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Heidegger não se coloca, nem do lado de um metodologismo, nem de um fundamentacionismo. Entre Heidegger e Gadamer há certa proximidade; aliás, podemos dizer que Gadamer é impensável sem Heidegger. A tese fundamental está no fato de todo intérprete estar envolvido na interpretação. Entretanto, o Dasein é constituído de comportamentos ontológicos, de modo que não é possível pensar algo antes. A realidade é depois do Dasein. Aqui entra a característica do cuidado como o já-sempre-no-mundo298. Não existe nada, a não ser via interpretação. Só porque interpretamos as coisas passam a “ex-istir”. Isso remete ao aspecto ontológico.

As modificações da temporalidade é que possibilitam o Dasein. Possibilidade não é o que vem, mas o que é, é o Dasein. “A experiência do ser-no-tempo das

296Heidegger, op. cit., p. 209. 297Cf. ibid., p. 204.

representações coloca, de modo igualmente originário, algo que se transforma ‘em mim’ e algo que permanece ‘fora de mim’”299. Acima da realidade está a possibilidade; o sentido está, pois, ligado ao poder-ser, portanto, é possibilidade.

Então a linguagem, para Heidegger, não é simplesmente um objeto presente, que está diante de nós, mas todo pensar já se faz linguagem. Quer dizer, a linguagem é mediação de meu acesso ao mundo. Todo pensar se faz numa abertura. Uma abertura de sentido que se articula lingüisticamente. Um espaço lingüisticamente mediado, no qual se abre para nós a experiência de mundo das coisas.

Ricoeur, nesse sentido, coloca bem a questão, ao considerar já pressuposto o fato de que nunca se começa de zero, isto é, desprovido de ‘pré-juízos”. Entra-se na conversa, a partir de uma determinada cultura. Nós damos uma pequena contribuição, que, depois, por assim dizer, sai pela porta dos fundos, e a conversa continua300. Entretanto, é condição que se esteja dentro da conversa, para saber do que se está tratando. Para compreender, portanto, exige-se como condição o estar ligado à linguagem, estar ‘por dentro”, conforme Heidegger o demonstra:

Na medida em que a proposição (o juízo) se funda na compreensão, representando uma forma derivada de exercício de interpretação, ela também ‘possui’ um sentido. O sentido, porém, não pode ser definido como algo que ocorre em um juízo ao lado e ao longo do ato de julgar301.

É importante perceber que Heidegger salienta que o “como” não ocorre pela primeira vez na proposição. Nela, ele apenas se pronuncia, o que, no entanto, só é possível pelo fato de já se oferecer para ser pronunciado.

Linguagem é, portanto, um espaço de revelação das coisas, porque nela se diz o sentido a partir de onde eu posso perceber o sentido das coisas. Então linguagem é, em primeiro lugar, um dizer do ser, com sentido. Linguagem é, para Heidegger, não em primeiro lugar representação, proposição. Não é que ele negue isso, mas, na proporção análoga a Wittgenstein, Heidegger vai dizer que a proposição não é a proposição originária. Há uma dimensão anterior à própria proposição que torna a proposição possível, e essa dimensão anterior à proposição é a doação do ser, a doação do sentido302.

299Ibid., p. 270.

300Cf. Ricoeur, 1991, p. 55 - 72. 301Heidegger, Ser e Tempo, p. 211. 302Cf. ibid, p. 227.

Na linguagem, por assim dizer, se dá a revelação do “centro” para nós, porque a linguagem, em última instância, é desvelamento do ser. Nela o sentido radical se desvela. Porque se desvela, ele desvela também o sentido dos entes. Quer dizer que a linguagem aponta para o ser que aponta para os entes. Dito de outro modo:

A linguagem do homem pode falar dos entes, mas não do ser. Por isso, a revelação do ser não pode ser obra de um ente, ainda que privilegiado como o ser-aí, mas só pode se dar através da iniciativa do próprio ser. (...) O homem não pode desvelar o sentido do ser. Ele deve ser o pastor do ser e não o senhor do ente303.

A linguagem não é simplesmente informação, na maneira de manipular os objetos, mas ela é revelação do sentido dos entes, porque nela ocorre o acontecimento do ser. Nela ocorre o evento da revelação dos sentidos. E, a partir desse sentido, os entes se revelam. E onde isso acontece? Ora, a temporalidade é o sentido do Dasein, o ser do ser humano é de uma força existencial e não essencial. O cuidado se coloca como o traço ontológico de todos os entes304.

O desvelamento do sentido faz com que o sujeito possa ver com clareza o objeto. A linguagem é, acima de tudo, possibilidade de desvelamento do sentido que faz com que eu possa captar o sujeito. Não é que se vai ter acesso à verdade, o que se tem é apenas a interpretação305. É aí que, em Ser e Tempo, Heidegger vai fazer toda uma análise do que é o homem como sentido e como a linguagem é elemento central da nova forma de compreender o homem.

Ele não pretende elaborar uma teoria da metodologia das ciências hermenêuticas, mas pretende rearticular a ontologia, ou seja, articular uma ontologia hermenêutica. Nela, a matéria do ser humano não é a essência. A substância do homem é a existência, ou então, dito de outro modo, está claro, para Heidegger, que a existência precede a essência, de modo que primeiramente é necessário que eu exista, para depois construir a minha essência, de modo que me é possibilitado projetar-me, isto é, poder-ser. A existência é essencialmente transcendência, sendo o homem projeto, e as coisas do mundo utensílios em função do projetar humano306.

303Reale; Antiseri, op. cit., p. 590. 304Cf. Heidegger, Ser e Tempo,p. 279. 305Cf. Coreth, 1973, p. 155.

O ser do Dasein é o cuidado, por isso somos aparentemente realistas, porque estamos habitual e familiarmente junto das coisas. Heidegger denomina esse modo de ser da decaída, em função desse ocupar-se sem mediação. Isso é uma tendência, para fugirmos dos outros dois modos que é o futuro - ser-diante-de-si-mesmo - e o passado - já-ser-no- mundo. “Entre o passado e o futuro está aquele ocupar-se com as coisas que é o presente. Essas três determinações do tempo encontram seu significado em seu ser ‘fora de si’: o futuro é um pretender-se, o presente é estar preso às coisas, e o passado é retornar à situação de fato para aceitá-la”307. Em Filosofia não há realismo. O idealismo é a única possibilidade de uma questão filosófica. “Se o título idealismo significar o mesmo que compreender a impossibilidade de se esclarecer o ser pelo ente mas que, para todo ente, o ser já é o ‘transcendental’, então é no idealismo que reside a única possibilidade de uma problemática filosófica”.308

Todo ente já pressupõe como transcendental a compreensão do ser. Ser aqui entendido como um conceito indefinível, o mais universal, sendo que “a impossibilidade de se definir o ser não dispensa a questão de seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige”309. Conforme Coreth, o compreender só é possível, olhando para a coisa que se abre e mostra na conversação com o texto metafísico310. Parece que aqui é conveniente falar do papel fundamental que a linguagem exerce nessa tarefa, conforme o visto. É nesse ponto que Heidegger se torna indispensável para compreender Gadamer. A questão central gira em torno da descoberta da pré-estrutura da compreensão. Segundo Gadamer,

Heidegger só entra na problemática da hermenêutica e críticas históricas com o fim de desenvolver, a partir delas, desde o ponto de vista ontológico, a pré- estrutura da compreensão. Nós, pelo contrário, perseguimos a questão de como, uma vez liberada das inibições ontológicas do conceito científico da verdade, a hermenêutica pode fazer justiça à historicidade da compreensão311.

Porém, antes de chegar ao seu intento, Gadamer sabe o quão importante se faz situar a problemática, partindo da estrutura circular da compreensão, mais especificamente, a partir da temporalidade do "estar-aí"312. E parte da citação da obra de Heidegger:

O círculo não deve ser rebaixado à condição de um círculo vicioso, e nem sequer a de um círculo vicioso tolerado. Nele se encerra uma possibilidade positiva do conhecimento mais originário, possibilidade que, contudo, só será assumida de

307Ibidem, p. 588.

308Heidegger, op. cit., p. 274. 309Ibid., p. 29.

310Cf. CORETH, op. cit., p. 177. 311Gadamer, 1996, p. 331. 312Cf. ibid., p. 332.

maneira autêntica quando a interpretação tiver compreendido que sua primeira, constante e última tarefa consiste em não deixar que o acontecer prévio, a maneira prévia de ver e a maneira de entender prévia lhe sejam dadas por simples ocorrências e opiniões populares. Mas em assegurar-se o caráter científico do tema mediante a elaboração dessa estrutura de prioridade a partir das coisas mesmas313.

Para Heidegger, “o ‘círculo’ da compreensão pertence à estrutura do sentido, cujo fenômeno tem suas raízes na constituição existencial do Dasein, enquanto compreensão que interpreta. O ente em que está em jogo seu próprio ser como ser-no- mundo possui uma estrutura de círculo ontológico”314.

Podemos perceber, nessas duas citações acima, que o projeto de Ser e Tempo é explicitar o sentido do ser. Somente se chega ao sentido do ser, mediante o sentido do

Dasein. Só chega-se ao sentido do Dasein, mediante o sentido do ser. Indo mais adiante,

aos poucos podemos perceber que Gadamer vai, por assim dizer, se distanciando de Heidegger. Podemos perceber, aqui, que a hermenêutica adquire dois sentidos diferentes. Para Heidegger, vai consistir na interpretação do meu próprio ser, ao passo que, para Gadamer, aparece a idéia de que tenho meu “pré”315, de modo que consigo entender o outro, se entro de uma “boa maneira” no círculo. Em Heidegger, não se percebe a presença do “outro”, o que há é a idéia de abertura do Dasein.

Gadamer buscará muito mais na hermenêutica a perspectiva de “entender aos outros”, o que em Heidegger não possui essa conotação. Gadamer retoma a hermenêutica e reintroduz a noção de sujeito. Podemos percebê-lo, por exemplo, quando ele assevera que “toda a interpretação correta deve proteger-se contra a arbitrariedade das ocorrências e contra a limitação dos hábitos imperceptíveis do pensar, e orientar a atenção ‘às coisas mesmas’”316. E, logo após, toma o “texto” como o outro em sua exposição, sem, no entanto perder os fundamentos da teoria heideggeriana, o que percebemos, quando ele afirma que "aquele que compreende um texto realiza sempre um projetar”317. Só que aqui o texto não é mais um ente disponível, pois “tão pronto como aparece no texto um primeiro sentido, o intérprete projeta em seguida um sentido do todo”, e afirma a necessidade de o projeto

313Heidegger, 1998, p. 176. 314Cf. Heidegger, 1995, p. 210.

315O prefixo vor – “pré” apresenta certa indeterminação do sentido concreto em que devem tomar-se os termos “Vorhabe, Vorsicht und Vorgriff, literalmente é ‘o que se tem previamente como dado e projeto, o que se prevê, e o modo como se projeta encerrar o tema ou os conceitos a partir dos quais se pretende acercar-se a ele’” (Gadamer, 1996, p. 332).

316Gadamer, op. cit., p. 333. 317Ibid.., p. 333.

prévio ter que “ir sendo constantemente revisado em base ao que vai resultando conforme se avança na penetração do sentido”318.

O intérprete deve examinar suas opiniões prévias em relação à sua origem e validez, o que retomaremos adiante. Convém que fique clara essa mudança de perspectiva, sem a pretensão de encerrarmos a discussão, conforme todo o texto o tenta demonstrar. A hermenêutica atualmente exerce um papel fundamental para se poder discutir a possibilidade do ser. Não se trata de um sentido restritivo, mas, como o diria Stein,

um pensador que opera com os instrumentos da hermenêutica diante da significabilidade universal escondida nos atos e fatos humanos da história, aprende também a ver a inesgotabilidade da ação da história sobre nós, portanto, a ver a impossibilidade de tornar transparentes todos os sentidos da tradição histórica319.

Tal inesgotabilidade se fará ainda mais compreendida, na medida em que, mais adiante, adentrarmos na discussão com Gadamer, especialmente na questão da apropriação da tradição e suas implicâncias. A arte e a história nos oferecerão condições para entrarmos em tal perspectiva, na proporção em que abrem o espaço de algo que escapa e não se deixa dominar pelas vias metodológicas. Permaneçamos ainda com Heidegger que dá algumas pistas nessa direção.