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Historicamente a TRS aparece na Europa, precisamente, em 1961, a partir da publicação de “Psychanalyse: son image et son public”, de Serge Moscovici. Oriunda da Psicologia Social contrasta com os estudos realizados na tradição americana, tida como o terreno onde floresceu a Psicologia Social. Embora G.W. Allport tenha considerado Auguste Comte como precursor da Psicologia Social, tem-se Émile Durkheim como fundador, pois a

partir dele Moscovici começa a reflexão sobre as representações. De início foi na América do Norte que evoluiu como uma subdisciplina da Sociologia, a partir daí a Psicologia Social se afasta desta na medida em que se aproxima mais da Psicologia. Crendo que os fenômenos coletivos estavam orquestrados por leis distintas dos fenômenos individuais, quase todos os teóricos anteriores à Segunda guerra, classificaram os fenômenos humanos em dois níveis: o nível do individual e o nível do coletivo (Farr, 1998, p. 31).

Le Bon (1995), por exemplo, distinguiu indivíduos das massas, cuja visão sobre os fenômenos individuais e coletivos foi responsável pela posterior individualização da Psicologia Social, que passou a ter um terreno próprio. Para ele, a multidão é um conjunto de indivíduos, o que tornou possível individualizar o social. Já Freud (1907/1996), clinicamente e individualmente desenvolveu uma crítica psicanalítica da cultura e da sociedade, contrariamente a Le Bon, conseguindo interrelacionar cultura e formas de influência social - hipnose, psicoterapia, religião etc. - através da psicanálise, se destacando com a sua análise dos sonhos. Mead (1934), tal qual Freud, relacionou o individual e o coletivo em sua teoria, focando na importância da linguagem para a compreensão da especificidade do homem. Tanto Mead como Moscovici parecem entender, a partir de Durkheim, que individual e coletivo se relacionam e veem na Psicologia Social o meio de trabalhar entre os dois níveis.

O embate entre a consideração em separado ou de forma relacional entre esses dois níveis, gerou alguns posicionamentos. McDougall, ao publicar “The Group Mind”, em 1920, sofreu ataques por parte de Floyd Henry Allport, que o acusou de conferir a outras entidades, e não ao indivíduo, a capacidade de agir. Ele considerava que o coletivo pode ser pensado a partir da utilização dos métodos utilizados para compreender o indivíduo.

Apropriando-se das formulações de Durkheim sobre representação social e representação coletiva, Moscovici diz que à Psicologia Social cabe o estudo das representações coletivas, daí originando o seu conceito de representação, que se constituiu

num ataque à Psicologia Social desenvolvida na América do Norte, pois ele se colocava contra a redução da Psicologia Social ao estudo do indivíduo ou, como F. Allport sugeria que o estudo do indivíduo automaticamente nos levasse a fazer inferências sobre o social. Assim como as formulações de Durkheim (1898) a respeito da constituição social do indivíduo influenciaram a teoria das representações sociais, as de Weber (1913) a respeito da importância do indivíduo como capaz de transformar a sociedade também foram muito importantes (Farr, 1998, p. 31-59).

Werba e Oliveira (2003) transcreveram a afirmativa: A Representação Social - RS - originou-se da Sociologia e da Antropologia, com Durkheim e Lévi-Bruhl, respectivamente, de acordo com Moscovici (1994a). Na época, e ainda hoje, chamam-na de Representação Coletiva e foi a base para, além da TRS, da teoria da religião, da magia, do pensamento místico, da linguagem de Saussure, das teorias infantis de Piaget e do desenvolvimento cultural de Vigotsky (Werba, & Oliveira, 2003, p. 104).

Para Farr (1998), a TRS é uma forma sociológica da psicologia social e quando Moscovici buscou compreender de que maneira a psicanálise é ressignificada pelos grupos populares fechados e especializados, ele, motivado para criticar os pressupostos positivistas e funcionalistas, desenvolveu os seus estudos das RS, porém não a conceituou por definitivo.

Afinal o que são as RS? Como se disse anteriormente, o conceito de representação social nasceu na Sociologia (Durkheim) e na Antropologia (Lévy-Bruhl), ambas forneceram os elementos decisivos para a elaboração dos suportes à Teoria das Representações Sociais. A importância dessa teoria para o conhecimento é que ela apresenta novas possibilidades de esclarecimento sobre a relação entre o sujeito individual e a sociedade. Moscovici (1981) a definiu como um conjunto de conceitos, proposições e explicações originado na vida cotidiana no curso de comunicações interpessoais. Elas são equivalentes, em nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; podem também ser vistas como a

versão contemporânea do senso comum. Em Oliveira e Werba (1998) vê-se que as RS são entendidas como teorias sobre saberes populares e do senso comum, elaboradas e partilhadas coletivamente, com a finalidade de construir e interpretar o real.

Em um caráter mais conceitual, Jodelet (1984) afirma que a Representação Social designa um fenômeno de produção dinâmica, cotidiana e informal de conhecimento, um saber de senso comum de caráter eminentemente prático e orientado para a comunicação, a compreensão ou o domínio do ambiente social, material e ideal de um determinado grupo. Por essa razão, em vez de conceber a representação como o que se dá entre a percepção de algo e a formação de seu conceito, Moscovici a compreende como um processo que torna cambiável percepção e conceito; ambos se engendrando (Dalenogare, 2010; Sá, 2004; Silva, 2012).

Uma Representação Social define tanto o estímulo quanto a resposta que evoca. Para além de um simples guia para o comportamento, remodela e reconstitui os elementos do ambiente em que o comportamento se sucederá; dá a este seu significado e o integra a um sistema comportamental e relacional maior (Flath, & Moscovici, 1983).

Em síntese, as representações seriam sistemas de valores, ideias e práticas com uma dupla função: o estabelecimento de uma ordem que capacita os indivíduos de se orientarem e dominarem o seu mundo social e a facilitação da comunicação entre membros de uma comunidade por providenciar aos mesmos um código para nomearem e classificarem os vários aspectos de seu mundo e suas histórias individuais e grupais (Flath, & Moscovici, 1983; Uaciquete, 2011, p. 28). Guareschi e Jovchelovitch (1998) mostram a importância da interligação no processo cognitivo. Um dos elementos fundamentais da TRS é a interligação possível entre cognição, afeto e ação no processo de representação (Giongo, & Moura, 2008; Oliveira, & Werba, 1998, p. 106).

Para Torres et al. (2003), referindo-se a Doise (1986), representações sociais são princípios que organizam as variações sistemáticas dos posicionamentos individuais nos diversos elementos que formam o campo representacional. Essa definição introduz uma noção central ao conceito de representações sociais: a variabilidade das representações. A multiplicidade de conceitos (Jodelet, 1989; Vala, 2000) e de delineamentos metodológicos (Abric, 1994) das representações sociais, defendidos pelo próprio Moscovici (1988), permite considerá-las não como uma teoria acabada, mas como uma ampla abordagem inovadora no campo da Psicologia Social (Lacerda, Pereira, & Camino, 2002; Vala, 1993). Segundo Lopes, Neves, Pessoa e Pessoa (2010), a teoria das representações sociais foi uma tentativa de Serge Moscovici em redefinir o campo da psicologia social que se encontrava imerso em “paradigmas solitários” calcados na tradição behaviorista, visando estudar “o indivíduo, o pequeno grupo, as relações formais”.