Na introdução do seu livro Psychoanalysis and Feminism (1974), Juliet Mitchell afirma que Freud é o inimigo público de muitas feministas, devido às suas tentativas de compreender a feminilidade. No entanto, apesar das ideias de Freud se aplicarem a um período histórico completamente diferente ao de hoje, Mitchell considera que a psicanálise, bem como o trabalho de Freud e de outros psicanalistas, são essenciais para uma melhor compreensão da posição das mulheres na cultura patriarcal. Apesar de não ter intenções de explorar muito esta área da psicanálise, acho que seria interessante rever algumas ideias que Freud usou, no seu texto “Femininity” (1933), para termos uma noção mais profunda da discriminação social da mulher, pelo que, também, ao longo do texto irei sempre voltar a alguns conceitos que Freud usou neste seu texto.
Freud argumentou que quando o homem e a mulher começam a desenvolver os seus desejos, eles vão entrar na estrutura da sociedade patriarcal, pelo que os seus desejos serão denominados de ativos ou de passivos. O psicanalista diz que o primeiro desejo a ser desenvolvido é o pela sua mãe, o que lhes dá entrada, no caso dos rapazes, no complexo de Édipo, e no caso das raparigas, na fase do pré-Édipo, e será este complexo nas raparigas que será fundamental para este trabalho. O primeiro desejo da rapariga é a sua mãe, devido à sua proximidade, pois é esta a primeira relação de amor que a criança tem “acesso”. No entanto, à medida que a rapariga é integrada na sociedade patriarcal, este desejo inicial que ela sentia pela mãe, vai se dissipar, e dar lugar a uma hostilidade, que pode durar a vida toda. Esta hostilidade representa o desenvolvimento de um novo complexo, o da castração. Ele acontece quando a rapariga compreende a importância do órgão sexual masculino (importância simbólica; “inveja do pénis”, Torok e Freud). Este acontecimento leva, segundo Freud, a um afastamento da rapariga da mãe, pois ela vai culpar a sua progenitora pela diferença entre si e o homem. Assim, a rapariga deixa de lado a fase do pré-Édipo e do complexo de castração, para entrar na fase do Édipo, em que ela passa a desejar o seu pai, pois ele representa o grupo dominante na sociedade, o homem. Ao contrário dos rapazes, que depois de destruírem o seu complexo de Édipo desenvolvem um superego que lhes permitirá desenvolver um caráter independente dos desejos e medos que o marcaram durante a sua infância, o desenvolvimento do caráter das raparigas é afetado por essas mudanças. Desta forma, o desenvolvimento das raparigas fica marcado por três novas fases: a primeira é marcada por uma inibição sexual; a segunda pela constituição de um complexo de masculinidade; e a terceira, pelo desenvolvimento de uma feminilidade normal. Assim, a rapariga será vítima de um desenvolvimento mais complicado, marcado pela ausência de
37 um órgão sexual masculino e das desvantagens que daí advêm, nomeadamente, no seu lugar na sociedade. No entanto, a reconciliação entre a mãe e a filha pode acontecer, uma vez que quando a filha passa a desempenhar o papel de mãe, ela compreenderá a sua. Esta noção da psicanálise será depois retomada nos filmes que me predispus a analisar neste trabalho, no entanto, ela é bastante evidente, na minha opinião, no filme The Portrait of a Lady (1996), de Jane Campion, pois Isabel Archer escolhe Gilbert Osmond, o seu pior pretendente, devido ao relacionamento do vilão com a filha, que depois será substituído pelo desejo da protagonista de ser mãe.
Freud tenta explicar o que é ser mulher ou como a rapariga se torna numa mulher na nossa sociedade. Ele tenta compreender como é que a mulher começou a ser o sexo oprimido e o que é que a torna diferente do sexo masculino. Apesar da explicação de como os complexos de Édipo e castração afetam ambos os sexos, Freud considera a inferioridade da mulher como uma garantia. Ainda que ele deseje uma mudança desta opressão, ele não deixa de atribuir os estereótipos que a sociedade patriarcal atribui às mulheres. Apesar de Mitchell ter argumentado que a psicanálise não é uma recomendação, mas uma análise da sociedade patriarcal, Freud atribui a passividade à mulher quando esta alcança o complexo de Édipo, e atribui sempre a atividade ao rapaz. Ainda que ele tenha argumentado, que no inicio da vida sexual da rapariga, em que ela obtém prazer através da estimulação do seu clítoris e, tendo a sua mãe como objeto de desejo, ela é um sexo ativo. Mas a partir do momento em que ocorre uma mudança no seu desenvolvimento, ela obtém instintos passivos, que não lhe permitem mais instintos ativos.
Na minha opinião, se o complexo de castração e o complexo de Édipo são fatores importantes para compreender em que medida a rapariga é diferente do rapaz, é necessário também olhar para os termos ativo e passivo e permitir-nos pensar neles, de forma a compreender o porquê do homem ser o sexo ativo e a mulher o sexo passivo. E aqui, talvez Simone de Beauvoir pode nos ser útil. Para compreendermos esta diferença, talvez tenhamos de recuar na história da humanidade, e olhar para a história do homem e da mulher. Mas para isso, é preciso que ambos tenham uma história individual e independente um do outro. No entanto, De Beauvoir, na introdução do seu livro O Segundo Sexo (1975), declara que a mulher não tem uma história, ela sempre foi dependente do homem e das suas definições do que é ser mulher, como ela diz “o eterno feminino”. De Beauvoir diz que a mulher não se define por si só, ela precisa do homem para definir a sua existência, enquanto o homem existe em si próprio. O homem é o sujeito, e a mulher o objeto. Mas esta definição foi criada pelo homem, por isso, tal como Laura Mulvey disse no seu ensaio “Visual Pleasure and Narrative Cinema”, como é que a mulher pode se tornar independente e autónoma, conseguindo definir-se a si própria sem o auxilio do homem, quando estamos numa sociedade, visivelmente, criada e dominada por ele?
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