3. METODE
3.2. SOFTWARE
A Etnolinguística é o estudo das relações existentes entre linguagem e cultura, entre língua e cultura, portanto entre duas ciências, a linguística e a etnologia. Também chamada de linguística antropológica ou antropologia linguística, desenvolveu-se principalmente entre os norte-americanos, a partir do século XIX. A Etnolinguística propõe-se a analisar os possíveis relacionamentos da linguagem em geral, e das línguas em particular, com o ambiente cultural em que são produzidas. Procura analisar as línguas faladas pelas diversas sociedades, a adaptação dessas línguas ao ambiente cultural do grupo, bem como a sua capacidade de exprimir as experiências vividas.
Produto da união entre a Antropologia e a Linguística envolve também princípios teóricos da Sociologia, da Psicologia ou Ciência Cognitiva, entre outras vertentes que têm interesse pelas relações linguísticas culturais e processos cognitivos, podendo desse modo com maior profundidade fazer a investigação de um ou outro aspecto. Assim, a linguística se desdobra em sócio, geo e psicolinguística, entre outras vertentes que, muitas vezes, complementam-na.
A Etnolinguística, talvez seja quem melhor caracterize esse caráter de complementação, tendo em vista a interdisciplinaridade com a antropologia e a linguística, visto que a análise de um fato social não permite uma delimitação do objeto de forma unilateral. Através de um estudo etnológico sobre elementos culturais, incluindo a linguagem, Boas (2004, p.41-52) afirma:
Os fenômenos da linguagem mostram claramente que condições bastante diferentes daquelas para as quais a psicanálise dirige sua atenção determinam o comportamento mental do homem [...] As categorias de linguagem nos compelem a ver o mundo arranjado em certos grupos conceituais determinados, que, pela nossa falta de conhecimento dos processos linguísticos, são tomados como categorias objetivas e, portanto, se impõem à forma de nossos pensamentos.
O estudo dos usos linguísticos no seio da vida social está concentrado na Etnolinguística, explicando, desse modo, o significado que as formas linguísticas adquirem nos contextos em que são utilizadas, permitindo descobrir padrões interativos reveladores de visões do mundo e a forma de relação entre os indivíduos. Segundo Valls (2000, p.10), este
ramo da Linguística produz instrumentos de descrição e análise que proporcionam a observação do funcionamento das línguas na construção das identidades individuais.
O contexto é extremamente importante, nesse sentido, uma vez que a enunciação vincula-se a uma situação particular, para fins particulares. Assim sendo, a atividade verbal, na qual sua existência vai depender de fatores ligados a algo coletivo, seja visão de mundo, relações sociais, ou ideologia, tendo em vista que o falante é um ser social e histórico, é uma atividade situada. O interesse da Etnolinguística é pelo contexto de enunciação.
Os métodos de estudo da Etnolinguística variam de acordo com os interesses e orientações de linguistas e antropólogos. A Etnolinguística revela especialmente em seus estudos a função das línguas, que é promover a comunicação entre os seres humanos. As pesquisas etnolinguísticas revelam que é possível provar a influência da cultura no vocabulário e mesmo na gramática dos povos. Assim, o léxico de uma língua é condicionado pelos interesses, organização social e situação geográfica das sociedades que a fala. À medida que determinado grupo humano demonstra maior interesse em um elemento, seu léxico tende a apresentar vocábulos específicos, que distinguem as variedades ou as qualidades desse elemento. Por outro lado, o menor interesse de uma sociedade em determinado elemento revela-se na existência, de apenas um termo genérico para designá-lo. Podemos citar como exemplo um termo genérico em português para designar neve, enquanto os esquimós utilizam três palavras que designam tipos diferentes de neve. O ambiente geográfico condiciona os interesses da sociedade e, consequentemente, o seu vocabulário.
Na concepção de Duranti (2000, p.21-22), a disciplina se apresenta como “o estudo da linguagem como um recurso da cultura, e da fala como uma prática social” o falante seria um ator social e a linguagem “conjunto de estratégias simbólicas que formam parte do tecido social e da representação individual de mundos possíveis ou reais”. Para o referido autor (p. 143), a Etnolinguística tem como temas de interesse: a organização básica de relação entre sons e significados, tal como aparece no uso da linguagem real em diversas atividades sociais; a distribuição espacial do uso da linguagem; os significados culturais do que se entende como ritual ou linguagem cerimonial; distribuição social de estilos e gêneros de fala; o papel da socialização linguística na configuração da pessoa, da mente e das relações sociais; a interpretação de códigos distintos na constituição das mensagens e suas representações (análise semiótica).
Outras questões que poderiam parecer de interesse apenas de antropólogos ou cientistas políticos podem ser avaliadas pela Etnolinguística. Neste sentido, Souza afirma que:
A distinção entre os antropólogos linguistas e os outros estudos da linguagem está “no foco da linguagem como um conjunto de recursos simbólicos” que entra na constituição do sistema social e a representação individual de mundos reais ou possíveis. Isto permite que se abordem algumas questões da pesquisa antropológica: política de representação, constituição de autoridade, legitimação do poder, conflito cultural da pessoa, política de emoção e a relação entre desempenho ritual e formas de controle social entre conhecimentos específicos e cognição, entre a performance artística e a política de consumo estético e entre o contato cultural e a mudança social (SOUZA, 2000).
A descrição dos fatos não é única preocupação do método etnológico. Sua principal preocupação é com a compreensão desses fatos em relação com o conjunto ao qual pertencem. Segundo Cuche (1996, p. 445), “Um costume particular só pode ser explicado se relacionado ao seu contexto cultural”. A Etnolinguística compartilha desse princípio ao adotar o método antropológico da observação participante, partindo da premissa de que não se pode estudar uma cultura analisando-a do exterior, menos ainda à distância. Assim sendo, a contribuição teórica e metodológica que a Antropologia Cultural pode fornecer à nossa pesquisa é de grande significância, uma vez que essa disciplina se apresenta como o estudo da linguagem como recurso cultural, e da fala como uma prática social.