Na representação do Portugal messiânico de Agostinho da Silva identificam-se três temas fundamentais: a criatividade, a imprevisibilidade e a liberdade (Quadro 20). Na trilogia cristã (Deus-Pai, Deus-Filho, Deus- Espírito Santo), estas são as características mais intensamente atribuídas ao Deus-Espírito Santo ou Deus-Amor. Para o autor, estes três atributos estão consubstanciados em conteúdos míticos portugueses – o Culto popular do Espírito Santo e a Ilha dos Amores.
Culto popular do Espírito Santo
O Culto popular do Espírito Santo terá surgido em Portugal no início do Franciscanismo e dele se consideram introdutores e principais divulgadores junto do Povo os reis carismáticos D. Dinis e D. Isabel (Lopes, 1971).
87 Sobre o messianismo português visto de fora, a posição de Gilbert Durand reveste-se de grande
interesse. Investigador dos aspectos simbólicos da cultura portuguesa, e poderá admitir-se que, em consequência disso, este autor tem-lhe atribuído certa predestinação: “Portugal é o lugar onde o pensamento europeu pode reencontrar as suas fontes” (citado por Quadros, 1989, p. 25).
CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras 141 Quadro 20: Características do paradigma da identidade portuguesa
Criatividade
“melhorar o mundo que há, que é a outra forma de entender a criação contínua, pela
infinidade sempre nova e sempre existente dos predicados de Deus” (ob. cit., p. 63). “Deus está sempre inventando e sempre com uma infinita possibilidade de mais inventar, como se ainda não tivesse inventado nada” (ob. cit., p. 77).
Imprevisibilidade
“se é nosso ideal o inventar da vida, de modo a não esbarrarmos com as existências previsíveis logo de início (...) tem a vida de ser inventada todos os dias, e pela única invenção que é força, a nossa própria.” (ob. cit., p. 32).
“nas condições actuais só a criança vive, no sentido basilar de que não se põe como ideal adquirir hábitos, mas reinventar o dia a cada sol que surge. O resto sobrevive, quase mais apavorado com a sobrevivência do que com a morte” (ob. cit., p. 71).
Liberdade
“Portugal tem de se arriscar à liberdade, por mais que as outras nações sigam estradas contrárias e mais ainda na medida em que as seguirem” (ob. cit., p. 32).
“(caminhos de Portugal) devem ser sempre caminhos de convergência para marchas de coordenação, nunca obrigado trilho para quem vê sua vida mais feliz noutras estradas. Fique o homem com a certeza de que está construindo sua vida, não entregando-a aos outros para que lha cortem por modelos” (ob. cit., p. 34).
“se é o nosso ideal a liberdade, só pela liberdade o podemos atingir, que todos os outros meios emperram em si mesmos” (ob. cit., p. 32).
“a única lei por que se rege Deus é a sua infinita liberdade” (ob. cit., p. 60).
Este culto, que se pode inscrever na matriz cultural do Cristianismo, distancia-se do mesmo por apresentar ritual e liturgia próprios, os quais explicitam valores e veiculam normas de comportamento que se terão autonomizado, face à hierarquia católica protagonizada pelo catolicismo romano, e que terão constituído o principal quadro de regulamentação social de inúmeras aldeias e vilas portuguesas, senão mesmo de todo o país. Para Jaime Cortesão, o Culto do Espírito Santo, bem como o de S. António ou Santo Antoninho, filiam-se no “cristianismo franciscano, em que durante séculos, em Portugal, se educaram todas as classes desde o rei ao vilão.” (Cortesão, 1984, p. 184).
O ritual do referido culto culmina, ainda hoje 88, numa grande
festividade anual e o seu ritual é manifestamente simbólico. Consiste num
88 Na actualidade só em alguns lugares do Continente se celebram as festividades típicas
do Culto do Espírito Santo, sendo nos Açores, no Brasil e entre as comunidades portuguesas dos Estados Unidos da América que o mesmo continua a ser anualmente celebrado. A bibliografia existente sobre este assunto é já vasta. Entre outros, António Quadros dedicou ao
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banquete colectivo (satisfação das necessidades do corpo), na libertação de presos (satisfação das necessidades do espírito), e na investidura de uma criança em Imperador (transformação geral na esfera do poder).
Para Agostinho da Silva, o fundamental deste culto, e que a sua liturgia assinala, é lembrar a cada pessoa a necessidade permanente de um renascimento interior, dando testemunho, no plano prático, das tarefas a realizar no plano simbólico e para as quais as características da Criança são o símbolo mais adequado:
“O ponto fundamental do culto popular do Espírito Santo não é, porém, nem o banquete comum e livre, nem o soltar de presos, nem a procissão que segue a Pomba, no estandarte ou coroa; é a instalação de uma criança como Imperador do mundo. No Paraíso terrestre que se quer (...) os interesses e os apetites dos homens, devem ceder seu trono às características infantis de atenção contínua à vida, de existência total no presente, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de integração no sonho, de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela cigarra, que logo a nossa escola substitui pelo aplauso à formiga” (ob. cit., pp. 23- 4).
Ilha dos Amores
Na Ilha dos Amores – ilha simbólica a que a deusa Vénus conduz os marinheiros portugueses de regresso da sua bem sucedida aventura de encontrar o caminho por mar até à Índia, e em que a Vasco da Gama a deusa mostra a estrutura invisível do Universo, e aos seus companheiros é dado experienciar inimaginados prazeres – estão prefigurados, segundo Agostinho da Silva, diversos interesses quiméricos dos Portugueses. Estes interesses podem resumir-se em: a) pacificação geral dos sentimentos 89; b)
sacralização do amor humano 90, simbolizado na experiência amorosa
Culto do Espírito Santo um dos seus livros, o qual apresenta uma considerável resenha bibliográfica (Quadros, 1987). Posteriormente João Leal realizou um estudo antropológico sobre as Festas do Espírito Santo nos Açores em que se podem igualmente encontrar referências a este Culto (Leal, 1994).
89 “Pelo reconhecimento da unidade perfeita, não serão necessárias as iras do amor. Se o último ideal do Português é reconquistar o Paraíso e entrar naquele despojar-se de espaço e tempo a que Luís de Camões preludiou com a Ilha dos Amores, serão dispensáveis as guerras” (ob. cit., p. 56). Neste findar das guerras o autor já não se refere apenas às disputas amorosas mas a toda a conflitualidade e violência, nomeadamente aos interesses que alimentam as guerras em sentido restrito: “terão sido os melhores militares os que têm visto a sua missão como sendo essencialmente e de manutenção da Paz, para que o mundo se vá construindo, não os que são tentados pelas aventuras ou pelos lucros das guerras.” (Silva, ob. cit., p. 56).
90 Helder Macedo acentua a estratégia de enobrecimento do erotismo, da “reconciliação
CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras 143 vivida entre marinheiros e ninfas; c) contemplação como acesso à verdadeira sabedoria, última fase a que chega o intrépido Gama, tornado calmo e simples espectador perante o muito que ainda ignorava sem saber e que Vénus lhe desvenda na maravilhosa Máquina do Mundo 91.