A situação do trabalhador acidentado, em relação à empresa, apresenta algumas diferenças em relação ao portador de uma doença ocupacional, especialmente as que têm um
importante componente psicossomático como é o caso das Lesões por esforços Repetitivos (LER). Essas lesões a partir do final da década de 80, tornaram-se a doença ocupacional mais freqüente nos afastamentos do trabalho; de certa forma, elas passaram a ocupar o lugar que os problemas de coluna tinham nas décadas anteriores. A informatização no trabalho, a utilização desregrada e sem adaptação ao computador, a digitação “selvagem”, exigem um esforço exaustivo dos tendões do braço, resultando na inflamação. Com o passar do tempo a situação se agrava precipitando o afastamento do trabalho e, em muitos casos, limitações do movimento.
A diferença entre o acidente e a doença ocupacional é que o primeiro deixa, em geral, seqüelas visíveis e dramáticas; a doença, especialmente as com forte componente psicossomático, têm como principal sintomatologia a dor, que só o sujeito sente, que ninguém vê e muitos descrêem. A situação deste trabalhador é incômoda, não só incômoda, é muito difícil.
O portador de LER, quando ainda não está afastado do trabalho, produz menos, sobrecarregando os colegas, que sentem as dificuldades do outro como regalias. Elas geram raiva e não raro inveja. Paira no ar uma atmosfera de desconfiança: será que ele está mesmo doente? Muitas vezes, o agravamento dos sintomas é uma forma inconsciente de responder a essas desconfianças. O doente acaba por introjetar as desconfianças do ambiente e, assim, precisa reafirmar a doença ( não só para os outros, sobretudo para si próprio, intensificando os sintomas). Nestes casos, os desdobramentos da doença se referem mais às relações no ambiente de trabalho do que propriamente à atividade exercida. (Durand, 2000, p.38)
Observamos um paradoxo: a vítima da doença é penalizada por contraí-la.
O sujeito é discriminado e isolado, pelos colegas - que estão expostos às mesmas condições de trabalho e podem como ele ficar doentes - e pelo chefe. Essas condutas configuram uma forma implícita um castigo, como se ele fosse o responsável pela doença. Há algo de perigoso no ar, o portador de LER recebe tratamento equivalente a de um tabu.
Todos pressentem que devem se afastar porque o tabu tem a força do contágio. Não se trata, evidentemente, de um contágio material, mas da possibilidade do contágio psíquico.
Em Psicologia das Massas e análise do Ego, Freud descreve o mecanismo da identificação pelo sintoma, como uma forma de identificação histérica. Os membros de um grupo podem se identificar com alguém do grupo que adoeceu, quando participam dos desejos inconscientes que estão na raiz do conflito que desencadeou a doença.
Existe um terceiro caso, particularmente freqüente e importante, de formação de sintomas, no qual a identificação deixa inteiramente fora de consideração a relação de objeto com a pessoa que está sendo copiada. Suponha-se, por exemplo, que uma das moças de um internato receba de alguém de quem está secretamente enamorada uma carta que lhe desperta ciúmes e que a ela reaja por uma crise de histeria. Então, algumas de suas amigas que são conhecedoras do assunto pegarão a crise, por assim dizer, através de uma infecção mental. O mecanismo é o da identificação baseada na possibilidade ou desejo de colocar-se na mesma situação. As outras moças também gostariam de Ter um caso amoroso secreto e, sob a influência do sentimento de culpa, aceitam também o sofrimento envolvido nele. Seria errado supor que assumem o sintoma por simpatia. ... A identificação por meio do sintoma tornou-se assim o sinal de um ponto de coincidência entre os dois egos, sinal que tem de ser mantido reprimido. (Freud, 1921, pp 136-7)
A dor no corpo é complexa porque se compõe de fatores não só corporais, ela expressa também a dor de uma outra natureza de queixa, que não tendo a quem se dirigir, não tem como ser verbalmente formulada. São queixas relativas às condições de trabalho, que dizem respeito a todos que compartilham como ele as mesmas condições; esta situação compartilhada propicia a identificação dos colegas com o sujeito doente, no inconsciente doença e queixa se equivalem, o sentido da doença condensa o da queixa. Desconhecemos a existência na organização funcional da empresa de um órgão destinado a receber, encaminhar e processar essas queixas. Via de regra, elas se destinam à enfermaria e são tratadas com analgésicos, quer dizer, escoam no nada.
O sujeito que adoece sofre pressão, ameaça (de perder o emprego), e, além disso, carrega um forte sentimento inconsciente de culpa. Este costuma ser dentre todos os outros, o foco mais doloroso e que apresenta maior dificuldade de compreensão. O esclarecimento do processo não acontece tomando-se em consideração apenas uma pessoa, sabemos que os conflitos aparecem nas pessoas e nas relações entre elas, mas para compreendê-los, muitas vezes, é preciso reconhecer a dinâmica de processos psíquicos inconscientes no grupo, este é o espaço onde transitam e acontecem os elementos psíquicos do âmbito organizacional, transubjetivo, em que as pessoas são parte mais constituinte que determinante.
O grupo ... constitui essa parte de cada um que faz com que ele se torne sujeito de uma rede de outros ... O grupo cumpre funções específicas na organização da realidade psíquica dos seus sujeitos, situo esta influência estruturante numa rede de relações intersubjetivas onde cada sujeito ocupa um certo lugar predisposto pelo conjunto ( Kaës, 1995, p. 130, tradução livre).
A doença revela de uma forma não verbal as queixas (de todos) que permanecem latentes no dia a dia de trabalho. É como se o sujeito carregasse, sem saber, a bandeira da insatisfação de todos. Aqui reside o potencial de contágio psíquico e por isso ele deve ser isolado e penalizado. O sentimento inconsciente de culpa do trabalhador que adoece é
a expressão psíquica e emocional da dimensão política inerente à doença ocupacional.
O sentimento inconsciente de culpa do trabalhador doente é conseqüência do ônus desta dimensão que ele expressa, à revelia da sua intenção pessoal e da sua consciência. Mesmo desconhecendo a natureza política do fenômeno, a sua doença funciona, na lógica da organização do trabalho, como uma bandeira cujo símbolo expressa as tensões entre capital e trabalho, promovendo o ponto de vista de quem trabalha.
O lugar do trabalhador doente é muito difícil e profundamente incômodo, a sua doença exacerba as tensões ambientes; além do sofrimento próprio da doença, ele sofre as
conseqüências do que inevitavelmente promove, porque a interpretação do sentido
político da doença não depende dele, mas da lógica própria dos processos psíquicos da empresa. Resulta, em grande parte dos casos, um aumento da sintomatologia dolorosa
– são muitas as dores que afetam o órgão fragilizado. Esta é uma tentativa desesperada e desastrada de se proteger. Evidentemente, essa dinâmica só faz piorar uma situação já suficientemente complicada.
A condição de vítima (da doença), o coloca na posição de réu. O sofrimento indizível é o mais dramático, é o que é produzido no olho do paradoxo. Ele é vítima quando prevalece a perspectiva própria – intrasubjetiva – , réu na relação intersubjetiva (será que está mesmo doente?) e culpado do ponto de vista dos processos psíquicos transubjetivos, os que correspondem à estrutura que organiza os vínculos, obedece à lógica da empresa, onde a perturbação do trabalho conturba a ordem estabelecida.
O nível transpsíquico é especificamente aquele onde se juntam os laços entre cada um e o conjunto, em seus valores e em suas funções psíquicas (narcísicas, de apoio, de defesa, de significação, de depósito, de contenção). Estes pontos de junção constituem o pano de fundo dos espaços psíquicos intersubjetivos.
(Kaës,1995, p.136. Tradução livre)
Os vínculos no trabalho devem ser investigados como fatores constituintes da estrutura que organiza a empresa, suas finalidades, seus procedimentos e as relações entre as pessoas. Esta estrutura condensa ressonâncias psíquicas de aspectos sociológicos, econômicos e políticos relativos às tensões entre capital e trabalho. As repercussões destas
determinações estruturais explodem nos indivíduos, mas a origem destes processos é supra pessoal, pertence à estrutura que organiza material e simbolicamente os acontecimentos em uma empresa.
A doença é o resultado material de condições de trabalho adversas, e ao mesmo tempo,
sintoma psíquico destas condições. São duas ordens do real que se interpenetram resultando um fenômeno complexo. O trabalho de análise distingue entre diferentes
dimensões da realidade e diferentes espaços psíquicos, heterogêneos quanto à lógica que os constituem.
Esses casos requerem mudança de função e mudanças na organização do trabalho: é prejudicial à saúde uma parte do salário estar vinculada à produção, o excesso de horas extras e, sobretudo, utilizar o medo do chefe, em última análise o medo de perder o emprego, como motor da produção. Essas são práticas antigas que coexistem, às vezes na mesma empresa, com alternativas mais sadias de organização do trabalho e relacionamento com os empregados.