitas vezes, a coluna se deforma, os joelhos se desgastam, o corpo roliço penaliza e reduz suas possibilidades e, ainda, provoca alterações na relação com seu corpo.
Vale ressaltar que, outro complicador para a obesidade masculina é que, em estágios mais avançados da obesidade, a mobilidade é comprometida e o excesso de gordura, geralmente, fica concentrado na barriga. Além dos riscos à saúde e do comprometimento do funcionamento fisiológico, em alguns casos, sobretudo, mediante a obesidade mórbida, a barriga pode encobrir à visão de toda a parte inferior do corpo. Logo, oculta também o pênis
para o próprio indivíduo. E, mesmo frente ao espelho, a pessoa vê um corpo enorme e um pênis que não é proporcional. Seu membro fica diminuído, justamente o órgão que é símbolo da masculinidade.
Quais os desdobramentos desse olhar em sua relação com seu corpo? Com sua sexualidade e a prática da atividade sexual? O aumento da barriga recebe algum papel em seu mundo interno? Há conflitos anteriores à situação de obesidade que impulsionam os homens ao uso da barriga para ocultamento do pênis, da condição masculina?
O trabalho que foi possível desenvolver, neste estudo, não possibilitou que a relação com o corpo e a sexualidade fosse mais explorada, mesmo diante da diversidade de experiências, generosamente, dividas por meio da história de cada sujeito desse grupo. Provavelmente, encontraremos questões diversas em cada homem. Elas devem ser entendidas em sua psicodinâmica. E, podem ser exploradas em estudos futuros que foquem esses aspectos.
A história do acúmulo de peso no organismo pode abarcar lembranças de excessos alimentares, momentos de compulsão alimentar, de situações com sofrimento, imersas em angústia. Ela se mostra depositária de questões individuais e socioculturais. Mas, só se torna capaz de “alimentar” as necessidades humanas, se proporcionar a ampliação da consciência e/ou se, em alguma medida, for criativa. Ao contrário, o contato com o conflito emocional que a envolve fica postergado. O indivíduo permanece na angústia, sem elaboração, sem transformação, sem ampliar suas possibilidades e recursos internos.
Desse modo, compreendemos que a obesidade pode ser vista como um sintoma. A função do sintoma, principalmente na teoria psicanalítica, está situada em uma perspectiva diferente da prática médica. Ele deixa de ser um corpo estranho a ser erradicado, para se tornar algo que demanda compreensão em sua etiologia. E se mostra fonte de importantes
conhecimentos sobre fatores que influenciam em sua constituição, instalação, manutenção e prognóstico.
Há uma situação complexa fisiológica, psicológica, social e situacional envolvida, que deve ser compreendida. Diante do contexto que nos encontramos, o excesso de peso pode se configurar como um fator de sofrimento para aqueles que se desviam das normas estéticas e da ilusão do corpo perfeito.
Embora aquilo que se configure em uma necessidade de cuidar e investir em aspectos da condição humana e do contexto sociocultural represente um grande desafio, precisamos saber mais sobre os aspectos que corroboram para o aparecimento da obesidade em proporções epidêmicas.
Alguns elementos, do nosso contexto atual, envolvidos em reflexões sobre qualidade de vida e saúde mental também merecem ser discutidos e direcionados ao tema específico da propagação da obesidade, entre eles estão: o sentimento de solidão individual, a sensação de vazio, os fenômenos que favorecem o empobrecimento das inter-relações, os modos de dedicar cuidados a si, o consumismo, o hedonismo e a presença de comportamentos e situações alienantes.
Por outro lado, com o aumento da prevalência da obesidade os profissionais da saúde, cada vez mais, são chamados ao encontro dessas pessoas. Para isso, é crucial a formação desses profissionais e que eles, principalmente os especialistas em saúde mental, tenham condições de entender a natureza da obesidade, seu relacionamento com o funcionamento mental e o papel que exerce na relação que os indivíduos podem construir com seu corpo.
Este estudo evidenciou, ainda, que nas estratégias de tratamentos voltadas aos obesos, torna-se importante levar em conta os aspectos psicodinâmicos. Assim, facilita-se que eles sejam reconhecidos pelo sujeito e, se possível, elaborados. Desse modo, é possível sair da repetição e encontrar saídas criativas para suas demandas.
Contudo, também, torna-se válido pontuar que existe uma tendência do próprio obeso em tomar para si o ônus do fracasso dos tratamentos. Em muitos casos, será preciso construir novos caminhos, que realmente envolvam quem irá percorrê-lo. Por outro lado, os indivíduos, também, têm direito a um corpo fora dos padrões estéticos atuais e, até das classificações da área da saúde e é deles a decisão de como lidar com o próprio corpo. Porém, para que haja possibilidades reais de escolha, torna-se necessário que as opções e consequências sejam claras e que o sujeito esteja consciente do contexto que o envolve, em especial, os conteúdos afetivo-relacionais. Desse modo, é preciso que o olhar esteja voltado para o humano e suas condições – na tentativa de encontrar suas verdadeiras demandas.
Outra sugestão é que a atenção multiprofissional seja mantida a médio e a longo prazo – pois, nesses momentos, as dificuldades costumam conduzir ao abandono do cuidado dedicado a si. O planejamento da estratégia de tratamento, entre outros elementos, deve procurar envolver: a singularidade do sujeito e a psicodinâmica, o contexto socioeconômico e cultural, os elementos disparadores para o aumento de peso e o funcionamento do processo da obesidade.
Além disso, algumas medidas poderiam prevenir a obesidade e seu avanço. Mostra-se válido dedicar atenção às crianças e suas necessidades afetivo-relacionais. E, ainda, incluir orientação aos pais e aos responsáveis pelo acompanhamento do desenvolvimento infantil.
Nosso estudo propõe, sobretudo, que o tema seja discutido, que as pessoas sejam convidadas a refletir, a ampliar o conhecimento que possuem, a olhar para as dificuldades e as potencialidades. A proposta, em especial, é para que homens e mulheres possam construir histórias criativas.
Como incentivo, antes de finalizar este trabalho vamos dividir outra história. Era uma vez... A história de quatro sujeitos, que trouxeram muitas coisas, de vários lugares.
Para o olhar de uma pesquisadora, eles ofereceram uma imagem, que levou a escolha de árvores, para compor os nomes fictícios de Carvalho, Pinheiro, Jatobá e Oliveira, os quais já foram apresentados.
Na tentativa de arranjar em palavras esse conteúdo, ela percebeu que uma árvore... Pode passar das medidas e incomodar... Pode dar frutos ou não.
Cada uma possui algo de seu, que é inconfundível, que a diferencia entre todas as outras – um Jatobá nunca será um Carvalho, de um Pinheiro não teremos olivas – mas, existe aquilo que é comum a todas.
As cicatrizes, uma promessa de amor, as possibilidades de crescimento, a falta de cuidados, o ambiente favorável ou hostil, os excessos e as faltas, de algum modo, ficam impregnados e refletem em sua história.
O tempo passa... Mas, de algum modo, há algo que as prende. Se não houver uma transformação, elas permanecerão no mesmo lugar – presas a “terra-mãe”...
E, mesmo, que o ambiente seja cuidador, para nutrir-se, elas terão, necessariamente, que trabalhar em favor de si. Essa história conta que... Essencialmente... Uma árvore pode rasgar o vazio e encontrar a vida.
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