“Eu acho muito importante, porque da mais segurança para o cliente”
__________________________________ “existe um entrosamento entre eles que é importantíssimo para que consigam identificar em que precisam intervir na vida e saúde do idoso”
Segurança
__________________________________
Entrosamento
Questão 222
“vendo e ouvindo aqueles que estavam ali
preocupando-se conosco”
__________________________________
“A avaliação realizada ajuda muito, psicologicamente, mentalmente e fisicamente falando, pois, nos dão muita
atenção, faz nos sentir importantes como seres humanos”
__________________________________ “orienta e ainda ajuda a conscientizar
das precauções e dos cuidados que o
idoso deve ter com a sua saúde”
__________________________________
Questão 3
“O enfermeiro pode transformar um idoso numa criança feliz, um moribundo numa pessoa saudável”
_________________________________ “É o carinho responsável juntamente com
Escuta aberta
__________________________________
Humanização do cuidar
__________________________________
Educação para saúde
__________________________________
Transformação
__________________________________
21“O senhor acha importante passar em consulta com uma equipe multiprofissional? Por quê?” 22“O que o senhor achou da avaliação realizada? Por quê?”
a alegria de servir do enfermeiro, em observar, dialogar, orientar e aconselhar, escutar com atenção e criar um clima de amizade e de amor com a vida.”
Humanização do cuidar
Questão 423
“Eu tornei-me mais confiante em mim, mais observador das circunstâncias”
__________________________________
“..Antes me sentia um velho, sem valor algum [...] agora tudo é diferente na minha vida”
__________________________________
“formar profissionais eficientes, responsáveis e felizes no exercício de atender o ser humano”
Autoconfiança
__________________________________
Ressignificação da velhice
_________________________________
Atendimento responsável e eficiente
Após a identificação desses códigos na fala do Sr. João, procurei analisar de que modo, a partir do critério de familiaridade semântica, eu poderia chegar aos subtemas que sustentavam sua argumentação e, através dessa mesma técnica, finalmente atingir os temas. Esse exercício de interpretação está registrado no quadro abaixo:
CÓDIGOS SUBTEMAS TEMAS
Segurança Intervenção competente Qualidade e efeitos do
cuidado multidisciplinar
Entrosamento Intervenção articulada
Escuta aberta
Requisitos que se articulam à
formação técnica Integralidade no cuidar Humanização do
cuidar
Educação para
saúde Compromisso profissional
Transformação
Natureza e efeito da intervenção competente
Reconhecimento da condição humana pelo
profissional da saúde Humanização do
cuidar
Autoconfiança Mudanças operadas pela
intervenção __________________________ Intervenção competente Impacto existencial Ressignificação da velhice Atendimento responsável e eficiente
A fala do Sr. João mobiliza, como se pode notar, representações bastante positivas acerca da AGA e da contribuição do profissional enfermeiro na promoção da sua saúde. Nela, se articulam conceitos fundamentais discutidos nos capítulos 1 e 2, entre os quais se destacam: o redimensionamento da noção de saúde (com a inclusão de considerações sobre o corpo numa visada para além do orgânico); a importância da assunção, pelo profissional da saúde, de uma posição de escuta para o que faz sofrer esse corpo; a íntima articulação entre educação e promoção da saúde; a própria velhice revisitada a partir do reconhecimento, pelo outro, de uma condição de potência, mais do que de déficit; o caráter interdisciplinar de uma intervenção competente.
Note-se que, na primeira questão, a precipitação do tema “qualidade de atendimento” se faz notar através de um colocar em relação às noções de competência (técnica) e de capacidade de entrosamento entre os profissionais. De fato, como discutimos no capítulo 2, o “ampla” que qualifica a avaliação geriátrica, depende da implicação necessária dessas duas variáveis. Ela não é uma mera referência ao número de profissionais envolvidos, mas ao modo como eles devem se articular para cuidar do idoso: a partir de sua competência técnica, abrir a escuta para o que se lê do caso clínico a partir de outras competências técnicas para, assim, “escutar” a especificidade da demanda de intervenção em cada caso. Interessante notar que, nas palavras do Sr. João isso não se faz sem outra condição: “escutar” o que diz o paciente, mesmo que esse dizer ultrapasse o que se espera no saber construído nos vários campos disciplinares. Esse parece ser um fundamento para a criação e fortalecimento de vínculos entre
terapeuta(s) e paciente, como a presença do significante “segurança”, na fala do Sr. João, sugere. Importante colocar em relevo o fato de que, neste caso, a “falta de segurança” na indicação de um procedimento, feita pelo médico cooperado, parece ter sido determinante da dificuldade de decisão de realizá-lo.
Chamo a atenção para o fato de que o profissional em causa não faz parte da equipe que compõe a AGA e o paciente chegou até ele sem uma indicação nominal. Quando a equipe considerou a necessidade de escutar um cardiologista - e não o cardiologista - sobre a condição clínica do Sr. João desconsiderou que tal procedimento poderia abrir espaço para que o paciente suspeitasse da sua “falta de entrosamento” com a equipe. Afinal, para o Sr. João, o “entrosamento [...] é importantíssimo para que consigam identificar em que precisam intervir na vida e saúde do idoso”. Essa representação, construída no âmbito das atividades do Programa “Viva melhor a melhor idade”, foi decisiva para os desdobramentos deste caso. “Escutar” o que disse esse paciente na entrevista me fez ver, retroativamente, que o procedimento adotado feria, para ele, o compromisso com o ideário que sustenta a AGA: afinal, o médico cooperado não foi apresentado como articulado – de nenhum modo – com os outros profissionais da equipe. Assim, sua posição para tomar decisões que poderiam intervir “na [sua] vida e saúde” foi questionada.
Vale dizer que, sem intenção, minha intervenção (quando procurada por Sr. João para orientá-lo) só fez pronunciar à “falta de entrosamento” da equipe com o referido médico. Por isso, não se ofereceu como suporte para que ele decidisse pela realização do procedimento que, desde o início da AGA, já se suspeitava ser essencial para a sua “vida e saúde”. Alie-se a isso, a discrepância nos resultados dos exames realizados: o paciente ficou paralisado ...e a equipe, também.
Entendo que esse fato nos convida à reflexão na medida em que nos oferece um problema: a condição subjetiva do paciente aliada à força da representação da AGA, criada no âmbito do Projeto, atravessaram esse processo de cuidado e promoção da saúde. Isso porque, do ponto de vista objetivo, pode-se indagar sobre a “eficiência” do atendimento já que ele não resultou em decisão para implantar o marcapasso. Sendo assim, deve-se igualmente questionar o porquê, do ponto de vista subjetivo, da insistência do Sr. João na eficiência da avaliação realizada. Do meu ponto de vista, ela está atrelada à marca de acolhimento que se imprimiu às demandas que ele dirigiu à equipe. Digo isso porque levo em conta a seguinte afirmação do Sr. João: “a avaliação
realizada ajuda muito, psicologicamente, mentalmente e fisicamente falando, pois, nos
dão muita atenção, faz nos sentir importantes como seres humanos”.
É importante lembrar ainda que, de início, a psicóloga havia observado indícios para desenvolvimento de um quadro depressivo. Como Sr. João não foi acompanhado psicologicamente, talvez se possa pensar que sua participação nas atividades grupais (marcadas pela dinâmica do falar/escutar) possa, ao lado da acolhida antes referida, ter jogado um papel na dissipação do movimento em direção ao quadro sintomatológico anunciado. Considero aqui a possibilidade de relacionar ambas com a recuperação da “autoconfiança” e, principalmente, com a “ressignificação da velhice” referidas em “eu tornei-me mais confiante em mim, mais observador das circunstâncias [...] antes me sentia um velho, sem valor algum... agora tudo é diferente na minha vida”.
Como se vê, o sentido de “cuidar” veio à tona no dizer do Sr. João. Dizer que nos convoca a debater a necessidade de construção de novas formas de pensar e agir para superar a lógica (dominante na área da saúde) que sustenta a abordagem da doença, a partir de uma perspectiva exclusivamente racional, e do doente, pela via da metáfora “corpo-máquina” (como assinalado no capítulo 1). Quando o atendimento multidisciplinar é orientado pelo paradigma da interdisciplinaridade, ele pode se tornar uma ferramenta fundamental para acolher o humano em sua complexidade constitutiva. Essa discussão não nos deixa esquecer a dificuldade para cumprir esse compromisso já que a prática cotidiana dos profissionais da saúde se realiza em ambientes nos quais a formação de equipes para o atendimento do idoso nem sempre é possível. Acho, entretanto, que ele nos ensina que a “abertura da escuta” implica mais do que atitude para “ouvir” opiniões (de outros profissionais) e queixas (dos pacientes). O que está em causa, na verdade, é a necessidade de colocar em relação o feixe de representações que se constrói a partir dos encontros entre esses sujeitos, de tal modo que cada um deles se sinta incluído, e inclua o outro, na dinâmica da tomada de decisões sobre a intervenção.
Levando em conta tais considerações, acho oportuno recolocar o debate sobre a questão que envolve a “educação para saúde”. Como vimos no capítulo 2, o conceito de “educar” nos remete ao de “ter cuidados com”. Perspectiva que nos convoca a refletir sobre o significado do que se transmite no ato educativo. Segundo o psicanalista Lajonquiére, ele “carrega uma dose de existência, uma cota de ‘saber fazer com a vida’, ou seja, um savoir vivre” (LAJONQUIÈRE, 2000, p.168). Nessa medida, pela via do discurso, pode-se abrir, para o outro (o denominado “aprendiz”) um espaço identificatório. Como se sabe, o processo identificatório implica, como assinala Lajonquière, além de um
“deixar de estar a sós” (p. 169), um outro tipo de ganho. Afinal, “a reconstrução em-si e para-si de um conhecimento qualquer, além de ter efeitos mais ou menos utilitários em diferentes registros da sobrevivência de alguém, estende as fronteiras da vida” (p. 168). Não me parece outra coisa o que está em causa no rol de mudanças referidas pelo Sr. João. Ao seu modo, ele refere essa ampliação quando traz à tona a ressignificação da velhice. Arrisco-me a dizer que esse era um lugar aberto, no discurso dos profissionais da equipe, para ele se identificar.
“Educar para saúde” não deve se configurar, portanto, como “treino”, “adestramento” ou “prescrição” de comportamentos: concepção que implica morte subjetiva. Ao contrário, Lajonquière nos mostra que, nesse processo, há sujeito que pode (ou não) identificar-se com o discurso que lhe é dirigido. Portanto, mesmo no campo da saúde, é preciso colocar sob suspeição a natureza prescritiva (sustentada na noção de “controle”) das intervenções educativas. A aprendizagem só é efetiva se o sujeito (que é colocado pelo outro na posição de “aprendiz”) reconhece-se na história que é mobilizada para ensinar-lhe algo. Há, portanto, um grau de liberdade que se coloca no processo educativo, imprimindo-lhe uma certa marca de imprevisibilidade. Isso não é diferente na área da saúde. Entendo que a dificuldade de tomada de decisão para implantação do marcapasso pode ser lida a partir das considerações que acabo de fazer. Elas me levam a concluir, também, que a promoção de uma vida saudável está condicionada por sutilezas de natureza subjetiva e não é uma mera conseqüência dos desdobramentos tecnológicos do conhecimento científico que se projetariam, pela via educativa, para o conjunto de sujeitos reunidos numa dada sociedade.
Resta abordar o modo como o Sr. João se referiu ao trabalho do profissional enfermeiro no âmbito do Programa “Viva melhor a melhor idade”. Note-se que o poder de transformação que ele atribuiu a esse profissional está intimamente relacionado com o cuidado humanizado em saúde. Relação que, como já discuti, atravessou sua avaliação sobre a AGA e à equipe profissional como um todo. Mas, talvez fosse interessante explorar mais profundamente um dos dizeres que coloquei em relevo na resposta à questão 3. Considero instigante a comparação contida no primeiro deles: “o enfermeiro pode transformar um idoso numa criança feliz, um moribundo numa pessoa saudável”.
Esse enunciado, num primeiro momento, surpreende porque coloca em jogo uma transformação estranha e indesejável, a transformação do idoso em criança (um efeito iatrogênico deste processo de cuidado?!). Indaguei-me sobre se seria, de fato, isso
mesmo que ele queria dizer. Por tudo que já discutimos até aqui, acho que não. Digo isso, também, apoiada no que não pude deixar de notar nesse enunciado: ele coloca duas estruturas em paralelo, fazendo equivaler “idoso” a “moribundo” e “criança feliz” a “saudável”. Configuração que nos permite ler, nas entrelinhas, sua provável representação da velhice que, do meu ponto de vista, se explicita nesse jogo combinatório que associa idoso com “moribundo”, mas, também, com “infeliz” (significante ausente da fala manifesta, mas presente na significação que essa fala implicitamente veicula).
Apóio-me nessa análise para ratificar a idéia de que, por efeito de sua participação no Programa, uma mudança parece estar em curso: Sr. João está processando a ressignificação de sua própria velhice (como se lê na sua resposta à questão 4 da entrevista realizada). Nessa medida, há que se reconhecer um impacto que renova o significado da sua existência como sujeito porque não se restringe à sua condição vital biológica. Uma conquista e tanto que, devo dizer, não resulta da ação isolada do enfermeiro. Não posso deixar de assinalar, entretanto, que o Sr. João e sua esposa me elegeram como interlocutora privilegiada, como anunciei anteriormente.