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Fred, forsoning og nedrustning, og et styrket FN

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Comentamos aqui a respeito da tendência em Murilo Mendes à sobreposição de imagens notoriamente distintas, muitas vezes consideradas opostas, à maneira surrealista; essa tendência se manifesta sobremaneira na aproximação da esfera material à imaterial, do concreto ao abstrato. Segundo Manuel Bandeira:

De fato, em tôda a poesia de Murilo Mendes assistimos a essa constante incorporação do eterno ao contingente. E por outro lado a abstração do espaço acaba por abolir a perspectiva dos planos, confundidos todos numa super-realidade, com a tangência do invisível pelo visível. Não se trata porém do super-realismo no sentido da escola francesa: sente-se sempre na poesia de Murilo Mendes a fôrça da inteligência e do coração dominando o tumulto das fontes do subconsciente. Poesia bem de católico, terrivelmente cônscio do pecado original e ao mesmo tempo como que feliz de tôdas as suas fraquezas pelo que elas implicam de amor — um fulgurante amor não só pelos seus semelhantes como por tôdas as criaturas e coisas da Criação. (1954, p. 167)

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Otto Maria Carpeaux concorda: “Não poderia dizê-lo melhor do que com as palavras que dedicou a Murilo Mendes o mestre Manuel Bandeira: ‘Conciliador de contrários — incorporador do eterno ao contingente’. Murilo é um espírito dialético” (1960, p. 198). Essas considerações sobre o poeta mineiro são especialmente interessantes se pensadas nesta leitura:

VIDAS OPOSTAS DE CRISTO E DUM HOMEM

Senhor do mundo,

cada vez que ressucitas um homem, me destruo a mim mesmo. Enquanto o demônio te tenta no deserto

eu sonho com os corpos que a terra criou. Enquanto passas fome e sêde quartenta dias os meus sentidos se desalteram.

Cada vez que cais ao pêso da tua cruz eu caio com uma mulher de última classe.

Enquanto te multiplicas na humanidade não saio dos limites da minha pessoa.

Depois da morte voltas para absolver o justo e o pecador, eu antes da morte já condenei o pecador, o justo e eu mesmo. Senhor do mundo,

me tira de mim para que eu possa olhar os outros e eu mesmo.

Conciliador de contrários: novamente em tom de confissão, já desde o título e do primeiro verso, com emprego de vocativo (“Senhor do mundo”) e da segunda pessoa (“ressucitas”; “te tenta”; “passas”; “cais”; etc.), Murilo Mendes aproxima, no universo do poema, o plano histórico, material, do plano mítico ou religioso, ideal. O sujeito lírico o faz a partir de uma analogia irônica, se é que faz sentido utilizar essa expressão: as imagens que cria colocam lado a lado e em um paradigma muito assemelhado a vida de Cristo e a sua própria; não obstante a semelhança de paradigma (analogia), essas vidas são opostas (ironia), e pode-se argumentar que, dentro de uma cosmovisão cristã, o reconhecer-se como pecador e mau seguidor dos caminhos ideais de Cristo é atitude lícita e mesmo necessária.

Eis como se dão as semelhanças de paradigmas às quais nos referimos. Todo o poema é composto em dísticos que, à excessão do primeiro (“Senhor do mundo,/ cada vez que

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ressucitas um homem, me destruo a mim mesmo”) e do último (“Senhor do mundo,/ me tira de mim para que eu possa olhar os outros e eu mesmo”), seguem a fórmula: no primeiro verso, a atitude ideal em determinado contexto; no segundo, a atitude do homem em contexto muito semelhante. “Enquanto o demônio te tenta no deserto/ eu sonho com os corpos que a terra criou”: ambos, homem e Cristo, estão contextualizados em meio a tentações; “Enquanto passas fome e sêde quarenta dias,/ os meus sentidos se desalteram”: consideração sobre ambos no tocante a sensações físicas; “Cada vez que cais ao pêso da tua cruz/ eu caio com uma mulher de última classe”: ambos em um contexto de “queda”, uma física e outra metafórica; “Depois da morte voltas para absolver o justo e o pecador,/ eu antes da morte já condenei o pecador, o justo e eu mesmo”: as atitudes espirituais de ambos no tocante ao tema do perdão. O emprego reiterado das expressões “cada vez que” (duas vezes) e “enquanto” (três vezes), além de imprimir, aos versos em que se encontram, noções de simultaneidade (corroboram com isso as formas verbais no presente: “ressucitas”, “destruo”; “tenta”, “sonho”; “passas”, “desalteram”; etc), somam-se ao título (Vidas opostas de Cristo e dum

homem) na injeção de uma ideia de comparação entre os contextos. Se é clara a maneira como

essas vidas se opõem, essa oposição baseia-se em alguma semelhança. José Ortega y Gasset escreveu: “Já ensinava nosso bom e velho Aristóteles que as coisas diferentes se diferenciam no que se assemelham, ou seja, em certo caráter comum. Porque todos os corpos têm cor, percebemos que uns têm cor diferente de outros.” (2008, p. 39).

Sobre as oposições, faremos sobre algumas delas apenas breves destaques. Se lermos, com apoio no título, que o sujeito lírico não é propriamente uma pessoa individual, mas “um homem” genérico, o segundo verso, que compõe a primeira oposição (“cada vez que ressucitas um homem, me destruo a mim mesmo”), põe em contraste “ressucitas um homem” e “destruo a mim mesmo”, isto é, manifesta cosmovisão segundo a qual a destruição provém da humanidade, e a salvação, de Cristo. O segundo dístico (“Enquanto o demônio te tenta no deserto/ eu sonho com os corpos que a terra criou”), em que pese a possibilidade de não representar propriamente uma oposição — uma vez que “sonhar” não é, em suas duas acepções mais comuns, exatamente um ato voluntário —, imbui-se de noção contrastiva na medida em que comparamos as ideias de “tentação” (algo a que se deve resistir) e “sonho” (algo que impele o sonhador); somando-se aos outros, portanto, compõe a atmosfera opositiva sugerida pelo título. O quarto dístico (“Cada vez que cais ao pêso de tua cruz/ eu caio com uma mulher de última classe”) opõe um momento de fraqueza física — isto é, da encarnação, não propriamente do Cristo — a um momento de fraqueza moral ou espiritual do homem;

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lembremos de nossa leitura de O poeta na igreja, e das reflexões sobre as limitações do corpo: ecoam em ambos os contextos presentes no dístico. O par seguinte (“Enquanto te multiplicas na humanidade/ não saio dos limites da minha pessoa”) tem não apenas seu contraste interno, mas opõe-se também ao anterior (“Cada vez que cais ao pêso da tua cruz/ eu caio com uma mulher de última classe”): enquanto o quarto dístico aproxima, porque feito homem, o Filho de Deus ao sujeito lírico — na temática da limitação da carne —, no quinto o contraste é completo: Cristo multiplica-se; o “homem” apenas o contempla, ciente da própria insuficiência e cioso por transcendência.

É significativo que o quarto e o quinto dísticos, que tratam respectivamente, segundo nossa leitura, dos temas da limitação e da ânsia por transcendência, estejam separados entre si e dos outros versos por pausas. Essas pausas, talvez reflexivas, conferem-lhes algum destaque e alguma dramaticidade adicional, colaborando com nossos apontamentos a respeito da centralidade dessas meditações para o autor de Poemas.

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