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FoU-utgifter i 2009

2 Utdanningsforskning i totalbildet

2.3 FoU-utgifter i 2009

Além da leitura crítica da realidade comunitária, observamos também uma leitura crítica direcionada pelos professores ao desenvolvimento do próprio trabalho. O professor Allan apresenta uma postura bastante crítica frente às diretrizes da Secretaria de Esporte e Lazer de Fortaleza (SECEL), que se evidenciam ao longo de sua entrevista. Os elementos que são objetos de suas críticas dizem respeito a: distanciamento entre a teoria e a prática, entre a proposta político-pedagógica da SECEL e a realidade do trabalho na comunidade; inadequação de perfil de outros professores de Educação Física frente ao trabalho nos núcleos comunitários de esporte e lazer.

Com relação às diretrizes postas pela SECEL para orientar o trabalho dos professores nas comunidades, Allan se identifica como um professor que não segue tais recomendações teórico-metodológicas, demonstrando em todo seu discurso ciência e uma opção por assim fazê-lo, tomando como justificativa básica as necessidades reais da comunidade, suas peculiaridades e sua própria experiência acumulada, que o credenciaria a sustentar seus posicionamentos político-pedagógicos em sua atuação. É o que concluímos a partir dos trechos que seguem.

Eu vou lhe confessar uma coisa: eu não faço isso, eu não sigo os critérios da Secretaria de Esporte... Por quê? Porque cada comunidade tem o seu perfil, né... Cada comunidade tem um jeito que você vai, o professor no dia-a-dia vai entendendo, vai compreendendo, vai encaixando... É aquela história da flexibilidade, que você tem que ter... (Allan, Trecho 30)

Então eu tenho só um esqueleto da aula, que é o que a Célula quer... Começo bate-papo, final bate-papo, roda de conversa... Mas a minha aula eu estruturo como eu acho melhor, entendeu... É tanto que é pra mim dar futebol e vôlei... Eu dou o que eu quero! (Allan, Trecho 31)

Dentro do perfil do que a Célula quer, eu não trabalho como eles querem, sinceramente não... Mas eu trabalho como a comunidade precisa, entendeu, como é melhor recebido pela comunidade... (Allan, Trecho 32)

Nesses três trechos acima, Allan associa sua não filiação criteriosa à proposta da SECEL, segundo a compreende, justamente por efetivar algo que está posto por essa

mesma proposta, que é a integração entre o professor e a comunidade, na qual aquele deve estar em íntima conexão com a realidade e a dinâmica dessa. Assim, por estar atento às demandas da comunidade, bem como a suas características limitantes e seus potenciais, é que adotaria formas e recursos alternativos para realizar seu trabalho. Ainda assim, segue uma estrutura básica de desenvolvimento das atividades, respeitando aparentemente os momentos pedagógicos em que se subdividiriam as aulas nos núcleos de esporte e lazer, intercalando as práticas esportivas e de lazer propriamente ditas com momentos de interação verbal, problematização, diálogos com abordagem de temáticas junto aos participantes. Este contraste presente no discurso do professor evidencia-nos uma relativa distância referente ao acesso e, ou, entendimento por parte do professor da proposta político-pedagógica da SECEL para os programas comunitários de esporte e lazer.

Allan, ainda explorando esse tema, critica a deficiência que percebe na práxis em esporte e lazer dentro das comunidades, como nos sugerem os trechos abaixo.

Mas, eu lhe confesso que eu não sigo o que a Célula quer... Não sigo porque eu acho que a Célula, a idéia deles é muito... Teórica, entendeu... Eu me deparo com idéias muito teóricas que não bate com a realidade... Se você for levar pra realidade vai haver um choque... É como se você tivesse uma repulsa... (Allan, Trecho 37)

Num pode ficar só na teoria sabe, na coisa do sonho não... Você tem que ir em busca de realizar, por isso que eu num concordo com muitas idéias da Secretaria, porque eu acho muito idéias de filosofia... (Allan, Trecho 75) Filosofia, filosofia... Eu não sou contra filosofia, cada um vive o que quer viver, tá entendendo, eu não tenho nenhum preconceito com nada... Só que quando eu entro naquela realidade lá eu não posso viver de filosofia... (Allan, Trecho 76) Você pode fazer todas as leituras possíveis e impossíveis de “Coletivo de Autores”, e isso, e aquilo, mas no dia-a-dia é outra história... No dia-a-dia, você pode ter essa realidade teórica como pincelada, mas na realidade ali, num pode ser assim não... Você vai trabalhar conforme o ritmo da comunidade, conforme as coisas que você tá vendo ali ao seu redor... Eu penso assim. (Allan, Trecho 146)

Tal postura crítica pode nos sinalizar a compreensão do professor acerca da necessidade de se manter uma integração entre teoria e prática, entre reflexão e ação. Para além mesmo dos conteúdos e motivações do professor em realizar tais ponderações relativas às diretrizes da SECEL, destacamos a prática da crítica em si mesma, especialmente quando dirigida por um profissional operador de uma política pública à equipe que se encontra na gestão desta mesma política. Do contrário, o professor em

questão poderia facilmente se tornar um mero reprodutor de discursos, ou um aplicador de métodos e procedimentos de trabalho, empreendendo um trabalho eminentemente acrítico e esvaziado de sentido.

Por outro lado, não verificamos expressões significativas acerca de uma auto- crítica igualmente enfática por parte do mesmo professor, senão muitas vezes uma defesa ou justificativa de seus pontos de vista, valores, condutas e estratégias de trabalho junto à comunidade. O que encontramos com significado próximo à auto-crítica é o reconhecimento dos próprios limites do trabalho, bem como alguma relativização acerca de sua forma de trabalhar.

Eu num sei se eu tou certo não... Eu sei que dentro daquela comunidade tá dando certo... Isso eu num aprendi em faculdade, isso ninguém conseguiu me ensinar ali na Secretaria... É o que eu tou vendo lá, entendeu... (Allan, Trecho 36)

Eu não tenho pretensão de chegar e mudar o perfil da Santa Fé, não... Mas é aquela história do beija-florzinho, que leva a gotinha d’água pra apagar o incêndio, né... Essa gotinha d’água que ele leva num vai apagar o incêndio, não, mas ele tá fazendo a parte dele... Então, essa minha filosofia, essas minhas... Essa minha tendência de olhar mais pro lado humano, talvez num vá mudar o perfil da comunidade, não, mas eu estou levando... Eu estou propondo, tá entendendo... Estou mostrando que existe uma possibilidade de mudança... Cabe a eles escolher ou não... Eles podem escolher, podem escolher se querem viver na marginalidade, sendo reconhecidos como marginais ou não... (Allan, Trecho 174)

Com relação ao professor Carlos, não verificamos ocorrências de críticas dirigidas às diretrizes político-pedagógicas da SECEL. Pelo contrário, podemos afirmar que seu discurso alinha-se e faz eco com as orientações postas pela SECEL, especialmente ao confrontarmos a estrutura e a prática de suas atuações no núcleo de esporte e lazer com as recomendações teórico-metodológicas colocadas pelas supervisões dos programas, bem como com os objetivos do programa “Esporte na Comunidade”.

Nessa direção, mantém interação crítica com a comunidade no momento de dialogar com moradores para resignificar criticamente o senso comum que detectou diante da proposta do programa “Esporte na Comunidade”, e consequentemente diante de sua prática como professor na mesma comunidade. Tal interação entre o professor e moradores da comunidade consta no trecho que segue.

Aí a gente esclarece “não, nosso objetivo não é tirar o menino da rua; a rua é feito pra gente andar, pra gente estar na rua também, mas ter ele no meio da rua, tem que saber o que é que se faz com ele no meio da rua. A proposta da Programa é trazer reflexões...A nível de compreensão de comunidade, de vida em comunidade, né. Isso vai repercutir na sua vida individual também, né. Mas não é tirar apenas... Não é tirar o menino da rua. A rua foi feito pra andar. Praça foi feito pra gente tá junto, né... (Carlos, Trecho 100)

Em outro momento, Carlos relata uma problematização que fizera com a turma de participantes da atividade de voleibol, com os quais vinha encontrando dificuldades relativas a sua participação e envolvimento nos demais momentos da aula, como nas rodas de conversa antes da prática do voleibol, onde se abordavam temas com a turma. Diante disso, adotou como estratégia pedagógica não mediar, na hora do jogo de voleibol, a participação de jovens que chegassem atrasados na aula, que usavam o atraso para evitar a participação na roda de conversa inicial. Trazemos no trecho abaixo a finalidade que o professor atribui a tal medida.

Isso é pra eles... Mostra que precisa uma participação deles. Isso pra despertar pra eles... Na minha... No meu ver... Pra despertar neles a questão de se envolver realmente com o Programa, né. Se a bola é do Programa, se a quadra... Se a rede é do Programa... Se o Programa tem um professor lá pra se orientar, pra trazer o lazer... Mas antes do lazer tem que ter uma... Assim... Uma reflexão. Que eu chamo pra eles: “vamos refletir sobre determinados assuntos que são de interesses de vocês, que podem também ser estendidos pra comunidade.” (Carlos, Trecho 71)

Notamos claramente por parte do professor uma preocupação não só em atuar consoante os objetivos propostos pelo programa, mas também de explicitar junto aos participantes e moradores quais são tais objetivos, bem como sua fundamentação. Tal postura aponta para um outro teor de criticidade, que propicia aos moradores da comunidade uma ampliação de suas noções e informações sobre a própria atuação que está sendo desenvolvida em sua comunidade, o que tende a afetar sua participação e seu acompanhamento mais crítico dessa ação pública em seu cotidiano.

Aqui, podemos identificar mais uma forma de estimular a formação progressiva do indivíduo morador da comunidade, dos jovens participantes do núcleo, como sujeitos críticos e ativos, que, na ótica do professor, devem ter ciência do sentido de sua participação, fomentando uma apropriação crítica por parte do público-participante dos serviços ofertados pelo poder público.