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O uso deliberado da tecnologia não soluciona as barreiras de acesso e nem garante a apropriação dos recursos tecnológicos pela comunidade surda. Para a apropriação, as tecnologias e artefatos disponíveis em uma vCoP devem estar em consonância com os objetivos e necessidades da comunidade para que ela se desenvolva e se aprimore ao longo do tempo. Ações como o mapeamento dos processos e atividades envolvidos nas práticas dos indivíduos de uma comunidade são essenciais para estimular a participação, bem como propiciar a interação e o compartilhamento de conhecimentos. Neste sentido, este capítulo visa apresentar o estudo etnográfico a ser utilizado para este mapeamento.

A etnografia é um método utilizado originalmente na antropologia para o estudo do comportamento social de grupos de compartilhamento de cultura, podendo este grupo de estudo ser uma grande comunidade ou ser pequeno grupo. Por meio deste método de coleta de dados, o pesquisador busca identificar padrões ou regularidades, tais como alguns rituais ou comportamentos/ações habituais, nos grupos observados (PREECE; ROGERS; SHARP, 2005, p. 390). Como processo, a etnografia envolve observações estendidas de um grupo, mais frequentemente por meio da observação participante, em que o pesquisador é imerso nas vidas diárias das pessoas e observa e entrevista informalmente os membros do grupo.

Com a evolução das tecnologias, a etnografia passou a ser explorada no desenvolvimento de sistemas de trabalho colaborativo e distribuído. Esta mudança se deu em virtude da percepção de que, independente das características tecnológicas, os ambientes desta categoria possuem um caráter eminentemente social, e que este aspecto possui forte impacto no sucesso de um sistema. Assim, a etnografia proporciona uma análise sensível do trabalho ao aproximar o projetista do mundo real para que assim, a perspectiva social seja trazida para o design do sistema. De acordo com Rogers (2004), a ideia principal envolvida nesta abordagem está em examinar o contexto de uso das tecnologias, ou explicando de outra forma, como as pessoas utilizam os elementos contextuais para realizar ações inteligentes.

Nesta acepção, o etnógrafo identifica as configurações e circunstâncias em que as práticas e atividades de trabalho são desenvolvidas para que assim, as novas tecnologias sejam projetadas (SUCHMAN, 1983; HUTCHINS, 1995). Ao longo deste processo de observação, o etnógrafo busca não somente documentar e descrever

atividades, mas compreender e avaliar as atividades tendo em vista identificar o que pode ser automatizado e o que deve ser deixado para a habilidade e experiência humana.

Em complemento, o uso da etnografia como método de coleta de dados é convergente com a perspectiva da Cognição Situada e da Cognição Distribuída, em que a compreensão da atividade humana não está nos processos mentais individuais, e sim, situada nas atividades reais e distribuída ao longo do tempo nas interações humanas e com o ambiente. Para Hollan, Hutchins e Kirsh (2000, p. 179-180):

A etnografia de sistemas cognitivos distribuídos,além de se interessar pelas mentes individuais, olha para os meios materiais e sociais de construção de ações e significados. Ela situa o significado em práticas sociais negociadas e observa os significados dos silêncios ou da falta de ação no contexto assim como de palavras e ações.

Assim, corroborando Hollan, Hutchins e Kirsh (2000), Bloomberg e Burrel (2009) afirmam que este somente as metodologias etnográficas baseadas em estudo de campo, tal como a observação participante são capazes de oferecer este tipo de compreensão.

3.1 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE

A observação participante é considerada um ponto importante em estudos antropológicos, especialmente em estudos etnográficos, e tem sido usada como um método de coleta de dados por mais de um século. Assim, é um método que tem sido incluído no entre os métodos da etnografia.

Este tipo de estudo implica na participação de um pesquisador diretamente no contexto ou situação específica de um grupo. De acordo com Marconi e Lakatos (2011, p. 277), por meio desta técnica, o pesquisador busca se colocar como membro do grupo de modo a vivenciar e trabalhar em seu sistema de referência. Ou seja, observador torna-se parte da situação observada. Esta atividade visa atender o objetivo de identificar os processos, desafios, atividades e possíveis tecnologias de apoio às atividades relacionadas à produção terminológica em uma comunidade de prática presencial de modo a criar

estruturas que apoiem a realização destas atividades também em ambientes digitais.

Para a realização do estudo, foram seguidas as seguintes etapas metodológicas:

1. Preparação para a observação – coleta de dados preliminar como forma de preparação para o trabalho de observação. Esta etapa contempla as seguintes atividades:

 Definir método de coleta de dados.

 Definir o perfil de público para a coleta de dados.  Elaboração do instrumento de pesquisa.

 Pré-teste do instrumento de pesquisa. 2. Coleta de dados.

3. Análise dos resultados da coleta de dados preliminar:  Método de análise – Discurso do Sujeito Coletivo.  Quantificação simples de questões objetivas

4. Investigação exploratória com abordagem semiestruturada. 5. Análise da observação participante – análise das

informações coletadas ao longo da observação. 3.1.1 Coleta de dados preliminar

Etapa realizada no intuito de adquirir maior familiaridade com o tema de pesquisa e definir as categorias iniciais de observação. Para tanto, foi aplicado um questionário de levantamento de dados por se tratar de um método de coleta abrangente, e de fácil aplicação, sendo que determinou-se que o levantamento seria realizado em duas amostras de população:

 Primeira amostra – amostra de caráter geral, para a obtenção de informações sobre o uso de tecnologias e percepção de questões relativas a situações de interpretação em sala de aula e à proposição/convenção de sinais.

 Segunda amostra – amostra composta por profissionais tradutores intérpretes da língua de sinais, visto que estes se deparam constantemente com situações de ausência de terminologias em sala de aula. Assim, o levantamento foi realizado no intuito de verificar como as situações de ausência de léxico são gerenciadas em sala de aula e a

importância dos artefatos de referência da LS (tais como dicionários, glossários, bancos de dados, etc.).

Optou-se pelo formato de questionários semiestruturados, contendo perguntas fechadas, de múltipla escolha, mas também algumas perguntas abertas (ou livres) para que os respondentes possam emitir suas opiniões (MARCONI; LAKATOS, 2011, p. 89). Assim, os instrumentos de pesquisa foram elaborados considerando os tipos de perguntas, a ordem, os grupos e categorias que trariam percepções relevantes para esta tese e para o projeto ao qual pesquisa está integrada. Tal como recomendam Marconi e Lakatos (2011, p. 88), os documentos foram elaborados e testados em uma pequena amostra da população e corrigidos para a coleta de dados. No intuito de atingir um público maior na coleta de dados, os formulários foram elaborados e disponibilizados via web por meio da ferramenta Google Forms19, sendo que os participantes tinham a liberdade deixar de responder alguma pergunta ou abandonar a pesquisa a qualquer momento.

A coleta de dados foi realizada por um período de dois meses, totalizando 189 respostas, das quais para o questionário geral, e 22 respostas para os questionários para tradutores intérpretes. Dos participantes da pesquisa de caráter geral, 131 participantes se identificaram como ouvintes, 49 como surdos, cinco deficientes auditivos e quatro não identificaram o perfil. A listagem das respostas relacionadas a esta pesquisa obtidas neste processo são listadas nos Anexos A e B. Para as questões com respostas objetivas, foi realizada uma quantificação de respostas, enquanto que nas perguntas abertas, foi aplicado o método de análise de conteúdo no intuito de identificar os principais temas abordados nas respostas.

Na etapa de análise de resultados, foi realizada uma quantificação das respostas referentes e às questões objetivas, sendo que estes dados foram utilizados em etapa posterior deste projeto. Às questões de respostas abertas, foi aplicado o método de análise do Discurso do Sujeito Coletivo, visando identificação das questões de autoexpressão dos grupos inquiridos.

3.1.2 Análise da coleta de dados preliminar

Antes de iniciar a apresentação dos dados, é importante destacar que nem todas as respostas do questionário têm suas análises

apresentadas neste documento em virtude do instrumento de pesquisa contemplar questões referentes a diversas dimensões do projeto “Mídias e Tecnologias e Recursos de Linguagem para um Ambiente de Aprendizagem Acessível ao Surdo”.

Considerando o enfoque nas vivências relativas à produção de neologismos terminológicos, na análise das respostas do primeiro extrato foram consideradas apenas as respostas daqueles que se identificaram como surdo ou deficientes auditivo.

3.1.2.1 Questões objetivas

As questões objetivas apresentam algumas informações básicas sobre o público participante da pesquisa. Os dados apresentados nesta seção são referentes às duas amostras definidas para esta investigação preliminar. Entre os surdos, a idade dos respondentes variou entre 17 a 56 anos. Em relação ao perfil educacional, predomina a participação de surdos com nível superior e pós-graduação. Das 49 respostas, 25 são provenientes de colaboradores pós-graduados enquanto 11 são de graduados. O Gráfico 1 apresenta um gráfico comparativo do perfil educacional dos surdos participantes desta pesquisa.

Gráfico 1 - Perfil educacional dos participantes que se identificaram como surdos

Fonte: Elaborado pelo autor (2016)

3 10 11 25 0 5 10 15 20 25 30

Ensino médio Superior incompleto Superior completo Pós-graduação

Nível de ensino

Surdos

Entre os que se identificaram como deficientes auditivos, as idades variam de 22 a 32 anos, sendo que deste grupo, duas pessoas possuem o curso superior incompleto, uma pessoa possui o superior completo e duas pessoas possuem pós-graduação. O Gráfico 2 apresenta um gráfico comparativo do perfil dos deficientes auditivos.

Gráfico 2 - Perfil educacional dos participantes que se identificaram como