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Neste estudo, pudemos analisar como o agenciamento e a responsabilidade relacional foram produzidos como forma de promover a mudança em Terapia Familiar. O agenciamento e a responsabilidade relacional podem parecer que se opõem. O agenciamento se refere à possibilidade da pessoa tomar e implementar decisões, consiste em buscar autoria, autonomia, narrativas em primeira pessoa. A responsabilidade relacional, por sua vez, problematiza a autonomia, pois enfatiza o caráter relacional no processo de construção de sentidos, ou seja, pressupõe uma responsabilidade coletiva na construção e na sustentação circunscrita a uma realidade local e situada. Mas, por outro lado, podemos entender que o agenciamento e a responsabilidade relacional como opções discursivas. Portanto, o processo se dá dentro de uma perspectiva dialógica, aberto as possibilidades inventivas da linguagem, tornando-se recursos conversacionais disponíveis no trabalho terapêutico no processo de construção da mudança.

No Construcionismo Social, alguns autores das Práticas Colaborativas (Anderson, 1996; 2001; 2009; Andersen, 2001) e das Terapias Narrativas (White, 1994; White & Epston, 1990) têm falado do agenciamento no campo do trabalho terapêutico. A responsabilidade relacional de McNamee e Gergen (1999) apresenta pouca referência neste campo.

Em nosso trabalho analítico a respeito do processo de construção de sentidos sobre mudança, realizado em dois atendimentos distintos de família em Terapia Familiar,

identificamos processos de produção de sentidos marcados por uma perspectiva conversacional na construção de agenciamento e responsabilidade relacional.

Na primeira família, a construção de sentidos de mudança foi identificada no deslocamento do discurso inicialmente apresentado como problema do trabalho da mãe para a do agenciamento com o cuidado da vida. O agenciamento foi promovido tanto pelas trocas conversacionais que construíram novas realidades sociais, quanto pela apropriação e legitimação dos discursos de potência e empoderamento, os quais permitiram a família sentir- se capaz de perceber seus próprios limites e possibilidades, “ouvir” suas próprias vontades e poder atendê-las. Tal construção se deu a partir do desvencilhamento e afastamento do sentido dominante na família a respeito de se disponibilizar em atender as necessidades das pessoas, o que custava, na maioria das vezes, o esquecer-se de si.

Na análise da segunda família, a mudança terapêutica é marcada pelo deslocamento do discurso do problema inicialmente apresentado em uma perspectiva individual, como a preocupação de Tatiana sobre o agir no adoecimento da mãe, para uma perspectiva da responsabilidade relacional – em que o problema passou a ser entendido e enfrentado de forma coletiva e corresponsável.

A construção de tal processo se deu a partir do entendimento das implicações do sentido dominante sobre o cuidado nesta família, o qual era entendido como uma responsabilidade individual, tornando cada pessoa responsável pelos resultados de sua ação na cura de uma doença. O processo de desconstrução e ressignificação foram marcados pela abertura à cooperação, sendo o cuidado então, pensado de forma compartilhada entre as irmãs e uma rede social mais ampla na perspectiva da responsabilidade relacional.

A responsabilidade relacional se baseia em uma importante premissa que sustenta o discurso construcionista social, em que tudo o que é dotado de significado ou possui algum sentido para os atores sociais, emerge de uma dimensão inteligível na relação. Em outras

palavras, o significado não está na mente das pessoas, o processo de construção de significado é atravessado pelas múltiplas dimensões interacionais que permeiam a cotidianidade, derivando-se da atividade conjunta dessas relações (McNamee & Gergen, 1999).

O processo de construção de sentidos foi marcado pelos momentos interativos com a anunciação de novos significados para além do cuidado referente ao agir no adoecimento a partir do entendimento do cuidado como postura na vida. Sendo então disponibilizadas várias categorias como: cuidar de si, contar uns com os outros, poder ser cuidado pelo outro e juntos cuidar de outro, bem como dividir com uma rede social mais ampla as competências e as limitações e resultados do cuidado. Portanto, tal processo, ao tratar do cuidado como atividade compartilhada, corresponsável, paradoxalmente instituiu um senso de agenciamento coletivo e individual a respeito da ética do cuidado.

Nesse sentido, nossa análise aponta que a primeira família precisou se afastar dos sentidos apreendidos nos contextos relacionais mais amplos para constituir o seu agenciamento, sentindo-se capaz, potente e autônoma. E a segunda família, por sua vez, constituiu uma nova realidade social na linguagem, a responsabilidade relacional, abrindo-se para a ampliação de novos sentidos advindos do conjunto do próprio grupo familiar e uma rede social no processo de construção de sentidos.

Dentro da perspectiva que embasou este nosso estudo, o Construcionismo Social, o agenciamento e a responsabilidade relacional podem participar do processo de construção de sentidos em conformidade com a realidade circunscrita e situada. No caso do agenciamento, as interações produzem autonomia e fortalecimento da pessoa para a ação no mundo. Na responsabilidade relacional, a interação produz uma autonomia responsiva relacionalmente, a partir de um senso de agenciamento das pessoas envolvidas, as quais se sentem capazes e fortalecidas para agirem conjuntamente com outros, e ao estabelecerem uma parceria

colaborativa, desenvolvem novas possibilidades, compondo assim, uma rede relacional de co- produção das condições de suas vidas.

Entretanto, partindo do pressuposto que a conversação terapêutica é um ato responsivo, entendemos que tanto o agenciamento como a responsabilidade relacional são produzidos pelo conjunto das interações que constituem o encontro terapêutico, ou seja, toda responsabilidade de sentido se dá no conjunto da interação, a responsabilidade é coletiva. Portanto, todos os participantes na interação são responsáveis relacionalmente pela construção e sustentação dos sentidos construídos no contexto dessas relações.