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In document 2017-2020 (sider 35-39)

Como crença consubstanciada na vinda de um ser (Messias) para restabelecer o reino de Deus sobre a terra, o Messianismo tem, desde logo, o carácter de acção individualizada e extrahumana 85.

85 O conteúdo messiânico enquanto parte do Profetismo Hebreu encontra no judaísmo o

seu principal quadro de referência. Para além do Profetismo Hebreu, também o Budismo, para alguns autores, poderá ser considerado uma forma de profetismo. A mensagem de Buda aos seus seguidores, de distanciamento ou desapego como via para atingir uma vida verdadeiramente boa, constitui garantia ou promessa, à semelhança da promessa-aliança de

138 CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras

Contrariamente ao anunciado pelos Profetas do Antigo Testamento, o messianismo de Agostinho da Silva pressupõe uma entidade ou entidades colectivas (Portugal e Portugal-Comunidades Portuguesas pelo mundo) e acções humanas (dos Portugueses) e o seu quadro de valores decorre mais de uma matriz inscrita nos seres humanos que de um código outorgado.

Portugal messiânico, guia da paz

O messianismo atribuído por Agostinho da Silva a Portugal poderá ser entendido como uma consequência da sua concepção de povo realista- sonhador, no que se perde a coloração de extraordinária do messianismo, e o seu profeta se torna apenas um bom observador do estado do mundo.

Os Portugueses do futuro, para Agostinho da Silva, serão messiânicos por três motivos quase pragmáticos: os Portugueses e a humanidade anseiam por valores messiânicos (componente sonho); o mundo vai precisar da vivência desses valores (componente realismo); os portugueses sabem, e também por isso podem, contribuir para concretizar o anseio em realidade (componente sonho-realismo).

O papel de Portugal como cultura indutora ou condutora explica-se: por um lado, porque os valores messiânicos – liberdade e amor irrestrito ou fraternidade – continuam inscritos na matriz cultural portuguesa e podem ser revitalizados; por outro lado, porque a posição de Portugal no contexto mundial – não ser potência implicada na guerra (ob. cit., p. 77) – é uma posição propícia à comunicação destes valores, no que se pode este tornar- se “guia” na construção de uma nova época da história humana, época fundamentalmente de paz.

Grandeza e pedra de escândalo

Outro traço do Portugal-futuro é a sua grandeza. Grandeza circunscrita pelo referido messianismo: pioneirismo na imaginação, na procura e na condução de outros à descoberta da unidade, interioridade e criatividade humanas. Trata-se da grandeza de um Portugal que já não é propriamente o Portugal-país europeu, e nem mesmo o Portugal-Comunidades Portuguesas, é mais o Portugal categoria metafísica-religiosa – “Portugal,

Yaveh com o povo de Israel. A diferença principal residirá no carácter ético em relação ao judaísmo, e no carácter exemplar relativamente ao budismo (Boudon e Bourricaud, 1982, pp. 442-3).

CAPÍTULO 5 - De um século ao outro: dois autores, duas obras 139 o grande, o todo”, “o dos grandes espaços conhecidos e o dos espaços ignotos ainda dentro e fora do homem”. É um Portugal resíduo ou embrião de uma ideia nova, um “Portugal-núcleo” de paz mundial 86:

“Portugal, o grande, o todo, o de amarelos, brancos, pretos e vermelhos, o de islamitas, cristãos, judeus, animistas, budistas, taoistas, o da América, Europa, Ásia, África, Oceânia, o dos municípios, tribos e aldeias, o de monarquias e repúblicas, o dos grandes espaços conhecidos e o dos espaços ignotos ainda dentro e fora do homem, o Portugal núcleo de formação de uma União Internacional dos Povos para o desenvolvimento, a liberdade e a paz, (...) deve, audaciosamente, preceder os outros povos, estabelecendo ensino ou aprendizagem superior que estejam já encaminhados a uma era em que o homem seja plenamente criador e deixe como traço de sua passagem na vida esse aproximar-se cada vez mais da essência da criação divina.” (ob. cit., p. 50).

A grandeza atribuída a Portugal é de serviço, de luta contra o fatalismo instalado, de heroicidade despojada, de desocultação da luz que se obscureceu na humanidade e a uma parte reduziu ao subdesenvolvimento. É para um imenso campo de unificação planetária que Portugal tem por missão guiar o mundo; é para o eclodir de um processo generalizado de multidentificação – racial, cultural, administrativa, planetária, geográfica, psicológica – que devem orientar-se as acções portuguesas.

Para poder liderar este movimento Portugal deve aceitar “ser pedra de escândalo”:

“Portugal tem de ser pedra de escândalo neste mundo de hoje que tão disposto parece a aceitar a situação como fatal, tem de ser ponta de lança dos países subdesenvolvidos para que todos se desenvolvam, como tem de ser o advogado dos pobres no sentido de que venham todos a ser ricos” (ob. cit., p. 53).

Ser “pedra de escândalo”, expressão evangélica, auto-atribuída por Jesus, significa o sinal da contradição, um dos principais argumentos do Profetismo, na medida em que a mensagem do Profeta não chega a ser unilateralmente subversiva; ao contestar a ordem presente, este está a constituí-la em nova ordem, religando-a à ordem inicial (Boudon e Bourricaud, 1982, pp. 443-4). No presente caso, esta é uma das expressões

86 A representação de um Portugal ao serviço da humanidade será um dos aspectos em

Agostinho da Silva que evidencia a sua herança do messianismo português na linha directa de Vieira, em que esta ideia já estaria expressa: “E o Quinto Império significa antes de tudo o mais a refundação da humanidade. Com efeito, os textos de Vieira mostram claramente que, menos do que de Portugal, é antes do futuro homem que se trata.” (Gil e Macedo, 1998, p. 10)

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que claramente aproximam Agostinho da Silva do papel de Profeta, que em geral rejeitou, mas que a tonalidade do seu discurso jamais deixa de manifestar e ao qual, em certos momentos, o próprio se rende, como é o caso na atribuição explícita do referido messianismo aos Portugueses e povos da língua portuguesa 87:

“vos tomarei um pouco mais de tempo para mais um [ponto]; e é ele o de tantas vezes atribuir papéis de messianismo aos povos da área da língua portuguesa, o que significa nitidamente que só creio possível tal messianismo e tal guia dos outros quando Portugal não for apenas o das corografias, mas a perfeita fraternidade, igualdade e camarada marcha de xinguanos e minhotos, ou de macuas e timorenses, ou de mineiros e macaistas, esquecidos inteiramente de quando púnhamos branco por superior a negro ou amarelo por superior a branco; ou de quando tínhamos fome; ou de quando tínhamos medo. Mas efectivamente o penso; o mundo vai precisar de quem empunhe o estandarte da paz e não creio que estejam a ponto de desempenhar tal papel no futuro as grandes potências comprometidas na guerra” (ob. cit., p. 77).

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