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8. Konklusjon og videre arbeid

8.3 Forslag til videre arbeid

A hermenêutica se indaga sobre a sua contribuição enquanto filosofia como tal, considerando que por detrás sempre permanece a questão da finitude. A razão pura de que

484 Cf. Gadamer, 1996, p. 10. 485 Habermas, 2001, p. 99.

tratava Kant486 no século XX vai se historicizando e sendo marcada pela busca da verdade enquanto acontecer, portanto, ela sai do contexto de historicismo.

Surge assim o problema da historicização do sentido como um problema fundamental que a hermenêutica levanta e que permanece como ineliminável. Assim, a hermenêutica filosófica passa a se ocupar da constituição do sentido dos objetos (condições de possibilidade dos objetos – em Kant transcendental). Assim sendo, a hermenêutica traz a descoberta de que a constituição do sentido é histórica, sendo que denuncia a insuficiência do acesso à verdade por procedimentos empíricos487. O sentido se gesta intersubjetivamente – de geração em geração, na história, ele é gerado. Daí emerge um sujeito enquanto conceito unitário da pessoa que age, ao mesmo tempo espiritual como corporalmente. Essa teoria, conforme Apel, de uma pessoa unitária, é fundamental para uma teoria da ação. A hermenêutica é modo de compreender o não-método.

Conforme Stein o expressa bem, o ponto central que Gadamer toma de Heidegger é a idéia de que

somos um projeto já projetado, somos um jogo que já sempre foi jogado. Assim se faz uma passagem da situação hermenêutica para o acontecer da verdade. [...] Gadamer tomou do segundo Heidegger, depois de Ser e Tempo, essa idéia de que nós somos, desde sempre, um jogo jogado e que na hermenêutica nunca recuperamos tudo.[...] A Gadamer não interessa propriamente, em seu livro, aquilo que queremos e fazemos, mas aquilo que para além do que queremos e

fazemos nos acontece e que se refere a elementos que em gérmen estavam em Ser e Tempo, mas só foram totalmente desenvolvidos depois, em Contribuições para a filosofia488.

O fundamental é que a hermenêutica gadameriana descobriu, não em primeiro lugar, um novo método de trabalho, mas o acontecer da verdade, “no qual estão inseridos o intérprete e o objeto da interpretação”489 que não se deixam prender em esquemas lógico- formais. Por isso podemos afirmar:

A interpretação é hermenêutica, é compreensão, portanto, o fato de nós não termos simplesmente o acesso aos objetos via significado, mas via significado num mundo histórico determinado, numa cultura determinada, faz com que a

486 O elemento central da tradição kantiana, a saber, o dualismo é colocado em suspeita. “É por ele que fomos introduzidos na modernidade numa separação entre consciência e mundo, entre palavra e coisas, entre linguagem e objeto, entre sentido e percepção. Há, certamente já no ponto de partida de Heidegger, no movimento fenomenológico, uma crença firme de que esse dualismo somente pôde ser instaurado através do esquecimento do ser, através da introdução de um universo de fundamentação filosófica conduzida apenas pelo esquema da relação sujeito-objeto” (Stein, 2002, p. 88 – 89).

487 Compreender não é somente compreender objetivamente, às vezes se compreende simplesmente de outro modo.

488 Stein, 1996, p. 64. 489 Ibidem, p. 77.

estrutura lógica nunca dê conta inteira do conhecimento, de que não podemos dar conta pela análise lógica de todo o processo do conhecimento. Ao lado da forma lógica dos processos cognitivos, precisamos colocar a interpretação490.

É nesse contexto que a linguagem torna-se mediação necessária de todo conhecimento. Em Heidegger o ser se revela na linguagem. A linguagem passou de uma concepção meramente instrumental de comunicação para ocupar um status de condição de possibilidade. Ela é mediação de acesso ao sentido do real. A questão da linguagem é a dos fundamentos. Ela é a forma mesma de fazer filosofia primeira. A forma moderna de ontologia é uma reflexão da linguagem sobre si mesma. É uma grandeza transcendental. Então, sim, existe sentido em dizer que é necessária uma reestruturação da filosofia transcendental, a partir dos problemas levantados pela hermenêutica filosófica. Significa dizer que no século XX se dá um deslocamento da reflexão transcendental. Ao invés de perguntar pelas condições transcendentes na consciência, perguntamos sobre as condições de possibilidade do conhecimento intersubjetivo. Não se deve partir do fato da consciência, mas trata-se de passar de uma filosofia da consciência para a filosofia da linguagem, enquanto reflexão da linguagem sobre si mesma.

Desse modo, percebe-se que filosofia só se faz fazendo crítica ao mundo vivido, e aí a hermenêutica tem uma função essencial.

No conceito de mundo da vida inaugura-se, portanto, a retomada de um universo de interrogação que continua a velha temática da fundação da tradição, reposta, no entanto, em nova clave. Não é simplesmente a busca do antepredicativo, daquilo que é anterior a toda experiência, o “logicamente nu” de Wilhelm Szilasi. O mundo vivido é constituído a partir do universo da significação, mas já sempre dado para toda atividade significativa do ser humano. É, de certo modo, a fonte da significatibilidade possível, já sempre dada e que, contudo, se atualiza sempre de novo na significação que se constitui491.

O mundo vivido tem uma força racional tão grande que ultrapassa a pretensão do discurso racional. “Mas o mundo vivido não significa um novo fundamento no sentido clássico. É um lugar para o qual nos remetemos”492. Estamos num horizonte de sentido intersubjetivamente partilhado, a linguagem ordinária, que Platão denominou dóxa, é aquilo que é aceito sem crítica. A primeira tarefa consiste em fazer emergir uma instância crítica do mundo do senso comum. É no próprio mundo vivido que há razões historicamente fundamentadas. A tarefa primordial da razão está, pois, em pôr em

490 Stein, 1996, p. 18. 491 Stein, 2004, p. 12. 492 Stein, 2004, p. 39.

evidência, criticar a dóxa, relativizar todos os conteúdos considerados normais na vida histórica.

A segunda crítica da razão é a crítica das teorias existentes, quando se deve perguntar sobre sua validade. É a crítica aos profissionais da razão. A razão tem que ser conquistada, gestada historicamente. Hermeneuticamente falando, não se trata de uma transmissão de conhecimentos (ou conteúdos formais) a serem assimilados ou memorizados, por parte de quem deseja conhecer. A crítica se dirige à pretensão moderna de uma razão capaz de dar conta do saber absoluto493 enquanto tal494.

Pista disso poderia ser buscada na diferença entre a crítica em Platão e na filosofia transcendental. Para Platão, a verdade estava, de certa maneira, fora do mundo. Porém, na modernidade, a razão vai fazer uma crítica a si mesma. Em primeiro lugar, consiste em saber até onde a razão pode ir, os limites intransponíveis da razão. Ela quer refletir a si mesma. Kant aponta para uma finitude estrutural da razão, uma vez que aponta limites intransponíveis.

A grande tarefa da filosofia contemporânea, para Apel, é que filosofia não é pressuposição de objetos, mas da vida concreta. Refere-se às condições de possibilidade. A filosofia não trabalha com dedução. Filosofia, contemporaneamente, para Apel, é a que leva a sério a historicidade, sem cair num historicismo.

A tese básica de onde parte Apel é a própria ciência moderna que trouxe a idéia de que nossa realidade é fruto da racionalização. A racionalização significou desencantamento do mundo, resultando em que os outros tipos de saber, que não se movem dentro do paradigma objetificador, foram reduzidos ao mundo subjetivo. O dualismo do esquema sujeito-objeto nos levou ao solipsismo de um sujeito dominador, que se esqueceu do ser, em suas teorias do conhecimento da filosofia moderna. A hermenêutica filosófica, no entanto, nos devolve a possibilidade de repensar as condições de possibilidade da compreensão para além da perspectiva das ciências metodológicas.

493 Cf. Gadamer, “foi Hegel que descreveu em sua Fenomenologia do Espírito esse movimento da autoconsciência em direção a si mesma. Hegel viu naturalmente na autoconsciência filosófica da razão absoluta o fim absoluto desse movimento” (Gadamer, 2007, p. 141).

494 Convém ressaltar, sem deixar de reconhecer os méritos e a importância do conhecimento científico contemporâneo, sobretudo em termos de qualidade de vida e contribuições no aumento da longevidade.