Sametingets årsmelding 2000
1.1 Framtidig politikkutforming .1 Årsmeldingens perspektiver
1.1.3 Framtidige utfordringer
Concluir uma pesquisa é sempre abortar muitas possiblidades e desdobramentos, uma vez que o resultado apresentado não pode ambicionar ser mais do que uma pequena parte do que poderia ter sido feito, dada a infinidade de perspectivas e derivações que qualquer objeto coloca, e mesmo da inevitável miopia do pesquisador. No caso do presente trabalho, a escolha pelo exame de uma ampla documentação e por uma análise que não elegeu estudos de caso, propriamente, deixa claro que há efetivamente muito mais coisas fora do que o que se conseguiu abarcar no texto.
O trabalho empreendido não visa produzir resultados ou conclusões categóricas, mas diz respeito a um exercício de reflexão sobre a produção do patrimônio, no âmbito restrito do que esta pode ser considerada como uma produção de história. Partiu-se do entendimento de que a seleção de “materiais” do passado para constituir patrimônios realiza uma operação historiográfica, uma vez que a inteligibilidade dos vestígios depende de sua inserção em uma teia narrativa e dos significados que lhes são atribuídos em um ordenamento temporal.
A abordagem não foi realizada sob o foco do lugar da história enquanto disciplina e da atuação de historiadores profissionais, mas procurou-se entender a própria operação discursiva de produção do patrimônio como uma prática historiográfica. Uma grande referência nesta reflexão foi a definição da operação historiográfica por Michel de Certeau, que incitou pensar a constituição dos objetos patrimoniais a partir da investigação sobre o lugar de onde procede a enunciação que os institui e das práticas pelas quais se constroem representações de tempo e elaboração de significados históricos.
Penso, no entanto, que a presente pesquisa levanta questões que instigam a pensar a especificidade do trabalho do historiador e de sua produção discursiva no âmbito da atuação com o patrimônio. Seria interessante investigar no futuro como este lugar de atuação se constitui historicamente, tendo em vista a própria profissionalização da história no Brasil. Uma questão instigadora, nesse sentido, é a das interações mantidas com as instituições que se consagraram como lugar de produção do discurso histórico e como foi posta a partilha dos saberes nessa relação. Considerando que a trajetória do Iphan corresponde temporalmente ao quadro de transformação do lugar de enunciação da história, que deixa os institutos históricos, aos quais estavam vinculados muitos pesquisadores colaboradores do Iphan, para se
consolidar no ambiente universitário, dada a implantação dos cursos de graduação e o desenvolvimento de uma formação profissional do historiador.
Se patrimônio não adentrou o currículo de formação do historiador, como ocorre com a arquitetura, por exemplo, a relação com o campo da história tem ganho destaque, vide a proliferação de grupos de trabalho, simpósios temáticos e linhas de pesquisa em programas de pós-graduação que tratam de temáticas do patrimônio, dentro da disciplina histórica. Um ponto importante a ser considerado a este respeito é o quanto o próprio Iphan é um disseminador e propulsor do assunto, uma vez que é possível verificar que vários profissionais que estão a frente desses debates se engajaram no desenvolvimento de projetos gestados no âmbito da política institucional, inclusive parte considerável dos temas de trabalho derivam de projetos institucionais.
Realizar um diagnóstico do lugar da história e do historiador demandaria também levantar quais os setores ou processos institucionais que tem sido privilegiados com enfoques e práticas próprios da história enquanto campo do saber, e os lugares que se tem consolidado para a atuação dos historiadores ao longo da trajetória institucional. Na documentação analisada é possível perceber que uma discussão que aciona conceitos e teoria da história nem sempre foi puxada por historiadores. Seria o caso também de levantar o percurso profissional das pessoas que trabalharam na instituição e que estiveram afinadas ao campo dos “ afazeres historiográficos”, que setores e a quais projetos elas estavam ligadas, desempenhando que funções.
Diante da perspectiva tomada na pesquisa, de organizar uma reflexão sobre a operação historiográfica posta em prática na seleção dos patrimônios culturais, um ponto enfatizado foi a ‘modelagem de tempo’ realizada na constituição da significação histórica, uma vez que isso se faz determinante na constituição do bem, conforme procurou-se abordar no segundo capítulo. Foi de grande contribuição para a análise procedida a conceituação dos regimes de patrimonialização de Jean Davallon. Ao propor superar a criticada distinção entre patrimônio material e imaterial que se baseia na natureza dos objetos, e transpor a questão para modelos diferenciados de efetuar a patrimonialização, pensada a partir dos saberes que estão imbricados em sua constituição e dos mecanismos que operam a sua transmissão.
Os regimes de patrimonialização foram abordados sob a ótica das perspectivas diferenciadas de construir referenciamentos temporais. Juntamente com as contribuições de Paul Ricoeur foi possível destrinchar dois modelos: um sob o paradigma do rastro, que relega
às marcas vestigiais do tempo às condições da significação histórica; e o outro modelo, que se assenta na certificação de um lastro temporal como constituinte do status patrimonial dos objetos, constituída com a noção de “continuidade histórica”, que visa produzir uma historicidade que equalize mudança e permanência.
A análise realizada se concentra na significação histórica atrelada à definição do objeto, no entanto, o desdobramento dos regimes de patrimonialização em regimes de temporalidade abrem uma perspectiva para se pensar em termos mais abrangentes a preservação, no sentido de se considerar a historicidade dos objetos e o modelo de preservação mais adequado.
Por último, procurou-se observar o campo de significação e uso da história no processo de valoração. Se pôde perceber que no conjunto de fontes relativa à argumentação do mérito da patrimonialização, a história, mais do que atributo e qualificativo, passa a constituir o olhar que constrói os objetos.
A grande questão posta à realização da narrativa seria a de equacionar os vários enunciantes e experiências históricas advindos da multiplicidade de sujeitos, que é colocada pela Constituição de 88, em uma narrativa nacional, que, como se pôde atestar, não foi superada e reitera velhos discursos de síntese e fusão cultural.
Um caminho promissor para que o patrimônio mantenha uma função pública, em um cenário que não cabe mais o propósito da pertença nacional, é servir à positivação de identidades, por meio da construção de patrimônios que promovam narrativas que visibilizem a experiências de injustiças históricas, funcionando como denúncia, e o empenho na promoção de subjetivações que realizem a reescrita constante da história.
FONTES
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