Kapittel 4 - Presentasjon av funn
4 Presentasjon av funn
6.4 Forslag til videre forskning
A concepção do trabalho a partir de uma perspectiva crítica44, interdisciplinar e pluriprofissional sempre esteve no horizonte das experiências de formação sindical desenvolvidas no âmbito da Política Nacional de Formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), à qual estive vinculado profissionalmente no período de 1997 a 2004, integrando a equipe de Formação da Escola Sindical 7 de Outubro. Desde sua gênese, em meados da década de 1980, a política de formação da CUT expressa a necessidade de se conceber os processos formativos de trabalhadores e dirigentes sindicais de modo a promover o encontro entre
43 Tomo aqui a formulação da Escola Sindical 7 de Outubro para justificar a referência plural a essa realidade: “ a Escola prefere falar não em mundo do trabalho, mas em mundos do trabalho, com o intuito de dar evidência a esse caráter plural das relações de trabalho e das organizações de processos produtivos” (2002, p. 10). Por sua vez, essa formulação é uma referência ao título do estudo conduzido pelo historiador inglês, Eric Hobsbawm (2000), sobre o cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras entre os séculos XVIII e meados do século XX. Cf. HOBSBAWM, E. Mundos do trabalho: novos estudos sobre história operária. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, 447p.
saberes instituídos pelas diversas disciplinas que têm o trabalho como objeto de reflexão e análise, e os saberes acumulados pelos sujeitos ao longo de suas trajetórias de vida no trabalho e em outros espaços de socialização e engajamentos sócio-políticos.
O trabalho de formação desenvolvido pela Escola Sindical se constituiu em estreita cooperação com a equipe de professores e pesquisadores pertencentes ao Núcleo de Estudos sobre Trabalho Humano da Universidade Federal de Minas Gerais (NESTH)45, sendo que, desde a formulação da primeira versão do projeto político-pedagógico da Escola Sindical, é ressaltada a importância do diálogo interdisciplinar para a compreensão e intervenção nas múltiplas dimensões em que se manifestam os mundos do trabalho.
44 A perspectiva crítica que aqui fazemos referência se apresenta como resultado da dialética entre negatividade e positividade manifestadas no mundo do trabalho. Significa o reconhecimento de que o mundo do trabalho é atravessado por contradições que exibem simultaneamente e a todo o momento, os conteúdos deformador e formador do trabalho, o que nos faz indagar permanentemente acerca do potencial transformador, ou nos termos utilizados por Schwartz (1988), na concepção do trabalho como experiência. 45 O NESTH foi criado no final do ano de 1985 como um programa interdisciplinar vinculado ao Conselho de Extensão da UFMG. Os principais objetivos presentes em seu projeto inicial apontavam para a necessidade de possibilitar a interdisciplinaridade das pesquisas e atividades de extensão relacionadas com o tema trabalho humano e estabelecer intercâmbios com instituições afins. Nesse sentido, o estabelecimento de um termo de cooperação entre o NESTH e a Escola Sindical 7 de Outubro manifestou o engajamento das respectivas equipes no desenvolvimento de um programa de trabalho comum de compreensão e busca de transformação das realidades exibidas pela dinâmica do mundo do trabalho.
Esse princípio encontra-se explicitado em diversos documentos sobre a política de formação da CUT, como exemplificado na primeira versão do projeto político-pedagógico da Escola Sindical 7 de Outubro:
O desafio que se coloca para os educadores e para suas instituições de formação é como partir de fato desse conhecimento acumulado e fazê-lo interagir com o saber já sistematizado, sem que um se subordine previamente ao outro, nem que este ou aquele seja desqualificado pela sua origem empírica ou acadêmica, antes os levando a se vivificarem mutuamente. O conhecimento do educando não pode, de um ponto de vista democrático, servir como mero trampolim para a verdade do educador ou da entidade de formação. Não se trata de fazer uma concessão ao educando, como artifício pedagógico, para logo em seguida repassar-lhe o saber dos que já sabem, nem tampouco de propor um diálogo entre educador e educando com o itinerário do diálogo já previamente determinado pelo educador e as suas conclusões previamente estabelecidas. Trata-se, isto sim, de deflagrar uma dialética entre duas modalidades de experiência intelectual e de saber igualmente válidas e legítimas, para que da sua contraditória integração possa resultar um conhecimento superior, a um só tempo universal e encarnado na vivência singular (ESCOLA SINDICAL 7 DE OUTUBRO, 2002, p. 66).46
A observância desse princípio contribuiu para que houvesse o empenho, por parte dos responsáveis pelo desenvolvimento da política de formação sindical, visando à constituição de equipes de educadores com trajetórias acadêmicas pautadas pela vinculação a diversas disciplinas, tendo como ponto de contato comum a aceitação desse princípio e o compromisso
46 Percebe-se no fragmento acima a manifestação de um dos princípios da educação democrática presente nas práticas de diversos segmentos dos movimentos sociais e que fora sistematizada na extensa obra do educador brasileiro Paulo Freire sobre a educação popular. Sobre a relação existente entre essa política de formação e a concepção de educação proposta por Paulo Freire. Cf. Manfredi (1996).
com as transformações dos mundos do trabalho. Assim, durante o período acima mencionado, constituíram a equipe de formação da Escola Sindical 7 de Outubro profissionais provenientes de diversas áreas do conhecimento: sociologia, psicologia, agronomia, administração, economia, filosofia, história, geografia, pedagogia, serviço social, segurança do trabalho, além da presença pontual de outros profissionais formados em medicina, ciências jurídicas, comunicação social, ergonomia etc.
A organização das atividades de formação refletia em sua lógica as diversas perspectivas de abordagem proporcionadas por esse encontro de profissionais portadores de saberes e experiências específicos em torno de questões afetas aos mundos do trabalho, sendo que o reconhecimento por parte dos membros da equipe da necessidade de construir uma interação entre as abordagens particulares desenvolvidas no âmbito de cada disciplina proporcionava o ambiente favorável aos intercâmbios e retrabalho conceitual de cada uma das perspectivas teóricas convocadas nas atividades de formação.
Dessa forma, havia a construção de um ambiente propício à circulação de idéias e perspectivas analíticas cuja exigência maior se dava em torno do potencial explicativo apresentado pelos conceitos forjados no interior das disciplinas para analisar determinados fenômenos e conferir inteligibilidade a certas situações que, em muitos casos, ultrapassavam a
capacidade explicativa de conceitos fornecidos por uma disciplina particular.
Essa postura epistemológica de promoção de encontro interdisciplinar esteve também presente em minha dissertação de mestrado, que investigou o potencial educativo da organização autogestionária do trabalho a partir de um estudo de caso sobre a experiência de luta e organização dos trabalhadores da Cooperativa Autogestionária dos Trabalhadores da Mambrini (COOPERMAMBRINI).47 Situamos a experiência de organização da cooperativa no interior do movimento de ajuste macroeconômico e de racionalização produtiva evidenciado na década de 1990, de modo a destacar as conseqüências perversas provocadas por esse modelo de ajuste no historicamente precário padrão de funcionamento do mercado de trabalho nacional e na situação das empresas pouco dinâmicas, que apresentaram mais dificuldades em se adequar às exigências de qualidade e produtividade preconizadas pelo acirramento da competição em seus mercados. A partir da confluência de fatores de ordem econômica, política e sócio-cultural, situamos a
47 A dissertação intitulada “O caráter pedagógico da produção associada: estudo de caso sobre o aprendizado da autogestão na Cooperativa Autogestionária dos Trabalhadores da Mambrini”, elaborada sob a orientação da professora Dra. Antônia Vitória Soares Aranha, foi defendida em agosto de 2003 na Faculdade de Educação da UFMG. Uma síntese desse trabalho encontra-se publicada na coletânea organizada por Tiriba & Picanço (2004) intitulada Trabalho e Educação: arquitetos, abelhas e outros tecelões da economia popular solidária.
emergência de experiências associativas, que vêm definindo um campo de múltiplas relações denominado de Economia Solidária.
Tendo por base as experiências de formação de trabalhadores colocadas em prática na Escola Sindical 7 de Outubro nas questões que dizem respeito à Economia Solidária, foi possível desenvolver um modelo teórico que revelou que a gestão desses empreendimentos autogestionários pode ser entendida como uma permanente articulação entre as dimensões da economia, da política e das relações sociais comprometidas com os valores da autogestão. Assim, nessa investigação, procurei identificar as estratégias de constituição e socialização de saberes relacionados a cada uma das dimensões acima demarcadas, partindo do princípio de que os trabalhadores mobilizam, em suas experiências de trabalho e em outras relações sociais, um conjunto de saberes que vão ser convocados no cotidiano para enfrentar os desafios postos pela autogestão da cooperativa. Essa forma de abordar o tema demandou o aprendizado de conceitos construídos no interior de várias disciplinas particulares e a articulação dos mesmos na tentativa de conferir sentido à experiência.
Entretanto, ao refletir sobre as experiências profissionais – vinculadas à formação sindical – e de pesquisa, deparei-me com interrogações epistemológicas que dizem respeito ao trabalho com os conceitos numa perspectiva de promoção de encontros disciplinares. Se a partir dessas
experiências foi possível colocar em prática a aproximação de diferentes campos do saber para a compreensão de problemas específicos, pude também perceber que esse princípio de cooperação carecia de uma fundamentação teórica capaz de dar sustentação a esse encontro. Nesse sentido, a abertura para a incorporação da abordagem ergológica vem responder a essa necessidade, de modo a apresentar novas ferramentas conceituais com desdobramentos na dimensão metodológica e na problematização de zonas de fronteiras entre disciplinas, configurando, assim, o esboço de uma iniciativa transdisciplinar articulada em torno da renovação do conceito de atividade.
3.2 Sobre alguns conceitos da abordagem ergológica incorporados à