I.2.1. A existência da inteligência emocional
Desde Sócrates a Descartes, de Freud a Gardner e a Goleman, de Darwin a Damásio, entre tantos outros grandes pensadores e senhores da ciência, a inteligência emocional tem vindo a ser questionada, de uma forma direta ou indireta, sob esta designação ou constructo, ou outros diferentes. Através dos tempos, a inteligência emocional tem percorrido caminhos na filosofia, na psicologia, na neurologia, entre outros domínios. Assim atrevemo-nos a afirmar que é uma causa maior para o ser humano, variável demasiado importante da nossa condição, para que seja descuidada ou até desprezada.
Porque é que emoção e sentimento são termos e conceitos que inquietam o “espírito” e o pensamento do homem desde há séculos remotos até hoje? Seguramente porque são temas que estão intrinsecamente ligados ao homem e são indissociáveis da evolução da nossa espécie e das nossas sociedades.
Vários autores como António Damásio, sobretudo nas suas obras O LIVRO DA CONSCIÊNCIA e O ERRO DE DESCARTES-EMOÇÃO, RAZÃO E CÉREBRO HUMANO, Goleman em INTELIGÊNCIA EMOCIONAL e Gardner em Teoria DAS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS - A TEORIA NA PRÁTICA, conduziram-nos a duas afirmações fundamentais. Uma é a de que a inteligência emocional existe no ser humano, é teoria científica comprovada e assim sendo, facto adquirido, até prova em contrário. A outra é a de que sem a inteligência emocional, nenhuma outra inteligência se conseguirá valorizar efetivamente e até expressar-se. De que nos servem as múltiplas inteligências se não para as conhecermos, explorarmos, cruzarmos e, a partir daí sabermos viver realizados e felizes, connosco e com os outros?
Damásio confirma, sob um prisma científico, que todo o Homem nas suas condições “normais” é dotado de emoções. Umas inatas, que se manifestam desde o primeiro segundo de vida, outras, mais elaboradas, adquiridas, que se vão desenvolvendo e manifestando ao longo de toda a vida. Para além disso, é característica da espécie humana ter que lidar continuamente com essas emoções, as suas e as dos outros, entrelaçando a sua herança biológica e as suas
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experiências como ser individual com crenças e preceitos da cultura onde se inscreve, a sociedade.
O maior dos desafios deste tema é o de refletir sobre o paradoxo de que para além da razão, está a emoção. O “além”, não está antes nem depois, apenas existe enquanto nós existirmos, não se localiza no espaço nem no tempo. A emoção é o universo do homem, indissociável a um corpo e a um cérebro, indissociável à nossa existência como seres humanos. Nesta linha de pensamento entre a emoção e a razão, António Damásio encontra, com uma inteligência suprema, o título do seu livro O ERRO DE DESCARTES - EMOÇÃO, RAZÃO E CÉREBRO HUMANO, onde nos expõe numa abordagem científica e numa linguagem de clareza sublime, a sua visão sobre a inteligência emocional. Através desta obra, Damásio deixa-nos entender que, primeiro, o homem existe, como um todo, com todos os seus órgãos e sistemas numa interação complexa e contínua e, depois, pensa. Assim o “erro de Descartes” teria sido o de afirmar, “Penso, logo Existo”. Para Damásio, das suas análises resulta que podemos afirmar: “Existo, logo Penso”. Na realidade, para qualquer artista, criador ou até cientista, poderíamos ir mais longe, hipoteticamente, – “Sinto, logo Penso”.
Antes do pensamento está o nosso corpo e o nosso cérebro, num turbilhão de interações fisiológicas e químicas, de emoções e sentimentos emocionais, que nos levam aos pensamentos e às ações, desenhando a nossa própria existência. Damásio adverte que emoções e sentimentos emocionais não interagem “diretamente” com o pensamento racional. Pese embora essa dissociação de base científica, afirma contudo que as emoções e sentimentos são “pilares” do pensamento. Vejamos o que se pretende explicar citando o autor “…as emoções e os sentimentos são considerados entidades diáfanas, incapazes de partilhar o palco com o conteúdo palpável dos pensamentos, muito embora emoções/sentimentos constantemente qualifiquem os pensamentos.” (Damásio, 2011, p. 212).
Na fusão do corpo com o cérebro humano surgem as emoções e a inteligência emocional que nos permitem “sentir”, “pensar” e, através dessa rede, termos consciência e “experimentar- nos” a nós e aos outros.
Tem-se como afirmação plausível que a inteligência emocional é tão ancestral como o Homem, que existe desde que o Homem tomou consciência de que é Homem, e sentiu que é único e próprio entre os seus semelhantes.
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I.2.2. A razão da inteligência emocional
Segundo Damásio (2011), o homem social confronta-se em todo o momento com situações complexas que o levam a ter que tomar decisões. Processa essa informação, que liga corpo e cérebro no neocortex, a área mais evoluída do cérebro humano. Vemos que no córtex se situam as forças da razão e no subcortex os processos emotivos, numa zona mais primitiva do nosso cérebro. Uma não funciona sem a outra, a razão não funciona sem a “regulação biológica” da emoção. Continuando na linha deste autor, a razão é acionada a partir da emoção e interage com ela. O comportamento humano que se sobreleva aos impulsos e aos instintos é o resultado desta interação conjunta entre emoção e razão.
O homem procurou e procura em muitos momentos a construção de uma sociedade melhor, mais equilibrada, mais justa e mais consciente dos seus valores e atitudes. Este pensamento constrói-se em torno do ser coletivo. Para nos revelarmos como ser coletivo temos que nos identificar como ser individual. Temos que nos procurar interiormente como indivíduos conscientes, equilibrados, felizes, mapeando, manobrando e educando as nossas capacidades inatas e apreendidas em prol da construção positiva do eu, da sociedade e, no limite, da humanidade.
Tomemos pois consciência que para nos validarmos como indivíduos em plena realização pessoal e social, temos que nos educar conscientes da nossa inteligência emocional, ou da falta dela.
I.2.3. O que é a inteligência emocional
Estudada por várias ciências e abordada de uma forma tão brilhante como o faz Damásio em várias das suas obras e de uma forma específica em O ERRO DE DESCARTES – EMOÇÃO, RAZÃO E CÉREBRO HUMANO, podemos ver a inteligência emocional em diferentes abordagens, pontos de vista e opiniões.
Salovery e Mayer, psicólogos, foram os pioneiros a abordar o conceito de inteligência emocional. Estes autores consideraram que a inteligência emocional é um conjunto de aptidões que permitem ao ser humano entender, expressar e dominar as suas emoções.
Nessa linha de pensamento, podemos afirmar que a inteligência emocional é uma faculdade do ser humano que nos permite ter a capacidade de sentirmos, compreendermos, controlarmos e até modificarmos as nossas emoções, face a nós próprios e aos outros. No complexo mundo da inteligência emocional poderemos entender as nossas emoções, orientá- las e equilibrá-las, na procura incessante de uma vida mais feliz.
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Segundo estudos científicos levados a cabo por António Damásio, Hanna Damásio e as suas equipas de cientistas e investigadores, a inteligência emocional depende de processos cerebrais que se baseiam nas trocas eletroquímicas localizadas em zonas do cérebro perfeitamente identificadas e, em trocas permanentes entre o cérebro e todo o corpo. Cérebro e corpo estão em permanente comunicação através dos sistemas nervosos central e periférico e, as trocas são permanentes e dependentes, o cérebro necessita do corpo e o corpo do cérebro. Estas trocas, em permanente equilíbrio, identificam no ser humano a sua diferença para os outros seres vivos. Um ser emotivo, pensante, capaz de raciocínio, decisão e razão.
A nossa mente depende das relações que o nosso cérebro estabelece com o nosso corpo e vice-versa. São as trocas entre a parte sensorial do corpo, os sinais que o corpo envia ao cérebro, as respostas do cérebro e os sinais que envia de novo ao corpo, tudo quase em simultâneo, que constitui a nossa mente, as nossas emoções, o nosso pensamento e as nossas ações. Das ações podemos considerar que algumas são voluntárias mas, nem todas. Haverá muitas que serão controladas pelas nossas emoções mais primitivas e, essas, poderemos não controlar, ou talvez sim, à luz da inteligência emocional.