Resultados de pesquisas sobre epilepsia e desempenho escolar têm sido inconsistentes e contraditórios. Muitas são as causas para o desempenho escolar não satisfatório.
Segundo o programa canadense Epilepsy Ontário (2007, p. 01), que orienta as pessoas no Canadá sobre epilepsia, uma das grandes preocupações dos pais cujos filhos são epilépticos é com o desempenho escolar. “Qual deve ser a expectativa acadêmica? Medicações antiepilépticas afetam a aprendizagem da criança?” O programa ressalta a importância do professor no processo ensino- aprendizagem e que as atitudes dos professores influenciam na auto-percepção da criança. Necessário enfatizar que a epilepsia não é contagiosa e que a mente das crianças com epilepsia é igual à de outras crianças.
Epilepsy Ontário (2007) orienta os pais que a criança com epilepsia necessita de uma rotina e de um ambiente estruturado na escola, além de não ter a aprendizagem e experiências sociais restringidas. Esta é uma das maneiras de encorajar as crianças que são inseguras oferecendo desafios e responsabilidades.
O contato com os pais é de fundamental importância no sentido de manter-se informado sobre as condições da criança.
O estudo citado Epilepsy Ontário (2007) ressalta que a aprendizagem é um longo processo. “A habilidade de aprendizagem que a criança desenvolve durante o período escolar permanece com eles para o resto da vida deles. É importante que a aprendizagem seja positiva e prazerosa.” (p. 03).
O artigo apresentou que a aprendizagem não é um simples envolvimento de instruções do professor para com os alunos. O que os alunos aprendem é em grande parte com as interações entre todos e as experiências negativas encorajadas pela escola podem ter implicações no relacionamento social futuro.
Segundo pesquisa realizada por Aldenkamp, em Maastricht University Hospital, na Holanda (2006, p. 219), sobre prejuízo acadêmico na epilepsia,
a exata causa do prejuízo cognitivo na epilepsia não tem sido completamente explorado. O fato que três fatores estão envolvidos: a síndrome, que freqüentemente inclui a etiologia, as crises repentinas e os efeitos do tratamento.
Esses foram resultados de relatos relevantes da pesquisa clínica. Apesar dos achados clínicos, na prática o problema cognitivo tem origem em multifatores, além dos três fatores mencionados anteriormente. Segundo o estudo, o impacto das crises leva a conseqüentes prejuízos acadêmicos para a grande maioria dos pacientes.
Em uma pesquisa realizada no ambulatório de neurologia do Hospital e Maternidade Celso Pierro, PUC, em Campinas (2004), com objetivo de analisar o desempenho escolar em crianças com epilepsia benigna da infância com pontas centro temporais (EBICT), foi aplicado o teste de desempenho escolar (TDE) – instrumento psicométrico desenvolvido e aplicado no Brasil em crianças com epilepsia e em crianças que não tinham antecedentes sugestivos de patologias com envolvimento do sistema nervoso central. O teste teve como objetivo oferecer uma avaliação das capacidades fundamentais para o desempenho escolar, mais especificamente da escrita, aritmética e leitura. Fonseca e col. (2004b) afirmaram que as crianças com EBICT tiveram de modo significativo desempenho inferior no teste inicial de leitura e escrita em relação às crianças que não tinham epilepsia. Em aritmética, não houve diferença significativa em relação às outras crianças. Os resultados apontaram também que o uso de medicação antiepiléptica não interferiu no desempenho no teste TDE e que anormalidades eletrencefalográficas apresentadas resultam em maiores erros durante a leitura e maior comprometimento auditivo.
É importante considerar que, para que tenhamos maior veracidade dos resultados, se faz necessário associar os achados da pesquisa com a história escolar do aluno. O desempenho escolar depende de outros dados que, normalmente, só a professora e a equipe psicopedagógica possuem.
Uma outra pesquisa realizada por Ibekwe, Ojinnaka e Iloeje na University of Nigéria, Enugu-Nigéria (2007), mostrou que diversos fatores têm efeitos negativos para o desempenho abaixo do esperado da criança com epilepsia, tais como reduzido quociente de inteligência,
ausência na escola, problemas psicossociais, medicações antiepilépticas, tipo, controle e idade do início das crises e achados do eletroencefalograma.
A pesquisa realizada na University of Nigéria (2007, p. 04) apresentou que crianças que faltam muito à escola têm um baixo rendimento escolar. “Faltar à escola foi significativamente, mais freqüente nas crianças com epilepsia do que o grupo controle desse estudo. A razão da alta taxa de ausência pode ser causada por fatores psicossociais e não pela severidade da doença.” Faltar às aulas, consecutivamente, levará a resultados não positivos para todos os estudantes, independentemente de ter epilepsia ou não. Provavelmente, o desempenho acadêmico não será satisfatório.
Na pesquisa foram apresentados outros fatores que direcionam para o fracasso escolar, porém não são interessantes casos apontados isoladamente. Faz-se necessário identificar as crianças com epilepsia e oferecer assistência educacional em escolas normais, afora observar atentamente a atitude negativa dos professores e a estigmatização social. Esses fatores podem contribuir para desencadear problemas de comportamento.
Uma pesquisa realizada em Indiana University School of Nursing, em 2005, mostrou que crianças com epilepsia têm mais risco de problemas escolares do que crianças que não a apresentam. O estudo revelou que os componentes que levam a esse resultado ainda não foram muito explorados. Apesar de terem sido mencionados inúmeros fatores, os professores ressaltaram a fadiga, a doença (crises e tratamento) e o estresse como fatores que afetam o desempenho acadêmico. Foram apontados, com muita freqüência nas crianças com epilepsia, a atenção e problemas de memória como determinantes do desempenho na sala de aula. O estudo sugere que se faz necessário coordenar a medicina com a educação no sentido de encorajar a escola para a condução de intervenções que maximizem a habilidade das crianças para o sucesso.
Williams et al. (2001) investigaram a opinião dos professores sobre a capacidade e comportamento das crianças com epilepsia e citaram novamente, como no estudo anterior, a atenção como um componente que pode estar associado com o decréscimo do desempenho acadêmico das crianças com epilepsia.
Rotta e Visioli-Melo (2000) realizaram um estudo com o título “avaliação pelo P300 de crianças com e sem epilepsia e rendimento escolar”, com o objetivo de verificar a repercussão da epilepsia em relação ao potencial cognitivo, P300. O instrumento (P300) é um adjunto clínico que mensura neurofisiologicamente o processo cognitivo.
Rotta e Visioli-Melo (2000) citam que Seidenberget et al (1986) correlacionaram alta incidência de problemas escolares com epilepsia, sendo que crianças epilépticas apresentaram menor desempenho escolar.
Os resultados da pesquisa de Rotta e Visioli- Melo (2000) mostraram que 99 crianças não demonstraram diferença significativa quanto ao rendimento escolar por apresentarem ou não epilepsia, ou seja, não foi encontrada repercussão da epilepsia em relação ao potencial evocado cognitivo, P300.
Porém, um dado interessante apresentado na pesquisa foi que, quando considerada a renda familiar em relação ao rendimento escolar das crianças, houve diferença significativa quanto ao desempenho escolar.
Rotta e Visioli-Melo (2000, p. 481) afirmaram que o estudo revelou que
o grau de escolaridade materna está associado significativamente com o desempenho escolar da criança. Mau rendimento escolar foi mais frequentemente encontrado em filhos de mães com baixo nível de instrução escolar.
Portanto, a escolaridade da mãe e a renda per capita estão significativamente relacionadas ao desempenho escolar da criança.
Segundo esse estudo, podemos afirmar que fatores sócio-culturais influenciam nos distúrbios cognitivos e do aprendizado. Provavelmente, o mau rendimento escolar deve-se à falta de oportunidades que a criança teve durante toda a vida.
É importante ressaltar que os trabalhos citados anteriormente advêm de estudos médicos, todos carregados de uma visão da patologia, realizados na grande maioria em ambulatórios de neurologia. Essa visão medicalizada da sociedade e da escola tem contribuído para transformar um grande número de crianças normais em doentes, como relatado por Collares (1995) anteriormente. Percebemos que estas questões estão intimamente ligadas ao discurso prevalecendo à medicina na prática pedagógica do professor.
Aldenkamp, Overweg-Plandsoen e Dipman (1999) avaliaram dois grupos de crianças um com epilepsia e dificuldade de aprendizagem e outro grupo de crianças com dificuldades de aprendizagem, mas sem epilepsia. Compararam a habilidade acadêmica de leitura, ortografia e aritmética. Os resultados mostraram que não existe diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos. Além disso, mostrou que um fator que pode contribuir para os problemas de aprendizagem é o não controle das crises, isto é, a freqüência com que as crises ocorrem pode levar a um baixo rendimento. Em função dos efeitos colaterais após as crises, o aluno poderá ter mais falta, porém o fato é que depois de um episódio a criança
necessita de um tempo maior para se recuperar e voltar ao seu funcionamento normal. Apesar de que não tem a ver com o agravamento do quadro.
Vermeulen et al (1994) realizaram outro estudo semelhante na Holanda, no qual foram examinadas dificuldades de aprendizagem de crianças com epilepsia e de crianças sem epilepsia. Os resultados mostraram que as crianças com epilepsia obtiveram um melhor desempenho no teste de inteligência verbal. Foi relatado também um melhor desempenho na habilidade da ortografia. Apesar de o desempenho ter sido superior nestas áreas, a dificuldade de aprendizagem dessas crianças é maior do que a do grupo controle. Mesmo assim, a pesquisa sugere a não-necessidade de um diferente trabalho com as outras crianças com dificuldades de aprendizagem.
Outro estudo realizado por Henriksen, na Noruega, no National Center for Epilepsy, (1990), em que foram pesquisadas crianças com dificuldades de aprendizagem, mostrou que problemas psicológicos em pacientes com epilepsia, combinados com os efeitos das drogas antiepilépticas, podem levar a problemas de aprendizagem e que o controle profilático das crises com uma droga apropriada pode aliviar os problemas de aprendizagem. O estudo revelou a importância da integração da criança em uma escola normal. É interessante ter um olhar psicopedagógico para que a criança se desenvolva da melhor maneira possível.
Na Pennsylvania, é desenvolvido um programa que tem o objetivo de informar a população sobre o que é a epilepsia, que divulga e discute sobre a desordem neurológica. Existe um projeto, chamado “Alerta escola”, oferecido para esclarecer a população. Esse programa mostra que crianças com crises de ausência, geralmente ocorridas dentro da sala de aula, posteriormente podem apresentar dificuldades de aprendizagem. A criança pode estar ouvindo parcialmente, vendo parcialmente, porém tendo crises convulsivas. É muito importante buscar a causa para que possa ser administrada a dificuldade da melhor maneira.
O programa relata também que fatores psicossociais como expectativa da família e da escola para com a criança, problemas emocionais e comportamentais podem ter um impacto na aprendizagem do estudante com epilepsia. Afirma, ainda, que esses fatores podem ser causas ou conseqüências das dificuldades acadêmicas. Além do estigma que existe em algumas comunidades, podem levar ao estresse da vida do estudante, resultando em um desempenho pobre na escola.