2. Teoretisk rammeverk
2.2 Forskningsspørsmålets kontekst
Não há como falarmos em táticas e estratégias de compreensão das expressões idiomáticas sem deixarmos claro o que estamos a entender por compreensão, estratégias, expressões idiomáticas e sua tipologia.
Pressupomos que, para cada tipo de expressão idiomática, é possível que tenhamos estratégia especial para desvelar o seu sentido não literal em situação de uso na interação verbal.
Iniciemos, então, pela questão da compreensão das expressões idiomáticas numa perspectiva psicolinguística. Considerando que a compreensão das expressões idiomáticas de uma língua dada inclui informações que transcendem o nível puramente sintático, morfológico, semântico e pragmático, entendemos que questão do sentido idiomático é elucidada a partir de aportes teóricos da Psicolinguística e Psicologia Cognitiva.
Feitos esses recortes das disciplinas envolvidas na questão da problemática do sentido idiomático, no âmbito propriamente dito da Psicolinguística, recorreremos aos conceitos de compreensão, estrutura cognitiva e memória de longo prazo propostos por Smith (1999, p. 80; 2003, p. 361).
Acreditamos que a passagem do sentido literal (SL) para o sentido idiomático (SI) das expressões idiomáticas, portanto o ato de acessar o sentido fraseológico, resultaria da competência semântica metafórica ou dos falantes, sejam nativos ou não nativos, a partir de sua estrutura cognitiva.
Por compreensão, entendemos a competência semântica que o falante, seja nativo ou não nativo, de dada língua, tem de interpretar qualquer expressão linguística, complexa, capaz de construir representações conceituais (NEVEU, 2008, p.75) a partir de sua memória de longo prazo e de sua visão de mundo (STERNBERG, 2008, p192).
No caso da compreensão de uma expressão idiomática pelos falantes que, geralmente, não a apreendem, na primeira vez que a escutam, é possível que a descoberta dos sentidos parciais das unidades léxicas e das regras por meio das quais se combinam a dita expressão seja uma estratégia especial de entendimento dos idiomatismos (FILLMORE, KAY e O’CONNOR, 1988).
Como a questão do sentido das expressões idiomáticas tem sido bastante problemática ou negligenciada pelos modelos linguísticos (gerativistas, por exemplo), recorremos, aqui, à Gramática das Construções proposta por Fillmore et ali (1988) que defendem a ideia de que as construções complexas (sintagmas ou sentenças) têm as mesmas propriedades semânticas e pragmáticas que os itens lexicais, estabelecendo, a partir daí, uma tipologia de expressões idiomáticas (FERRARI, 2011, p.130).
Do ponto de vista psicolinguístico, também levamos em conta em nossa pesquisa a noção de estrutura cognitiva. Graças à estrutura cognitiva, os falantes são capazes de compreender as estruturas mais complexas ou irregulares de uma língua à medida que recorrem, como sujeitos de seus atos de fala, nas situações de interação social, ao seu léxico mental, onde ativam, muitas vezes de maneira automática ou involuntária, informações sobre o que conhecem e acreditam a respeito do mundo e, a partir daí, podem estabelecer relacionamento de novas informações àquilo que já sabem sobre a língua, a cultura e a experiência corpórea no mundo.
Smith (1999) defende a ideia de que na estrutura cognitiva está “a totalidade de organização de conhecimento do cérebro” (p. 80; e 2003, p. 361). Ao longo de nossa pesquisa, também iremos nos referir à estrutura cognitiva como “memória de longo prazo” ou “teoria do mundo na cabeça”, com o objetivo de reforçar o pressuposto de que a compreensão é a fonte de predições ou adivinhações psicolinguísticas que nos possibilitam encontrar sentido nos acontecimentos e na linguagem.
Mais especificamente por memória declarativa de longo prazo, entendemos “o conhecimento e a crença que fazem parte da nossa compreensão mais ou menos permanente do mundo” e que se refere a “tudo o que nós sabemos sobre o mundo e do que é organizado e faz sentido (SMITH, 1999, p.44).
Quanto à noção de estratégias, recorreremos ao conceito de Solé (1998). Segundo ela, estratégias são procedimentos que regulam a atividade dos falantes, à medida que sua aplicação permite selecionar, avaliar, persistir ou abandonar determinadas ações para conseguir a meta a que nos propomos (p.69). Por exemplo, quando o falante escuta ou lê a expressão idiomática andar com a pulga atrás da orelhae descarta, em sua interpretação, o sentido literal, “caminhar com o inseto na orelha”, em favor de “estar preocupado ou cismado”, recorre às suas habilidades cognitivas relacionadas com sua capacidade de perceber o próprio conhecimento sobre
os insetos, de pensar sobre a atuação ou emprego da expressão no uso social da língua. São essas informações, no nosso entendimento, que lhes permitem o abandono de uma interpretação literal em favor de uma interpretação idiomática.
Consideramos fundamental, em nosso estudo, desde cedo, a separação das táticas (bottom-up) das estratégias (top-down) de compreensão. Tal medida decorreu de reconhecermos que ambos os tipos se baseiam em recursos cognitivos distintos.
As táticas bottom-up estão relacionadas com a mecanização e automatização dos dados da memória ativa ou memória de trabalho. Estas táticas, portanto, estão a serviço da memória de curto prazo, isto é, de uma memória funcional, que "retém brevemente aquilo que prestamos atenção" e "também uma duração muito limitada" (SMITH: 1999, P.40). Dizendo de outra forma, diríamos que os participantes ao utilizarem as táticas bottom-up tentaram imediatamente superar suas limitações, daí recorrerem a SI para poder engajar-se, através de estratégias top-down, nos processos de compreensão idiomática.
Segue abaixo quadro contendo abreviaturas e descrições das táticas bottom-up e estratégias top-down usadas na análise do Corpus Afri:
T Á T IC A S B O T T O M -U P
RP Repetir ou parafrasear a expressão idiomática
O informante voltar a ler ou a dizer (o que já leu ou ouviu) ou diz de maneira diferente o mesmo conteúdo em que aparece a expressão idiomática no texto lido.
DA Discutir e analisar a expressão idiomática ou o seu contexto sem adivinhar o sentido
O informante analisa a expressão idiomática e levanta questões a respeito do seu sentido, examinando detalhadamente seus elementos lexicais, sem chegar, porém, ao sentido translatício ou fraseológico da expressão.
SI Solicitar informações sobre a expressão idiomática ou sobre elementos constituintes de uma imagem que pode evocar uma unidade fraseológica
O informante pede ajuda técnica ao examinador dos testes. Com exceção de informações relacionadas ao sentido da expressão idiomática, o examinador fornece informações metalinguísticas, sintáticas e pragmáticas, de modo a encorajar o informante a continuar falando sobre a expressão idiomática (contexto de estímulo) ou a imagem apresentada (imagem de estímulo) durante a aplicação dos testes
E ST R A T É G I A S T O P - D O W N
AC Adivinhar o sentido da expressão idiomática a partir do contexto formal.
O informante consegue decifrar ou interpretar o sentido da expressão idiomática a partir do contexto formal dado, extraído de texto (matéria, coluna etc) de jornal de circulação nacional ou de exemplo dado pelo pelo experimentador.
AA Adivinhar o sentido da expressão idiomática a partir alternativas de múltipla escolha)
O examinador, depois de observar a dificuldade do informante em dar uma paráfrase definitória da expressão idiomática indicada, apresenta ao informante três alternativas de múltipla escolha (a,b,c), sendo uma com paráfrase idiomática ou contextual (correta), uma com paráfrase literal (parcialmente correta) e uma paráfrase com distrator crítico (incorreta).
AT Adivinhar o sentido da expressão a partir de contexto formal (texto de circulação) ou de contexto informal ou improvisado(texto ad hoc)
O informante solicita ao examinador um contexto formal de uso da expressão idiomática ou contexto informal com a expressão idiomática dada no item do questionário. O examinador pode ter a iniciativa de anunciar ou disponibilizar os textos para o informante. No caso de exemplo formulado pelo examinador, com o mesmo sentido idiomático da expressão idiomática do texto formal, caracteriza-se por seu aspecto espontâneo e o mais próximo possível da linguagem comum da variante brasileira do português.
SL Usar o sentido literal da expressão como uma chave para o seu sentido idiomático
O informante recorre ao sentido literal da expressão idiomática para desvelar seu sentido idiomático durante a realização dos testes, podendo utilizar este recurso antes ou depois da leitura do contexto de estímulo (texto), antes ou depois de solicitação de informação (SI) ou depois de fornecida uma ajuda técnica pelo examinador.
CP Usar os conhecimentos prévios para descobrir o sentido da expressão idiomática
O informante emprega seus conhecimentos prévios (memória de longo prazo) relacionados à metalinguagem, ao assunto do texto, à intercultura e às experiências de vida (memória cotidiana ou autobiográfica)
L1 Referir-se a uma expressão idiomática em L1 (crioulo cabo- verdiano/crioulo guineense) para entender a expressão idiomática em L2 (variante brasileira da Língua Portuguesa)
O informante na construção ou elaboração de sua compreensão da expressão idiomática em L2 faz referência à sua língua materna (crioulo), inclusive, quando solicitado, buscando uma expressão nativa equivalente à do português brasileiro.
OE Usar outras estratégias.
O informante recorre a uma série de operações extralinguísticas ou heurísticas, que não pertencem ao sistema da língua ou ao sistema fraseológico do português, associando-se à aplicação destas na compreensão das expressões idiomáticas no que tange ao sujeito e/ou à situação, e ao conhecimento de mundo que os falantes compartilham.
As táticas e as estratégias de compreensão de expressões idiomáticas, conforme podemos observar no Quadro 4, foram distribuídas em dois grupos: (a) táticas bottom- up e (b) estratégias top-down, inspiradas na terminologia strategy preparatory e strategy guessing, adotada por Cooper (1999, p.242-244).
As táticas bottom-up permitem aos participantes clarificarem e consolidarem o conhecimento linguístico ou a informação semântica sobre as locuções verbais
idiomáticas (Tática RP ou RP, repetir ou parafrasear a expressão idiomática); para ganhar mais tempo antes de proferir um palpite ou para ensaiar uma resposta ou ainda peneirar nova informação linguística, muitos participantes discutiram e analisaram (literalmente) a expressão idiomática (Tática DA ou DA); e para colherem informações adicionais, a fim de começarem a falar sobre a expressão idiomática, isto é, dar um palpite mais seguro ou abalizado sobre o sentido fraseológico da expressão idiomática, os participantes solicitaram informações (exceto as diretamente relacionadas ao sentido idiomático) sobre a expressão idiomática ( Tática SI ou SI).
As estratégias top-down representam, em nossa pesquisa, os casos em que os participantes arriscam uma interpretação das expressões idiomáticas, e estas estratégias foram categorizadas assim: adivinhar o sentido idiomático a partir do contexto (Estratégia AC ou AC); usar o sentido literal (Estratégia SL ou SL) para chegar ao sentido idiomático; utilizar seus conhecimentos prévios (Estratégia CP ou CP); referir- se à sua L1 (Estratégia L1 ou L1), inclusive, com registro de variações linguísticas nos caso dos dialetos cabo-verdianos como Crioulo do Fogo, Crioulo de Santiago, Crioulo de São Nicolau e Crioulo de São Vicente e Crioulo de Santo Antão; e quando usaram outras estratégias (Estratégia OE ou OE), estas, em particular, além de não se enquadrarem nas estratégias indicadas anteriormente, consistiam em situações a que os participantes recorriam a "tentativas cegas", isto é, arriscavam uma resposta por meio tentativa-e-erro na Tarefa de Identificação Fraseológica (fixação fraseológica) e na Tarefa de idiomaticidade Fraseológica (opacidade semântica) das expressões idiomáticas previstas neste e nos demais experimentos, envolvendo zoomorfismos, somatismos ou especiais ( botanismos, no caso deste 1º experimento).
Para assegurar a confiabilidade da pontuação das tarefas dos experimentos experimento e da codificação das táticas e estratégias de compreensão idiomática, treinamos um grupo de seis transcritores (professores com formação em Letras, oriundos da UVA, em Sobral) e convidamos um segundo examinador, no caso, uma professora de língua portuguesa experiente, esta, especificamente para colaborar na marcação das respostas aos testes e categorizar as táticas e estratégias de protocolo verbal think aloud, revisando, também, em conjunto, detidamente, com o pesquisador, as respostas consideradas corretas, parcialmente corretas, e as respostas incorretas das tarefas do experimento e na codificação adequada dos segmentos discursivos, de modo
a chegarmos a uma concordância em 100%, sobre o que julgávamos como sendo táticas e estratégias de compreensão, presentes no Corpus Afri.