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6. A CULTURA ORGANIZACIONAL

Este capítulo pretende analisar algumas manifestações culturais das diferentes faculdades da Universidade do Minho contempladas neste estudo, atribuindo, ainda, uma atenção especial a possíveis assimetrias. Paralelamente, visa efectuar uma primeira avaliação do impacto desses valores, artefactos e práticas culturais ao nível da gestão da diversidade e da igualdade de oportunidades nesta organização académica.

6.1. Os Valores

Os participantes neste estudo foram convidados a pensar e a enumerar os valores organizacionais, tarefa considerada árdua para bastantes indivíduos, nomeadamente membros das faculdades de Ciências, de Economia e Gestão e de Engenharia. Visou-se, ainda, aclarar em que medida tais valores lhes afiguram específicos à sua unidade ou gerais a toda a Universidade do Minho.

O quadro 16 apresenta um número significativo de valores organizacionais explicitados pelos inquiridos deste estudo, notando-se, porém, uma clara dispersão na sua enumeração, quer entre as várias faculdades em análise, quer ao nível de cada uma destas unidades orgânicas. Por exemplo, valores como "anarquia", "crítica intelectual" e

"criatividade" são mencionados uma única vez. Realce, porém, para o número elevado de indivíduos que aborda os valores "individualismo" e/ou "colectivismo". Na Escola de Engenharia e, de certo modo, no Instituto de Letras e Ciências Humanas parece vigorar o colectivismo. Aliás, este último Instituto destaca-se pela considerável percentagem de indivíduos que refere a preponderância de um espírito de cooperação e solidariedade. Eis alguns excertos ilustrativos:

"Talvez por força da nossa área, é uma área em que o colectivismo conta muito mais do que a pessoa individual. Portanto, existe toda uma complementaridade de conhecimentos que é preciso garantir. Eu diria que o colectivismo nem sequer é uma opção, é imprescindível que o colectivo valha muito mais do que o individual. Tem que existir mesmo junção de esforços, são projectos de dimensão considerável que uma pessoa só nunca consegue, já não consegue, responder. Já não estamos no tempo do Edison em que se podia descobrir uma lâmpada sozinho, sem a ajuda de mais ninguém." (Entrevista n.º16, Escola de Engenharia)

"Há uma solidariedade razoavelmente grande, não se notam aqui os problemas que se notam nas outras Escolas de grandes despiques, de grandes problemas internos, etc., não se nota. (… ) Não notamos certos problemas de idas para equiparações de bolseiros, de concursos para isto ou para aquilo. Quer dizer, não há, de facto, uma sobreposição do individual ao colectivo." (Entrevista n.º37, Instituto de Letras e Ciências Humanas)

Em contrapartida, na Escola de Economia e Gestão, no Instituto de Educação e Psicologia e no Instituto de Estudos da Criança, o individualismo apresenta-se como valor dominante. Paralelamente, apresentam-se como as faculdades em que é feita uma maior alusão ao valor "competição/egoísmo". Veja-se alguns testemunhos que demonstram, nitidamente, estes valores:

"Portanto, a mim parece-me que não há cultura do colectivismo, nesse sentido. (… ) Cheguei à conclusão de que, a mim o que me parece, é que o que importa às pessoas é, essencialmente, a sua própria progressão na carreira e que há duas ou três pessoas que se importam em contribuir e em fazer coisas e em gastar tempo para o bem da Escola, mas,

depois, isso não é reconhecido. E, na medida em que isso não é reconhecido, nós ficamos frustrados e pensamos em fazer como os outros: 'vou tratar da minha vida e salve-se quem puder'." (Entrevista n.º7, Escola de Economia e Gestão)

"As pessoas são muito preocupadas com elas próprias, muito individualistas, e acabam, muitas vezes, por atropelar os outros." (Entrevista n.º25, Instituto de Educação e Psicologia)

De realçar, ainda, o número elevado de respondentes da Escola de Ciências que defende a coexistência de ambas as posturas, isto é, enquanto uns docentes se revelam mais individualistas, outros apresentam uma postura preferencialmente colectivista. Destaque, por outro lado, para o considerável número de inquiridos da Escola de Ciências, da Escola de Engenharia e do Instituto de Estudos da Criança que apresenta a excelência profissional como um valor fundamental. Eis um ponto de vista significativo:

"Eu acho que as pessoas, aqui, tentam sempre dar o seu melhor. E é óbvio que se privilegia, tanto quanto possível, a excelência, mas acho que não somos assim tão excelentes quanto isso. Mas é um valor, claro que é, em todos os domínios, mas sobretudo no domínio da investigação, ao nível dos papers que se publica. Presta-se muita atenção ao impacto científico das publicações, se são publicadas em revistas com grande impacto ou não. Pressiona-se muito para, realmente, haver publicação. (Entrevista n.º24, Escola de Ciências)"

Paralelamente, e embora não se verifiquem tendências em termos de área disciplinar, parece pertinente referir os pareceres de um número reduzido de indivíduos de diferentes faculdades que, evidenciando uma postura francamente critica face à sua organização, apontam valores como o paternalismo/apadrinhamento e, em certa medida, a mediocridade profissional. Veja-se, a este respeito, o que é referido por dois indivíduos de escolas distintas:

"Nós temos a cultura e os valores da administração pública em Portugal, que são o autoritarismo, o paternalismo, a falta de diálogo e as capelinhas, os feudos, as quintas, a fragmentação." (Entrevista n.º2, Escola de Economia e Gestão)

"A nossa cultura é uma cultura que condena a excelência, que tenta apagar do mapa as pessoas que sobressaem, o que vem um bocadinho da ditadura, em que os indivíduos inovadores não devem aparecer porque eles vão trazer turbulência a um sistema que é rígido, e nós temos essa herança, infelizmente." (Entrevista n.º11, Escola de Engenharia)

Em contrapartida, verificam-se alguns testemunhos, novamente dispersos em termos de Escola/Instituto, que sublinham valores como a hierarquia do mérito, a crítica intelectual e a ética profissional, e o respeito mútuo, o humanismo e a igualdade:

"Aqui há ideias muito fortes, há a ideia do rigor, a ideia do trabalho sério, baseado numa ética profissional que passa por não haver muita compreensão para coisas como faltar sistematicamente, para coisas como não orientar estágios convenientemente, como desempenhar cargos de maneira atabalhoada, desinteressada, não é? Quer dizer, o desempenho negligente é altamente condenado. (… ) Não há assuntos, digamos, tabu. Todos os assuntos são tratados. Inclusive, o meu departamento tem um hábito, tem uma tradição que eu não sei se é comum aos outros departamentos, e que é um forte sentido de crítica. (… ) Por exemplo, as pessoas que já fizeram as suas provas, que até já as defenderam, vão ali para verem discutidos em grupo os seus trabalhos. Há, portanto, um ambiente aberto de critica intelectual. (… ) Para além disso, há uma hierarquia de mérito, há ali uma meritocracia, claramente. Do mérito, do trabalho, da criatividade… , eu vejo as coisas mais assim. (… ) Dá-se muita importância à excelência, ao trabalho, e qualquer um pode, assim, obter protagonismo. Toda a gente é totalmente aberta de um modo intelectual e não hierárquico, em que, por exemplo, o director do departamento é criticado. Nós somos contestados, nós contestamos." (Entrevista n.º29, Instituto de Educação e Psicologia)

"A pluralidade, a abertura aos outros, através até da nossa prática do ensino e da aprendizagem das línguas estrangeiras… (… ) Temos gente assumidamente católica, gente assumidamente não católica, de todas as facções políticas… e convivemos muito bem com isso. (… ) A tolerância, eu acho que, para além de ser ensinada - nós temos o Departamento de Filosofia e Cultura que tem toda a área da ética e que trabalha com os alunos -, eu acho que nós praticamos uma pluralidade realmente a sério, não há qualquer problema aí." (Entrevista n.º35, Instituto de Letras e Ciências Humanas)

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