É no percurso profissional dos indivíduos que se reflete uma avaliação em tempo, em perceções, e ao nível do envolvimento, que permitem aos mesmos exprimir opiniões e atribuir valor ao que fazem e ao que representam para a organização. Neste ponto são abordadas questões sobre a importância do trabalho para os indivíduos inquiridos, assim como identificar possíveis
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aspetos do domínio pessoal que possam influenciar a capacidade de resposta às exigências do trabalho.
A importância do trabalho para estes profissionais é evidente revelando o seu contributo na realização pessoal e gosto pela profissão. No entanto, identificam-se também sentimentos de insatisfação que de acordo a teoria de Herzberg (nomeadamente fatores intrínsecos), decorrem da incapacidade de responder a assuntos da vida pessoal pela exigência do trabalho:
“O meu trabalho é muito importante para a minha vida, mas a minha vida é muito mais importante que o meu trabalho. Ou seja, eu preciso do trabalho para viver, para pagar as minhas contas no final do mês… Agora, tenho a noção que a minha vida lá fora é muito mais do que isto. Agora, sem dúvida alguma, eu vivo muito para o meu trabalho, porque nós estamos a estudar, eu ainda hoje vou para casa e vou estudar, tenho exames para a semana de ‘suporte avançado de vida’, e a nossa vida profissional está sempre a alterar, eu tenho de estudar para me atualizar, não posso ficar há 15 anos atrás e com o que se fazia há 15 anos atrás. É um trabalho que exige alguma preparação e algum tempo da vida pessoal.” (Enfermeiro, em união de facto e com um filho, em regime de horário por turnos)
“Eu gosto muito daquilo que eu faço, gosto muito do serviço onde eu estou e sinceramente neste momento não me via a fazer outra coisa, porque gosto mesmo, senão não estava há 14 anos nisto. Mas digo-lhe que já foi bem mais fácil porque o stress, as condições de trabalho e a nível monetário, tudo isso também faz com que uma pessoa às vezes pense se realmente é isto que eu quero continuar a fazer.” (Assistente Operacional, casada, com um filho e em regime de horário flexível atualmente)
“É importante porque eu, também para me sentir realizada a nível pessoal, tenho de me sentir realizada a nível profissional, caso contrário também não me vou sentir bem.” (Enfermeira, casada e com dois filhos)
“O meu trabalho, na minha vida é vital. Foi a opção que eu tive em termos profissionais, tenho realmente a profissão que desejei e não me vejo de outra
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forma senão a exercer. Agora, podendo exercer num período mais restrito de tempo, permite-me realmente equilibrar tudo o resto o que para mim é uma mais-valia. [Isto é,] Sem descurar a parte de poder exercer a minha profissão, mas num tempo mais limitado.” (Técnica de Diagnóstico e Terapêutica, casada, com dois filhos e em regime de trabalho em meia jornada atualmente) “O trabalho para mim é tudo, aliás, sem o trabalho acho que não era nada, portanto levo muito a sério aquilo que faço, e para mim o trabalho é tudo, sem dúvida. Eu realizo-me trabalhando, não sendo apenas para sobreviver que trabalho, o trabalho para mim é tudo mas sempre com o intuito de querer saber mais, aprender mais, não é só porque tenho que ganhar dinheiro, é uma questão de realização pessoal.” (Assistente técnica, solteira e sem filhos)
Aliada a esta importância que é dada por grande parte dos entrevistados ao domínio laboral, preocupando-se em responder em plenitude às exigências do trabalho, são associados sacrifícios na vida pessoal. Estes sacrifícios tanto parecem gerar sentimentos de arrependimento como de “dever cumprido”.
“Hum…. Em termos dos horários dos miúdos e o meu horário, da escola, das atividades, às vezes podia ter tempo para eles e não tenho. Não lhes dou a devida atenção em tempo, disponibilidade e por vezes em atenção.” (Assistente técnica, casada e com três filhos)
“Agora, sim estou [abdicar de alguma coisa da vida pessoal em prol da vida profissional], já abdiquei de fazer uma coisa que… [silêncio seguido de choro] Foi num aspeto, em que eu tocava e ainda faço parte de uma banda filarmónica da minha aldeia, em que fui criado nessa aldeia e tenho lá os meus amigos de infância, e muito por esses motivos de ser muito apegado à minha família, tenho lá os meus pais, mas os meus avós, primos, tios, estão lá em Chaves. E essa banda filarmónica de uma aldeia pequenina, em que nós vivemos muito aquilo, como somos poucos, vivemos aquilo ao máximo, e ir para Lisboa, [levou a que] já os via só algumas vezes, pronto. Mas vir para Braga, tirou-me muito mais disso [a distribuição de horários e constituir
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família], que era uma coisa que eu adorava fazer, toco trompete e adorava fazer, e neste momento tenho feito muito pouco. Estou perto mas mais longe. Foi uma das coisas que abdiquei em detrimento da vida profissional. Sim, aqui há vários aspetos [negativos], é verdade. Agora, eu neste momento se calhar estou a por muito da minha vida profissional à frente da minha vida pessoal. A minha vida profissional tem alguns aspetos que são dificultadores da vida pessoal, como seja, carga horária excessiva, má remuneração… que se verifique depois, que se repercute na minha vida pessoal, não posso fazer tudo aquilo que queria, tenho de orientar os ‘dinheiros’ [risos], e stress profissional que me causa todos os dias, isso sem dúvida.” (Enfermeiro, em união de facto e com um filho, em regime de horário por turnos)
“Sim abdiquei, de Natais que não passo com o meu filho, de fins de semana que não posso ir de fim de semana, ou férias, quando o meu marido tem férias e não posso ir porque ele não tem férias quando eu tenho e nesse aspeto é bem mais complicado.” (Assistente Operacional, casada, com um filho e em regime de horário flexível atualmente)
“Também porque o trabalho exige muito de nós e depois nós deixamos de ter tempo e energia para dar atenção à nossa família. A nossa família por vezes é prejudicada por essa falta de atenção, que nós já não conseguimos, porque o trabalho exige muito de nós.” (Assistente técnica, casada e com dois filhos) “A disponibilidade que eu tenho aqui, para o trabalho, se alguém falta, não é a mesma. Porque eu para vir trabalhar e se o meu filho não tiver escola, tenho de me preocupar com quem é que pode ficar com ele. Mas é mais difícil com filhos, claro que é mais difícil gerir tudo. Até em casa, às vezes uma pessoa vai daqui cansada e também a disponibilidade para ele… temos que [a] ter, mas às vezes não é fácil.” (Assistente Operacional, casada, com um filho e em regime de horário flexível atualmente)
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Com as repercussões dos sacrifícios anteriormente descritos, associam-se a alguns dos discursos dos entrevistados uma associação de baixa importância ao trabalho.
“Quando se começa a ter vida familiar, trabalhar por turnos não é de todo saudável, aliás a minha filha, se lhe perguntar o que ela quer ser [fazer no futuro], ela diz ‘tudo menos trabalhar num hospital’, portanto eu acho que já a traumatizei! Não passar o Natal com a minha filha, porque eu trabalhava por turnos, só agora é que estou a tentar fazer um horário fixo, mas lá está, porque tive a minha segunda filha e parei para pensar que os meus pais não são meus criados, e a minha filha diz logo que eu não passei a infância com ela. Ao trabalhar, leva a que eu não esteja com ela nas férias, uma diversidade de coisas que poderia ter feito e não fiz, porquê, porque estava a trabalhar! Porque quem trabalha por turnos, podemos estar livres à semana, mas eu estar livre à semana, ela está na escola, eu não lhe estou a dar tempo nenhum, e quando eu deveria estar com ela eu estou a trabalhar, porque trabalho por turnos. A importância [do trabalho] vai diminuindo. É engraçado que vai diminuindo, ao longo da idade, isto porque no início estamos muito virados para o sucesso profissional, e queremos fazer tudo, aliás eu estou numa área em que nós gostamos de trabalhar em todas as especialidades, somos novos e queremos desenvolver ao máximo. Aliás, fazemos as formações, fazemos mestrados, fazemos de tudo e depois paramos para pensar que já atingimos um certo nível. Não concordando com o pensamento ‘que já aprendi tudo’, não, porque nós estamos sempre a aprender. Agora, vamos é conotando a vida profissional de outra forma, ou seja, nós no início de carreira damos mais porque estamos mais facilitadas, não temos filhos, há mais disponibilidade, estamos mais direcionados para o crescimento profissional. Já abdiquei de muito tempo com a minha filha, como já referenciei, mas neste momento não estou a abdicar de nada, neste momento estou virada para a minha família.” (Técnica de Diagnóstico e Terapêutica, divorciada, com dois filhos e em regime de horário fixo atualmente).
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“É assim, até há pouco tempo era muita [a importância atribuída ao trabalho], neste momento não. O excesso de turnos, de há uns anos para cá, as jornadas mais contínuas, porque doze horas, doze horas é pesado, é… depende muito também do serviço, há serviços que se fazem melhor, até o facto de ter janelas num serviço faz-se melhor do que não ter. Trabalhar em dias de festas, que eu acho que dificultava… pronto, as festas, que é o evidente, não é? Quem… com quem vais deixar [os filhos] e onde eu vou deixá-los, e o Natal e… pronto, mas sempre com os filhos, não é? Não são eles o problema, mas são eles os dependentes de nós.” (Enfermeira, casada, com dois filhos e em regime de horário fixo atualmente)
“Trabalho porque necessito de uma fonte de rendimento, já encarei como realização pessoal, neste momento não!” (Enfermeiro, casado e com dois filhos, em regime de horário por turnos)
4.3. Discursos sobre a vida pessoal/familiar e suas exigências perante o domínio