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Freeform modeling

In document Dynamic Remeshing and Applications (sider 82-85)

The Remeshing Framework

4.4 Interactive Multiresolution Modeling with Changing Connectivity

4.4.1 Freeform modeling

Desconfia do mais trivial, na aparência singela. E examina, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceite o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar (BRECHT, 2011).

A epígrafe anuncia aquilo que buscamos ver não de forma natural e na aparência singela de uma educação que trabalha com as diferenças, com o cotidiano, com o interesse dos alunos, com a negociação de significados, com o subjetivismo e o deixar-fazer livremente. Ao aprofundarmos nosso olhar, podemos detectar certos aspectos das ideologias pós-modernistas e suas vertentes na educação, assim como, também, a sedução que faz com que as pessoas se envolvam pela simples aparências e ―novidade‖.

Essa ideologia é tão sedutora que se coloca como um pensamento de esquerda enquanto prima pelo modo de pensar da direita, tornando-se, assim, incoerente na medida em que o defendido por ela, como mostraremos aqui, é absolutamente incongruente com um processo de revolução socialista. Podem, inclusive, até mesmo criticar o capitalismo, o neoliberalismo e suas influências na educação, mas, na verdade, defendem posições que contribuem para a manutenção da atual sociedade, como, por exemplo, a defesa do conhecimento espontâneo em detrimento ao mais desenvolvido no ambiente escolar. Essa corrente se assume, em muitos casos, como de esquerda ou por aqueles que se denominam de esquerda, mas ―[...] ainda que afirme sua filiação à tradição política de esquerda, tal agenda se aproxima e/ou fortalece, muitas vezes a contragosto de seus anúncios, posições conservadoras‖ (FONTE, 2010, p. 40).

Concordamos que a sociedade burguesa deve ser superada e que o aluno deve ter autonomia, mas o que propõe o pensamento pós-moderno não passa de uma grande enganação à classe trabalhadora que, em grande número, advoga pelas convicções pós- modernistas.

A falta de análise a partir de teorias abstratas em defesa da naturalização ou de opiniões em detrimento a um conhecimento melhor e mais desenvolvido que nos liberte de cada cotidiano alienado; a barbárie promovida pelo relativismo cultural em que, segundo os teóricos pós-modernos, não há verdade, mas verdades em cada cotidiano e não um

pensamento universal mais desenvolvido que possa contribuir para a humanização do homem e sua emancipação são bastante difundidos no meio educacional, além de outros.

Independente de admitir ou não a existência da efetividade em-si, a agenda pós- moderna a considera incognoscível. Nesse sentido, a realidade é definida por grupos, convenções, interpretações, acordos linguísticos, discursos, ou seja, em termos de ações/operações humanas (FONTE, 2010, p. 44).

O pensamento pós-moderno

O pós-modernismo ou o pensamento pós-moderno possui muitas vertentes e definições. Contudo, independentemente de sua vertente, é importante ressaltar que tal pensamento será uma expressão dos interesses do poder dominante, isto é, do capitalismo. Maia e Oliveira (2011) afirmam que o capitalismo

Representa apenas os interesses do poder econômico que domina a sociedade atual, designando-a seja como a lógica cultural do capital, como pensa Jameson, seja como o mundo dos negócios, segundo a propositura de Eagleton, ou um novo momento pelo qual passa o capital, afundado em uma crise estrutural sem precedentes, como defende Mèszàros (p.81).

Evidentemente, como podemos ler, e como o pensamento pós-moderno representa teoricamente o capitalismo atual, logo esse pensamento não passa de uma ideologia que tem como objetivo a manutenção do poder econômico nas mãos dos detentores do grande capital financeiro e que, para isso, utiliza-se de ilusões para convencer boa parte dos movimentos sociais devido possuir um discurso sedutor e disfarçado de democrático e transformador. Deste modo, consegue alcançar várias searas da sociedade com o intuito de disseminar todas as suas crenças e, ao mesmo tempo, fundar essa indefinição quanto ao que seria sua real intenção. Porém, suas reais características e objetivos se sobressaem:

É comum hoje em dia encontrar o uso do termo pós-modernidade em campos diversos da atuação humana. Talvez isso explique o fato da inexistência de consenso, marcada, sobretudo, por uma nítida atitude de negação, um questionamento sobre a validade absoluta das dimensões fundamentais que marcam a existência humana, a saber, a epistemológica, a ética, a política, a econômica, entre outras. O que caracteriza sobremaneira o pensamento pós-moderno é a idéia segundo a qual não existem verdades absolutas, tudo é relativizado. Com isso, os pós-modernos pretendem eliminar do campo da teoria explicações dominantes, visões de mundo acabadas. O resultado de tal postura é uma abertura ilimitada à multiplicidade dos discursos. Não existe um télos absoluto que rege a realidade, mas indivíduos, culturas, teorias. Os que se posicionam a favor da pós-modernidade alegam que a mesma é fruto do desencanto com o século XX, com suas guerras, catástrofes, extermínios em massa, só para citar alguns acontecimentos que imprimiram no homem um sentimento de niilismo, de total descrença na racionalidade, nas ciências e nas tecnologias. (MAIA; OLIVEIRA, 2011, p.82).

O relativismo é quase que a palavra de ordem nesse pensamento, objetivando uma ode à fragmentação, a desunião descarada e ao esfacelamento de um movimento maior que tem o

intuito definido de que podemos mudar e superar a atual ordem social se pautado em teorias abstratas e altamente desenvolvidas. Mas prioriza conhecimentos fragmentados que possibilitam entendimentos ilusórios ou parciais fazendo-nos acreditar que a realidade pode ser mudada de forma inconsciente, desorganizada e pautada em opiniões vinculadas ao cotidiano. Os debates e os movimentos sociais girariam em torno da pura doxa e sofia:

A esse respeito, é ilustrativo o modo como os gregos consideravam essa questão. Em grego, temos três palavras referentes ao fenômeno do conhecimento: doxa (doxa), sofia (sojia) e episteme (episthmh). Doxa significa opinião, isto é, o saber próprio do senso comum, o conhecimento espontâneo ligado diretamente à experiência cotidiana, um claro-escuro, misto de verdade e de erro. Sofia é a sabedoria fundada numa longa experiência da vida. É nesse sentido que se diz que os velhos são sábios e que os jovens devem ouvir seus conselhos. Finalmente, episteme significa ciência, isto é, o conhecimento metódico e sistematizado. Conseqüentemente, se do ponto de vista da sofia um velho é sempre mais sábio do que um jovem, do ponto de vista da episteme um jovem pode ser mais sábio do que um velho (SAVIANI, 2010, p. 29).

Ao mantermo-nos em debates de problemas superficiais surgidos a partir da doxa a resolução do problema maior que faz a humanidade sofrer que é o capitalismo. Quando qualquer um posiciona-se assim como os ideólogos do pós-modernismo, passa a considerar-se como sem condições de enfrentar e transformar as contradições intrínsecas ao capitalismo. Duarte (2006, p. 610) nos diz que

O pós-modernismo não tem condições de lidar adequadamente com a contradição, inerente à sociedade capitalista, entre a universalização da riqueza material e intelectual e o total esvaziamento das relações sociais. Uma das saídas encontradas pelos pós-modernos tem sido a de construir discursos que misturam a eternização do esvaziamento próprio da cotidianidade contemporânea a visões românticas de um passado ressignificado livremente pela subjetividade fragmentada do indivíduo pós- moderno. Há também, no interior do pós-modernismo, tendências que procuram reagir ao esvaziamento por meio da defesa do relativismo cultural e do discurso que faz da diversidade um princípio ético.

A condenação de uma cultura universal e das abstrações ou dos conhecimentos mais desenvolvidos surge da alegação de que estes foram os principais causadores das desgraças ocorridas no século XX como, por exemplo, as Guerras Mundiais, o Holocausto, as Ditaduras na América Latina e as Guerras no Oriente Médio, além de outras. E condenam a racionalidade por tudo esquecendo que de fato quem provocou estas catástrofes foi ausência de uma razão, ou seja, a irracionalidade tão pregada pelo pós-modernismo.

Assim, existe uma negação de uma cultura universal, pela condenação da transmissão do conhecimento científico pela escola, como se ela tivesse a função de aniquilar nossa individualidade ou o nosso processo de individuação ou, ainda, como fala Duarte (2006):

É como se a transmissão do conhecimento científico pela escola pudesse contaminar a subjetividade de crianças, adolescentes e jovens da classe dominada com uma

espécie de vírus propagador de paradigmas supostamente superados pela assim chamada ‗pós-modernidade‘, matando nas novas gerações qualquer espírito de curiosidade, criatividade, valorização da diversidade, espírito crítico e autonomia intelectual (DUARTE, 2006, p. 615).

Torna-se uma contradição quando a crítica a transmissão do conhecimento é realizada ao mesmo tempo em que a manutenção de determinados aspectos daquilo que chamam de escola tradicional ainda são, frequentemente, repetidos por seus próprios críticos. Isto é, por um lado existe a idealização de um cotidiano livre da cultura que chamam de burguesa ou do colonizador e, por outro, o atrelamento dos conteúdos científicos a cultura burguesa. Continua o autor:

A idealização romântica está nessa própria idéia que existe um cotidiano no qual a cultura popular existe sem a intervenção colonizadora da cultura burguesa. É curioso que relativistas culturais argumentem contra a distinção entre alta cultura e cultura de massas, não se cansem de valorizar os fenômenos da cultura popular e não considerem ser um problema a influência marcante sobre essa cultura exercida pelos meios de comunicação de massa, mas quando se trata de transmissão do conhecimento científico pela escola, esses intelectuais não revelem a mesma confiança na criatividade e na capacidade de ‗ressignificação‘ por parte do povo. [...] No entanto, há uma incoerência bastante grande em tudo isso: se os conteúdos científicos ensinados pela escola tivessem o poder de dominar de forma tão profunda as mentes dos alunos, se a transmissão de conhecimento tivesse o poder de alienar tão profundamente os alunos, então por que, durante todo o século XX e continuando neste início de século XXI, os críticos da assim chamada ‗escola tradicional‘ têm repetido à exaustão que o ensino praticado nessa escola limita-se à memorização e ao verbalismo e, além disso, por seu caráter essencialmente livresco, esse ensino transcorreria de maneira totalmente divorciada da vida real dos alunos? Como pode uma educação escolar com essas características ter o poder de influenciar negativamente de maneira tão forte a mentalidade dos alunos? (DUARTE, 2006, p. 615-616).

Duarte (2006, p.615) afirma ainda que ―Não é por acaso que as pedagogias mais difundidas atualmente valorizem tanto a subordinação das atividades escolares a interesses e necessidades surgidos espontaneamente na cotidianidade dos alunos‖ já que estão favoráveis ao interesse do capital. Fonte (2010) vai dizer que o pós-modernismo utiliza-se de diversas correntes intelectuais para alcançar seus objetivos, mas que possuem aproximações e semelhanças:

Reconheço que tomar o pós-moderno como uma agenda ampla, que inclui diversas correntes intelectuais contemporâneas, é um procedimento passivo de críticas, em especial por aqueles que buscam evidenciar diferenças entre correntes. Peters (2000) distingue, por exemplo, pós-estruturalismo e pós-modernismo em termos de contexto de surgimento e formulações teóricas. Ele afirma que o pós-estruturalismo é uma resposta filosófica que começa na França, no início dos anos de 1960, marcada pelo questionamento radical do sujeito humanista, reação ao hegelianismo, crítica da razão e dos valores iluministas, entre outros. Já o pós-modernismo é, segundo o autor, uma resposta estética que se desenvolve a partir do contexto do alto modernismo. Porém, como mencionado, já existem, no campo acadêmico, tentativas de aglutinar essas formas teóricas e/ou sugerir aproximações entre elas, sob o rótulo de teorizações pós-críticas. Com o termo ‗agenda pós-moderna‘, acompanho esse

movimento e sugiro um eixo comum compartilhado por essas diferentes perspectivas. Não se trata de igualá-las em suas proposições, mas de indicar que, na diversidade de seus argumentos, podem ser identificadas algumas aproximações e semelhanças que, a meu ver, manifestam a atmosfera político- intelectual vigente (FONTE, 2010, p. 50. Grifos nossos).

A atmosfera político-intelectual pós-moderna tem diversas aproximações mesmo apresentando uma diversidade de argumentos. Podemos afirmar que os distanciamentos existem por parte daqueles que não comungam da mentalidade pós-moderna, mas de uma mentalidade marxiana. A concepção marxiana comunga da idéia de que vivemos numa sociedade de contradições, que não são naturais, ocasionada pela lógica do capital, contradições que geram tensões sociais.

Uma contradição presente na sociedade capitalista é a de produzir riquezas universais ao mesmo tempo em que universaliza a alienação: o ser humano produz, mas não consegue realizar-se plenamente por não conseguir se apropriar dos meios de produção, pois é alienado de sua produção. Nas sociedades pré-capitalistas o homem era dono dos meios de produção, mas não era pleno por ter uma relação limitada e localista com o mundo devido sua vida se limitar a sobrevivência e ao imediatismo. O capitalismo não se limita a isso, porém, mantém muitas pessoas neste estagio. Mas a socialização das riquezas universais, que são fundamentais para a superação da alienação humana, é a grande necessidade e a continuidade da história, assim como uma das condições necessárias a superação do capitalismo.

Então, a hipótese de retorno ao passado ou de fim da história, o que em muitos momentos estão intensamente presentes no pensamento pós-moderno, mostra a sua falta de condição para lidar com as diversas contradições dessa sociedade de classes. Sobre a contradição no capitalismo e a nostalgia pelo passado pré-capitalista, Duarte (2006) afirma:

Marx analisou com precisão e profundidade essa contradição entre, por um lado, a universalização da alienação, decorrente da universalização do valor de troca como mediação entre os seres humanos e, por outro lado,a criação de uma riqueza universal, de relações sociais universais e de capacidades humanas universais. A criação pelos seres humanos de forças universais, isto é, a amplitude cada vez maior do processo de objetivação do gênero humano, produz como efeito colateral uma certa nostalgia do passado pré-capitalista, pois pareceria que nesse passado os indivíduos conseguiriam realizar-se mais plenamente em comparação com o esvaziamento a que está submetido o indivíduo na sociedade capitalista. Essa aparência de maior plenitude do indivíduo da sociedade pré-capitalista resulta do caráter limitado e localizado das relações que o indivíduo tem com o mundo. No entanto, Marx considerava a nostalgia desse passado tão ridícula quanto acreditar que a história teria chegado ao seu fim, teria estancado para sempre nesse esvaziamento total. Esse esvaziamento,resultante da universalização do valor de troca como mediação social, manifesta-se, entre outras maneiras, de uma forma particularmente intensa no poder universal assumido pelo dinheiro, o representante abstrato e universal da atividade de trabalho na sociedade do capital (DUARTE, 2006, p. 610).

Como podemos ler, mesmo nas sociedades anteriores ao capitalismo o homem não se encontrava pleno, não cabendo, assim, viver na idealização de que nas sociedades anteriores o indivíduo vivia plenamente satisfeito de suas necessidades. É necessário reconhecer a sociedade que não nos faz viver plenamente, mas vazios para que saibamos que uma sociedade plena é possível e o retorno ao passado é tão ridículo quanto afirmar que a historia acabou, pois as duas hipóteses além de absurdos não nos tornariam plenos.

Outra característica fulcral do pensamento pós-moderno é o combate a teoria ou a metanarrativa. Fonte (2010, p. 40) afirma, a partir de Moraes (2003) e Loureiro (2007), que houve um recuo da teoria nas pesquisas educacionais e um ―duplo processo de aversão à teoria e indigência da prática educativa‖. E que isso ocasionou a relativização da realidade, pois, de acordo com esse processo, não haveria a realidade concreta ou caso o conhecimento da realidade fosse tido como possível, seria inacessível. A realidade, assim, somente pode ser acessada ou conhecida pelo olhar de cada cultura ou por convenções e acordos linguísticos. Isso seriam as realidades. O autor continua dizendo que ―[...] a realidade é definida por grupos, convenções, interpretações, acordos linguísticos, discursos, ou seja, em termos de ações/operações humanas‖ (p. 44). Ao afirmar a não existência da realidade o pensamento pós-moderno impede por um lado, o conhecimento da realidade e, por outro, sua transformação.

Nesse sentido, conhecer a realidade ou uma totalidade social universal seria algo opressor devido não respeitar as diversas formas de se conceber a realidade. A linguagem, agora, assume uma posição de grande importância, pois como as coisas não podem ser conhecidas pela teoria, tudo é validado pela forma como são ditas e passam a ter mais valor do que a própria verdade.

O próprio fato de o autor usar o termo ‘metáforas‗ para se referir a idéias centrais desta ou daquela abordagem mostra que para ele tudo se resume a uma comparação entre diferentes discursos, pois a metáfora é um recurso discursivo. Provavelmente o autor prefere usar o termo ‘metáfora‗ em vez do termo ‘conceito‗, pois este poderia levar à idéia de uma representação mental de algo que tenha existência objetiva e poderia também levar à idéia de uma teoria na qual os vários conceitos articulam-se de foram coerentes, numa relação parte e todo. Ora, tanto a idéia de representação verdadeira do real como a de uma teoria que racionalmente articule conceitos numa totalidade são idéias estranhas ao universo pós-moderno. Já a idéia de metáfora não exige correspondência com uma realidade objetiva nem articulação lógica coerente no conjunto de um todo, sendo apenas um recurso discursivo que desperta nos sujeitos imagens e associações (DUARTE, 2001, p. 131).

Como a teoria que articula conceitos em uma totalidade é vista com estranheza no universo pós-moderno, a linguagem e seus recursos discursivos passam a ser a condição para a comprovação da realidade. E a linguagem se estabelece como o retorno para antes da

filosofia: para o sofismo em que o debate reduz-se a simples e pura disputa de argumentos e oratórias para a arte do convencimento. A partir de agora ganha o direito de ter a verdade aquele que for o vencedor no jogo da linguagem. Então, a verdade é a do grupo vencedor, podendo numa próxima disputa deixar de ser verdade. A linguagem também passa a ser mais um recurso usado pelo pensamento pós-moderno, nas palavras de Fonte (2010):

A conversão da filosofia na busca de modos melhores e mais interessantes de falar (muito característica da ‗virada linguística‘) contribui para colocar na ordem do dia um debate clássico na tradição filosófica: a distinção entre o filósofo e o sofista. De maneira mais precisa, ela simboliza, nos dias atuais, a revanche da sofística contra a filosofia. Não por acaso, proclama-se atualmente a ontologia como um efeito do dizer, o discurso como fabricação do real e a impossibilidade de distinguir o falso do verdadeiro (pois, tão logo o falso é dito, ele é tanto como o verdadeiro). Ou, em um nível mais avançado, apresenta-se a proliferação do discurso a partir de si mesmo como uma espécie de palimpsesto, reivindica-se a ficção, assume-se o estilo oracular, promove-se a descompartimentação dos gêneros discursivos (o que implica não diferenciar o uso filosófico e o literário da língua) e se anuncia a era da hermenêutica. Diante do forte apelo midiático, das promessas de benesses do mercado, da proclamação do fim dos projetos revolucionários, do decreto de falência da razão, do predomínio de posturas céticas e relativistas, o efeito sofístico não seria o fim perseguido pelo intelectual deste novo tempo? Nesse caso, talvez se deva atentar para o fato de que, sob discursos sobre pluralidade e participação política, se está, na verdade, na presença de uma nova versão daquela figura caracterizada por Platão (1987) como caçador interesseiro de jovens ricos e comerciante em ciências, que transforma a política na arte da eloquência e a produção do conhecimento em treinamento retórico sem compromisso com a verdade (FONTE, 2010, p. 38. Grifos do autor).

Se a verdade depende de disputas linguísticas, de pontos de vistas e/ou de opiniões e não de algo para além da irracionalidade, isso quer dizer que, na realidade, verdades e realidades podem existir aos milhares assim como não existir e até mesmo ser inatingíveis. Tudo isso evidencia a apologia à fragmentação e do pensamento e da cultura em detrimento ao universal e mais desenvolvido. Segundo Fonte (2010):

[...] há um aspecto na compreensão de ciência da agenda pós que merece destaque, pois revela um fenômeno bastante disseminado: um ceticismo na produção do conhecimento que se traduz pela máxima de que nossas representações e esquemas conceituais constituem o real. O ceticismo epistemológico reinante se nutre da postura antirrealista e relativista: a realidade é incognoscível, ou porque ela não existe, ou porque ela não passa de uma descrição ou convenção de uma comunidade. Aqui chegamos ao fio de Ariadne da agenda pós-moderna. Segundo Nanda (2002), o antirrealismo e o relativismo são os dois lados da falácia filosófica básica subjacente a todo pensamento pós-moderno: a tendência em afirmar que toda realidade é interna ao nosso sistema de representação e que, fora dela, tudo é

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