Examino agora, do ponto de vista epistemológico, e tendo por horizonte as teorias bakhtinianas, as bases da proposta de “primazia (ou primado) do interdiscurso” de Dominique Maingueneau, explorando algumas de suas implicações, com vistas a apontar sumariamente as principais similaridades entre sua obra e a do Círculo de Bakhtin. Deve-se isto ao fato de que, embora a obra de Maingueneau pareça conhecida, dadas as tantas aplicações a que tem servido, poucas vezes se faz menção aos elementos constantes de sua opus magna, seu “discurso fundador”, Genèses du discours (1984), o que em alguns casos leva a uma visão parcial de suas propostas e, em outros, a uma redução da radicalidade discursiva destas no campo da pragmática. Por esse motivo, cito em alguns momentos da exposição trechos da obra em questão.
Busco primordialmente descrever o que constitui desse ponto de vista os fundamentos epistemológicos do empreendimento de Maingueneau, que, embora se tenha concentrado no que se poderia chamar, a partir de Bakhtin, de nível “composicional”, nem por isso deixa de apresentar relevantes observações “arquitetônicas”, ainda que ele recuse “arquitetônica”, “arquitetura” e derivados no sentido de Bakhtin, a que de resto não faz menção no tocante a isso.
Para Maingueneau: os discursos são objetos “ao mesmo tempo integralmente lingüísticos e integralmente históricos” (p. 6), esclarecendo o autor que pretende evitar o sacrifício de um desses aspectos em favor do outro. Vemos assim que ele considera a “textualização” e a “contextualização” membros discerníveis de um mesmo universo que as integra e lhes dá nova feição, o da produção do discurso como unidade textual-enunciativa. Sem negar a legitimidade de tantas abordagens parciais, pragmáticas e textuais, o autor afirma pretender seguir uma abordagem discursiva estrita – o que a meu ver insere sua obra no universo do empreendimento bakhtiniano, sem naturalmente haver aqui a sugestão de “influência”. Trata-se, pois, de uma perspectiva para quem a materialidade textual só faz sentido em sua mise en discours, ou seja, o extra-discursivo e o inter-discursivo são já intra-discursivos.
As sete hipóteses que Maingueneau apresenta no livro em questão, cada uma delas correspondente a um capítulo, buscam articular “instâncias entre as quais se tende muitas vezes a estabelecer descontinuidades que são facilmente justificadas pelas necessidades da pesquisa” – o que lembra as insistentes teorizações do Círculo de Bakhtin voltadas para cernir a totalidade dos fenômenos (no âmbito do humanamente possível). Embora reconheça essas “necessidades”, ele recusa a idéia de a análise se deter nas descontinuidades, uma vez que busca, como antecipei, “pensar um sistema de articulações sem anular a identidade de cada instância” (p. 14), quer dizer, respeitar a especificidade dos vários elementos que convergem para a construção do discurso, mas mostrar que eles formam uma estrutura, um sistema, identificável, em vez de uma sobreposição de componentes díspares, o que é uma maneira produtiva de abordar a presença de elementos repetíveis e irrepetíveis na produção do sentido, tal como o fez Bakhtin em sua filosofia do ato.
Mencionando Bakhtin, Maingueneau afirma que “essa [de Bakhtin] visão da atividade “de linguagem” converge em larga medida com nossas preocupações com a interdiscursividade” (p. 27). Mas estabelece uma diferença da ordem da delimitação, a seu ver fundamental, e que tem sustentado até hoje, por justificáveis razões contextuais e metodológicas. Cito o trecho com tradução minha:
Se num dado sentido nosso empreendimento se inscreve na mesma perspectiva da de Bakhtin, a de uma ‘heterogeneidade constitutiva’, operamos contudo num quadro restrito, fornecendo a essa orientação geral um quadro metodológico e um domínio de validade bem mais preciso (p.
27).
Essa afirmação, que a meu ver não faz justiça a Bakhtin, se explica pelo fato de o autor, por volta de 1984, ter acesso ao que se conhecia então da obra de Bakhtin, e que de fato deixava uma impressão de generalidade, para não mencionar o reforço dessa impressão advindo de alguns usos dados a conceitos bakhtinianos. Maingueneau propõe a substituição (ou especificação) do termo “interdiscurso” por uma tríade menos geral: universo discursivo, campo(s) discursivo(s), e espaço discursivo — que vão do geral para o particular, e que a meu ver “respondem” também a certas concepções da época fundadas real ou supostamente em Foucault.
Maingueneau aborda a questão da relação entre o discurso “segundo”, ou seja, o discurso que se constitui a partir do outro, e o discurso “primeiro”, aquele a partir do qual o “segundo” se constitui. Vem então mais uma importante especificação que resgata a individualidade do discurso “constituído” [o discurso segundo] e mostra que sua constituição afeta a identidade do discurso “constitutivo” [o primeiro]: o “discurso primeiro não permite a constituição do discurso segundo sem ter ameaçados seus próprios fundamentos (...)” [p.34]. Por outro lado, o discurso primeiro tende a confundir o Outro de que derivou [seu próprio discurso primeiro] e o Outro que deriva dele [o discurso segundo], rejeitando tanto um como o outro. Deve-se porém ter em conta que não há “uma alternância perfeita: A permitindo a produção de B e B a produção de C, que coincidiria com A e assim por
diante”. Eis um dos grandes momentos bakhtinianos do autor, como podemos perceber em Voloshinov (1976) e outras obras do Círculo.
Não há essa alternância, em primeiro lugar, porque os espaços discursivos podem conter mais de dois termos, e em segundo, porque um “sistema primeiro” permite derivar “inúmeras famílias” de formações discursivas. Por outro lado, muitas vezes o discurso primeiro não desaparece de imediato da estrutura do segundo, e pode mesmo nunca vir a desaparecer. E, durante essa convivência, ocorrem conflitos “mais ou menos abertos” (p. 35). Tudo isso permite definir o espaço discursivo como tendo “um duplo estatuto”: o primeiro refere-se à dessimetria “que permite descrever a constituição de um discurso”; o segundo é “um modelo simétrico de interação conflituosa entre dois discursos para os quais o outro representa todo ou parte de seu Outro (p. 35)”.
O que interessa ao autor é esse segundo modelo, marcado pela permanência de uma tensão entre discurso primeiro e discurso segundo, tensão na qual nenhum deles absorve o outro, ainda que possa haver diferentes graus de “neutralização”. Parece-me ser essa uma perspectiva deveras produtiva, que impede a perda da análise na especificidade de um dado discurso, mas reconhece a dessimetria necessária à sua constituição, ao tempo em que vê parâmetros de uma ordem da generalidade, sem perder-se nessa generalidade, reconhecendo assim que não há subsunção entre discurso primeiro e discurso segundo, mas antes uma tensão constitutiva, que ao ver de Maingueneau exibe dois “momentos”: a fase de constituição e a fase de conservação. Aquela se define como os primeiros momentos de “interincompreensão” entre o discurso em formação e seus “outros”; nesta, ainda que o discurso primeiro tenha “desaparecido”, ou melhor, recuado nos termos do discurso segundo para os bastidores, as novas relações interdiscursivas do discurso segundo continuam determinadas “pela rede semântica por meio da qual se constituiu”, ou seja, o discurso segundo vive aí fantasmaticamente, mas nem por isso de forma menos ativa. Contudo, não é esse o fim da história, dado que, num dado momento, a “filiação” entre esses discursos acaba por se romper definitivamente, deixando o sujeito “órfão” em sua obstinação. O rompimento parece ser o momento em que nasce outro discurso fundador, que encerra o reinado daquele a partir do qual se constituiu, um discurso “por direito próprio”.
Temos aqui, a meu ver, o processo de ressignificação em ação! Os presumidos, ao ser objeto de contestação, já não se sustentam, ainda que o mito original se mantenha mesmo depois de desaparecidos os vestígios ostensivos de sua incidência: a arena de vozes, as batalhas entre as várias vozes sociais são o próprio vir-a-ser do sentido. Logo, o discurso primeiro continua “presente”, mas o discurso segundo já não é diretamente tributário dele, dado que assumiu sua própria identidade em seu contato com outros discursos. O presumido desaparece na conotação aqui dada ao termo, e o sentido do discurso segundo se transmuta, criando, naturalmente, algum outro presumido — marca clara do dinamismo da produção de sentidos.
Maingueneau aborda ainda, como foi dito de passagem, à descontinuidade como fator a ser considerado em sua hipótese de trabalho. Sua perspectiva se opõe tanto a Foucault como aos trabalhos de Michel Serres — que preconizam isomorfismos cuja gênese não pode ser explicada porque parecem surgir “de repente” e tornar semelhantes campos do saber estanques, até esse momento totalmente distanciados uns dos outros, mas mesmo assim levados, como se “a partir do nada”, a se assemelhar – um evidente contra-senso, diria Wittgenstein. Porque, se nasce da diferença, o sentido nunca pode ser totalmente fundado nesta; se o fosse, já não haveria contato entre diferentes que partilham traços comuns (a semelhança) e se estabeleceria uma continuidade ou uma descontinuidade absolutas e, portanto, inconcebíveis no mundo humano conhecido.
O empreendimento de Maingueneau, fundado na primazia do interdiscurso, inscrita na própria estrutura do discurso, não se restringe portanto à estrutura textual tout court. A identificação da presença dos discursos a partir dos quais os discursos em análise se constituíram é feita por meio de uma abordagem discursiva, dado que uma abordagem lingüística cobriria apenas a heterogeneidade mostrada, porém não a heterogeneidade constitutiva, que não se mostra em transparência nas superfícies discursivas, tendo em vez disso, por assim dizer, de ser “extraída” pelo analista. A sétima tese de Maingueneau supõe e postula a imbricação entre as práticas discursivas e o ambiente sócio-histórico em que vêm a ser, mostrando a articulação entre as várias séries, ao tempo em que sustenta a necessidade de reconhecer a especificidade de cada uma delas.
Outro ponto a destacar é que a identidade do discurso é entendida por Maingueneau como advinda da “relação com o Outro”: da interdiscursividade vêm as formações discursivas e suas relações. Um enunciado é lido de um modo no discurso a que pertence e de modo oposto, ou ao menos distinto, nos discursos de que o separa a “distância constitutiva”. Graças ao interdiscurso, os discursos não voltam às coisas mesmas, mas trabalham “sobre outros discursos”; logo, o sentido nasce “do intervalo entre as posições enunciativas”, e a incompreensão segue as regras definitórias das formações discursivas e se transforma em “interincompreensão”. Esta tem duas vertentes; numa, proíbe a circulação de um mesmo sentido entre sujeitos, e, na outra, permite que os sujeitos falem “da mesma coisa”. Destaco que a idéia de trabalhar sobre outros discursos não implica que as coisas mesmas deixem de existir, mas que o acesso a elas torna-se por assim dizer duplamente mediado nas circunstâncias em tela.
Outro destaque a fazer nesse âmbito é a importância da polêmica, entendida pelo autor como uma “dupla tradução”, quer dizer, as formações discursivas se definem mediante a recusa mútua; a relação entre o discurso e seu Outro ocorre, para que aquele mantenha a identidade, como o simulacro desse Outro que o próprio discurso constrói. Maingueneau destaca que o modo de construção, e não os elementos por ela mobilizados, é o aspecto relevante dessa polêmica constitutiva: as memórias polêmicas são instáveis, estão em permanente redefinição; o discurso é assim “mobilizado por duas tradições” (p. 125): a criada por ele aos poucos e a que serve para fundá-lo. Os discursos em polêmica falam do “mesmo”, que consideram deformado pelo adversário (desqualificação), recorrendo para se legitimar a um terceiro, algum “tribunal supremo”, que, no entanto, longe de instância neutra, é sempre objeto de apropriação, nos termos de seu “universo de sentido”, das várias formações discursivas concorrentes.
Por fim, para Maingueneau, e isso tem grande relevância para um estudo de gêneros, o sujeito é interpelado em lugares enunciativos que definem gêneros discursivos: há encaixamentos, bem como intersecções, de gêneros, e a ênfase do analista deve ser nas coerções dos gêneros. As condições que definem os gêneros são: (1) a transmissão, o meio e o circuito de difusão (em termos bakhtinianos, a esfera de atividade) e (2) o estatuto do enunciador e do co-enunciador (ou a relação entre autor e ouvinte): o discurso só é “autorizado”, e, portanto dotado de eficácia, se
reconhecido como tal — algo que também lembra a questão da entoação avaliativa e da responsividade ativa do Círculo de Bakhtin, bem como os presumidos que tornam possível a criação de sentidos e a comunicação.
Parece portanto legítimo destacar que o empreendimento de Maingueneau não postula uma correspondência mecânica entre “situação de produção” e discurso produzido (quer dizer, uma relação de causa e efeito entre uma dada situação e um dado discurso) ou entre funções textuais e funções contextuais, se se pode dizer assim, bem como de tentativas pragmáticas de trabalhar no nível das proposições — que enfatizam, pois, condições de verdade, em vez de criação de sentido no e pelo contexto — e abordagens que atribuem a eficácia do discurso apenas à prática social na qual se insere, sem levar em conta o “modo de dizer”, a textualização específica e o projeto enunciativo.
Maingueneau ocupa assim um lugar privilegiado no âmbito da análise do discurso, aproximando-se mais, como se sabe, de perspectiva discursivo-semióticas ou “sêmio-lingüísticas” como as de Charaudeau (1995, p. ex.) ou Flauhault (1978, p. ex.; para uma exploração das teses deste, cf. SOBRAL, 1999, cap. V), bem como das propostas do Círculo de Bakhtin. Há tantas semelhanças com estas últimas, guardadas as especificidades, e nem todas foram exploradas aqui, que parece legítimo perguntar: seria Maingueneau um “bakhtiniano relutante”? Creio que há uma compatibilidade com as teses do Círculo de Bakhtin que a insistência na especificação de instrumentos de análise não deve contribuir para ocultar.
2.8 Sujeito e Sentido no Círculo de Bakhtin, em Greimas e em Maingueneau