A socialização e a aculturação participam, de forma activa e permanente, no processo de educação que visa a formação íntegra do homem, de modo a torná-lo útil à sociedade de pertença.
Na percepção de Berger e Luckmann (2010), a interiorização da realidade constitui um dos pilares da sociedade como realidade subjectiva, para além da interiorização e da estrutura social, das teorias sobre a identidade e do organismo e identidade. A interiorização da realidade é analisada pelos autores em três níveis, designadamente: (i) socialização primária, (ii) socialização secundária e (iii) manutenção e transformação da realidade subjectiva.
A socialização primária, segundo os autores acima referidos, é a primeira fase que o indivíduo enfrenta no quadro da sociabilidade, na infância que o leva a tornar-se membro da sociedade. É das mais importantes socializações por se constituir como estrutura básica da socialização subsequente (a socialização secundária). O indivíduo nasce numa estrutura social objectiva possuidora de outros indicativos que, por imposição, como realidade objectiva que tomam conta da sua socialização. Neste contexto, o indivíduo não nasce somente numa estrutura social objectiva, como também nasce num mundo social objectivo (Berger e Luckmann, 2010).
Ainda Berger e Luckmann (2010) expressam que a socialização primária vai para além de uma verdadeira aprendizagem cognitiva, pois se processa sob o elevado grau de carga emotiva, cuja ligação com os significativos tornam fácil e/ou mesmo possível o processo de aprendizagem. É nesta fase de socialização primária em que a criança se identifica com os outros significativos por intermédio da variedade de maneiras emotivas. Sublinham que, qualquer processo de interiorização, só é possível no âmbito da identificação. Neste caso, a criança apodera-se das atribuições e atitudes dos demais significativos, interiorizando-os e os transforma em sua propriedade.
Mais adiante, Berger e Luckmann (2010) referem que, no nível de socialização primária, não se registam dificuldades de identificação, por não haver opções de escolha de outros significativos. Cabendo à sociedade a definição dos significativos os quais submete ao indivíduo candidato à socialização que tem de os aceitar como foram definidos, sem espaço de manobras para a sua alteração. Não tendo possibilidade de escolha de outros significantes, a criança não interioriza o mundo dos outros significativos como um dos vários mundos possíveis. Mas interioriza o mesmo mundo como o único mundo, razão pela qual o mundo alcançado na socialização primária permanece gravado na consciência do que os mundos alcançados na socialização subsequente (socialização secundária).
Ao nascer, a socialização primária é, na verdade, o primeiro mundo do indivíduo ao qual Gallego (s.a.) designou de “base mundo”. Os conteúdos nele interiorizados variam de sociedade para sociedade. A linguagem é o elemento primário a ser interiorizado, pois, por seu intermédio, diversos esquemas motivacionais e explicativos são interiorizados com valor institucional definido. Portanto, a socialização primária requer uma aprendizagem sequenciada dos conteúdos definidos no nível social e só termina após a consciencialização sobre a existência do outro. E sendo esta concepção sobre a existência do outro que o faz membro efectivo da sociedade, utente da posse subjectiva de uma personalidade e de um mundo. No entanto, há que ter em conta que a socialização nunca é total nem completa (Berger e Luckmann, 2010).
Parsons e Bales (2000) referem que é neste nível (de socialização primária) que a família é capaz de investir na criança todos os seus recursos emocionais com os quais ela pode tornar- se totalmente dependente. No entanto, alertam que a natureza do processo da socialização estabelece que essa dependência seja temporária, já que cabe a esta mesma família como subsistema da sociedade ajudar a criança para a sua emancipação e integração do sistema da sociedade no seu conjunto. Para os mesmos autores, a socialização é um processo pelo qual a criança internaliza normas parentais e adquire um superego.
Como referido anteriormente, a socialização primária alicerça a socialização secundária. Neste nível de socialização secundária ocorre a inserção do indivíduo no mundo objectivo da sua sociedade.
Para Giddens (2004[1989]), a socialização primária processa-se no momento de infância da criança, na fase intensiva de aprendizagem cultural. Na fase em que a criança aprende a falar e adquire padrões iniciais do comportamento que serve de base das cognições posteriores. O papel fundamental de socialização neste primeiro nível é atribuído à família.
Segundo Gallego (s.a.), a socialização primária ocorre desde a nascença e prolonga-se à idade escolar. É neste período em que o indivíduo enquanto criança surge para incorporar e compartilhar com os demais integrantes da sociedade outros significados culturais. Neste sentido, é, portanto, uma entrada da pessoa no mundo objectivo.
Nesta etapa de socialização primária (“base mundo”), o autor identifica oito características, designadamente:
(i) ser importante e assemelhar-se à socialização subsequente;
(ii) não obstante que a internalização seja da cultura da sociedade, ou grupo “em geral”, esta apreensão é feita de forma particular, ou seja, com pessoas de significado especial, quase sempre a família;
(iii) ser para além do fenómeno de verdadeira cognição, com o afecto a representar o papel primordial;
(iv) a dupla identificação, por um lado, ter o outro como modelo e obedecendo aos seus comportamentos, valores e ordens e, por outro lado, o indivíduo ser visto pelos outros naquilo que é significativo;
(v) o indivíduo não só aceita as atribuições e as atitudes dos outros, mas também reconhece o mundo deles;
(vi) a formação de forma generalizada pelo outro, a criança, por exemplo, aprende que não é só a mãe que a proíbe quebrar um objecto qualquer, mas sim é um acto condenável por todos;
(vii) a variedade do conteúdo da socialização primária ocorre de sociedade para sociedade, de uma cultura para a outra, de uma subcultura a outra;
(viii) e, finalmente, o primeiro mundo que se forma na socialização primária apresenta um desenvolvimento normal, caracterizado por firmeza, clareza e não apresenta problemas, pois é o mundo dado à criança e não o da sua livre escolha.
Na perspectiva de Berger e Luckmann (2010), a socialização secundária representa a interiorização de «submundos» fundamentados nas instituições. Representa, de igual modo, a apreensão de conhecimentos de funções específicas, enraizadas na divisão social de trabalho. O nível de socialização secundária requer a posse de vocabulários específicos das funções, o que subentende a interiorização dos campos significativos que compõem explicações e comportamentos de costume numa área institucional. O mesmo nível requer, também «compreensões tácitas», avaliações e tonalidades afectivas destes campos significativos.
Para os autores acima referidos, um dos elementos característico que diferenciam as duas socializações (primária e secundária) consiste no facto da socialização primária não poder ocorrer sem a identificação emotiva da criança com os seus significativos, o que a socialização secundária pode dispensar, mantendo apenas a identificação mútua que envolve qualquer correspondência entre as pessoas. Ainda assim, as funções da socialização secundária possuem um elevado grau de anonimato, dissociável dos executantes individuais (Berger e Luckmann, 2010).
Berger e Luckmann (2010) realçam ainda que, enquanto na socialização primária a criança interioriza o mundo que lhe é imposto, o mundo dos pais, cuja interiorização é quase automática; na socialização secundária os papéis são reforçados pelas técnicas de profissionais específicos (pedagogos). Nesta relação com o outro de entre os quais os profissionais especializados (professores) e o indivíduo aprendem uma outra língua, designadamente língua segunda (L2).
A variedade das tarefas institucionalizadas entre a socialização primária e a socialização secundária depende da complexidade da distribuição social do conhecimento. Ou seja, enquanto a tarefa for pouco complicada, pode o mesmo órgão socializador conduzir o processo da primária à secundária e continuar com esta última até alcançar a fase mais avançada, onde em função do grau de complexidade pode partir-se pela criação de órgãos especializados, com pessoal em tempo inteiro em especial para as tarefas educacionais (Berger e Luckmann, 2010). Mesmo com o diluir da socialização secundária por a pessoa atingir a idade adulta e ser persistente em escolha na vida, na sociedade, os membros não param de socializar o fim da vida (Gallego, s.a.).
Para Giddens (2004), a socialização secundária corresponde à fase mais avançada da criança até atingir a idade adulta. Neste nível de socialização, a família continua a ser o agente socializador, repartindo algumas responsabilidades com outros agentes socializadores, tais como: a escola, os grupos pares, os meios de comunicação social, instituições e, possivelmente, o local de trabalho. É nesta fase em que ocorrem as interacções sociais que
possibilitam a aprendizagem das normas, valores e crenças que perfazem os patrões da sua cultura.
A manutenção e transformação da realidade subjectiva constituem o terceiro e último nível de interiorização da realidade objectiva, onde Beger e Luckmann (2010) abordam o processo de ressocialização, que consiste na renúncia ou perda de anteriores conteúdos e coerência na busca de internalização de novos conteúdos culturais como resultado de uma mudança radical na sociedade de pertença. E, segundo Gallego (s.a.), a ressocialização assemelha-se à socialização primária, embora a ressocialização parta de um acontecimento, ou melhor, ocorra em épocas de crise.
Mais adiante, Berger e Luckmann (2010) explicam que, na ressocialização, se verifica a reinterpretação, no intuito de conciliar o passado com a realidade presente, com inclinação para retroprojecção no passado de elementos que, de forma subjectivo, não eram alcançáveis naquela época. Os mesmos autores diferenciam as bases da socialização secundária e da ressocialização, de tal modo que a base da socialização secundária está virada para a realidade do passado, e a base da realidade da ressocialização está direccionada para o presente.
O processo de socialização, tal como qualquer outro processo, conta com uma diversidade de agentes socializadores. Rocher (1989) destaca como principais agentes activos: a família, a escola, os grupos etários, a rádio e a televisão, cuja finalidade é a de formar, educar, inculcar princípios, dispensar conhecimentos e de entre outras. O mesmo autor faz uma incursão a cada um destes agentes e caracteriza-os segundo a forma socializadora.
Rocher (1989) diferencia os papéis de cada um dos agentes socializadores acima referidos. Na escola, a criança está integrada no meio de outras crianças da mesma idade com as quais partilha as tarefas, sob tutela de um adulto profissional, encarregue da sua formação e de impor a disciplina rigorosa. O meio familiar, embora também a criança seja educada por grupo, não requer, necessariamente, que sejam da mesma idade, elemento fundamental no processo de socialização. O autor exemplifica que a educação de crianças de famílias extensas, residentes no mesmo espaço físico, é processada quase sempre sob o comando de várias pessoas (nomeadamente, os pais, avós, irmãos mais velhos, tios, etc.). É esta parte de educação tradicional que se assemelha à educação da escola por idade.
Gallego (s.a.), na sua abordagem sobre agentes socializadores, refere que a família é a que se ocupa do papel socializador no nível primário. E actua de forma muito diferente em diversas culturas, idades e contextos sociais. Deve-se valorizar a família no processo de socialização por exercer funções fundamentais no indivíduo, tais como: a função biológica que tem a ver com a continuidade da reprodução para a sobrevivência dos membros,
melhoramento de condição de vida; a função social que compreende (a integração- socialização social, a renovação e mobilidade social; e a função cultural que diz respeito à transmissão e expansão das heranças culturais, padrões de integração, atribuições, normas e valores. A função da família é, cada vez mais, interferida pela influência de outros meios socializadores presentes em casa que, por vezes, trabalham na contrariedade das funções da família.
E a escola é considerada, segundo o mesmo autor, como um agente socializador que assume o papel decisivo a partir do momento em que as mudanças fazem com que a família perca as suas funções socializadoras. Ou seja, quando uma determinada sociedade se transforma numa sociedade do conhecimento, onde são precisos hábitos intelectuais e pessoas mais complicadas. A escola não só trata de questões de âmbito do conhecimento e de competências de carácter formal, como também trata de outras questões extracurriculares de natureza informal.
A socialização por via de grupos etários ou associações, segundo o mesmo autor acima referido, manifesta-se na necessidade destes pretenderem atingir determinado fim que para tal requeira a socialização dos seus membros. Assim, pelo facto atrás referido, o tipo de socialização é considerado de instrumental e exerce acima de tudo funções económicas ou políticas pela via das quais levam a cabo uma função socializadora indirecta ou não clara (Rocher, 1989).
A respeito da socialização por via de grupo, Gallego (s.a.) destaca que o grupo de pares representa o agente socializador clássico, consistindo na partilha entre o grupo de pares de crianças da mesma idade, de certo interesse e/ou uma filiação social semelhante. A importância de grupo de pares reside na capacidade de formar o comportamento dos seus membros. Os meios de comunicação tornam a socialização difusa, versátil e ambivalente devido aos padrões sociais por si traçados em várias versões, bastante influentes no comportamento dos indivíduos de uma determinada comunidade. A televisão é dos agentes socializadores mais potentes que, às vezes, põem em causa os outros socializadores (família, escola e igreja), mas estes não deixam de ter a capacidade de orientar os membros nas sociedades. À televisão juntam-se outras tecnologias (telemóveis, Internet, e-mail, outras redes sociais), e revela-se importante no espaço de socialização, sobretudo na promoção da chamada socialização virtual.
A rádio e a televisão, segundo Rocher (1989), são agentes socializadores de massas, cuja utilidade socializadora, com realce para a educadora, é abertamente pretendida. Na perspectiva do mesmo autor, as técnicas de comunicação de massa sugerem, propõem,
exprimem modelos, valores, ideias que podem impor-se com tanto mais força e instigação quanto se apresentam num contexto catastrófico ou emotivo que contribui para impedir o juízo analítico.
Acerca do comportamento entre os tipos de socialização, Gallego (s.a.) resume-os no esquema abaixo. Não obstante, refere que a socialização diz respeito aos seres humanos, a sua realização é bidireccional à aprendizagem da cultura e à formação da identidade. A identidade só pode ser compreendida no quadro de uma cultura específica e de uma sociedade específica, de tal maneira que a socialização deve situar-se numa dinâmica mais geral, da “construção social da realidade”, onde as sociedades e os grupos sociais em simultâneo possam definir a realidade externa (instituições, papéis, etc.) e subjectivos (maneiras de pensar, sentir dos seus membros). Na socialização primária são passados os valores essenciais da cultura que constituem o núcleo da identidade. A socialização no nível secundário regista-se na contínua aprendizagem da cultura com a presença de profissionais. Os processos de socialização acima referidos têm lugar em contextos sociais específicos e em instituições como a família, a escola, grupos de pares.
Quadro 1.1 – Esquema comparativo entre os tipos de socialização
Socialização Socialização primária Socialização
secundária Ressocialização Objectivos Converter para um sujeito em membro da sociedade e desenvolver a sua identidade. Adaptação do indivíduo já
socializado para novos sectores da sociedade e desenvolver a sua identidade.
Aquisição de conhecimentos de outras sociedades
distintas da que foi membro o sujeito, ou adaptar-se a mudanças radicais na sociedade a que pertence, e desenvolver sua identidade.
Momentos Infância
Após a infância em distintos tempos da vida.
Casos por situações excepcionais (crises)
Espaço Seio familiar
Outras instituições (escola, lugar de trabalho, etc.).
Outras instituições de outra sociedade, ou sociedade que sofre mudanças importantes e rápidas Agentes Os pais ou encarregados de educação e outras famílias (sem possibilidade de escolha). Escola, meios de comunicação, instituições laborais, legal, política, religiosa, etc. (possibilidade escolha) Outras instituições diferentes ou aquelas instituições já transformadas. Tipo de aprendizagem Aprendendo com enorme carga emocional/afectiva Aprendizagem com pouca ou nenhuma carga emocional/afectiva.
Aprendizagem com carga emocional/efectiva.
Processo É parte do”zero” É parte do adquirido na
socialização primária
Se desmonta o que adquiriu no processo de socialização anterior de ressocialização
Implantação Muito firme Menos firme que a
primeira Muito firme
Resultado Constrói-se o “primeiro mundo” do indivíduo
É adquirido o conhecimento de outros «submundos»
Esquece-se e reinterpretado passado e para o presente é adquirido conhecimento de uma outra realidade
Fonte: Manuel Contreras Gallego (s.a.), “Socialización y Escuela” página 56. http://www.vbeda.com/mcontreras/SOFE/12Materialcomplementario1.pdf
[Consultado, a 29 de Novembro de 2014].
Para Santos (1969), o processo de socialização da criança conta com a envolvência da personalidade que lhe permite converter-se num receptor e emissor, à altura de estabelecer comunicações, constituindo a premissa necessária para assumir as responsabilidades que a sociedade impõe. Na senda de outros autores atrás referidos, a mesma autora reconhece a família como um intermediário entre o indivíduo e a colectividade e associa a ela os órgãos de comunicação social que coloca a criança em contacto com as diversidades de padrões culturais. Salienta a autora que, por via familiar, a criança não adquire todos os padrões
culturais da sociedade, mas sim, aqueles aos quais pode ter acesso de acordo com as exigências do grupo de pertença.
A aculturação como componente do processo educativo é tratada por Herskovits (1967) reconhecendo, inicialmente, que a aculturação é um fenómeno complexo que inicia nos primeiros anos de vida do indivíduo com a aquisição de hábitos básicos, nomeadamente comer, dormir, jogar, estar limpo, etc. São contributos para a formação da personalidade e hábitos, cujos modelos caracterizam a pessoa como adulta.
Mais adiante refere o mesmo autor que o processo de aculturação actua nas diferentes etapas de desenvolvimento da personalidade (infância, adolescência, idade adulta e, inclusive, a morte), contribuindo para a afirmação do indivíduo como membro da sociedade.
Quer a socialização, quer a aculturação, ambos os conceitos representam para a educação escolar e/ou tradicional elementos fundamentais em todas as formas e etapas do desenvolvimento do ser humano. Ou seja, a educação, em geral, tem na socialização e na aculturação como umas das vias mais importantes da sua realização.